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Internacional

O futuro da Igreja Católica

Bento XVI pode surpreender nos soberanos 15 dias finais

por Wálter Maierovitch publicado 14/02/2013 15h00, última modificação 06/06/2015 18h25
Nesse período, contam os adeptos fervorosos de Ratzinger, um troco poderá ser dado aos que o fizeram renunciar

Bento XVI não morreu. No entanto, o seu prazo de validade não passa de 15 dias. E até o seu anel papal será destruído à marteladas do carmelengo, que é o cardeal trapalhão Tarcísio Bertone, atual inimigo (muitos falam em traidor) depois de carreira pendurada na batina de Ratzinger, em especial no Santo Ofício, hoje “Propaganda Fede”.

Trata-se de uma renúncia com prazo e hora preestabelecidos, avisados os cardeais que participavam de um Consistório, em sessão voltada a efetivar duas canonizações (Maria Guadalupe Garcia Zavala e Laura de Santa Catarina de Siena Montaya y Upegui) e ao reconhecimento de 800 martírios em Otranto.

Parêntese.  Soubesse desse macete vaticano de marcar dia e hora, o golpista Jânio Quadros poderia ter, antes do prazo assinado, reconsiderado a renúncia e, assim, deixado de crucificar perante a história o seu ex-ministro Pedroso Horta. Fechado parêntese.

No Brasil costuma-se ironizar diante da aproximação de um fim de mandato. Dizem que é servido café frio para aquele que está para cair fora. Será diferente na monarquia, eletiva e não hereditária, instalada num enclave reconhecido soberano pelo Tratado de Laterano de 1929 e que leva a assinatura do primeiro-ministro italiano Mussolini?

Em outras palavras, o que acontecerá nos 15 dias finais de soberania do papa Bento XVI, que depois e por vontade própria será rebaixado ao posto de cardeal (cardeal Ratzinger), com direito a continuar a usar paramentos de cor branca e não purpurado como os demais?

Não se deve esquecer que o papa Ratzinger escolheu 67 dos 117 cardeais que participarão do conclave que elegerá o novo papa.

Tem mais. Ratzinger avisou que irá residir nos jardins vaticanos, numa espécie de monastério que mandou restaurar e que antes abrigava um convento de clausura (12 celas) de nome Mater Ecclesiae.

Também não se deve olvidar que Ratzinger colocou na lei maior vaticana um artigo a estabelecer, na eleição do papa, a maioria de 2/3. Como serão convocados 117 cardeais para votar, haverá necessidade, para a eleição do papa, de 78 sufrágios. Ou seja, Ratzinger, que não irá estar presente no Conclave (tem direito de participar como cardeal mas não tem legitimidade para votar pelos seus mais de 80 anos de idade) influenciará na escolha. E não se deve esquecer que Wojtyla deixou tudo pronto para a eleição de Ratzinger, seu sucessor.

Ratzinger, ontem e nas suas manifestações, enviou um recado claro pela unidade e contra aqueles que fizeram-lhe “jogar a toalha” da renúncia: “ A face da Igreja  por vezes é deturpada em razão de golpes contra a sua unidade e pelas divisões no corpo eclesiástico”.

Nada a surpreender nessa sua fala. No famoso “discurso à lua”, o progressista e inovador João XXIII, apelidado de papa bom, disse: “ Abbiamo visto che nel campo del Signore c´è sempre anche la zizzania. E che nella rete di Pietro si trovano anche pesci cattivi (sabemos que no campo do Senhor existe também a cizânia. E que na rede de Pedro encontram-se também peixes maus)”.

Durante a missa celebrada ontem e os muitos aplausos, Ratzinger permaneceu frio, a revelar que a indignação com os seus traidores vencia a emoção. Um sinal importante. O cardeal e chefe de estado Tarcísio Bertone (uma espécie de primeiro ministro pelo encargo de governar a poderosa Santa Sé), depois de enaltecer Ratzinger do púlpito, foi abraçá-lo. O abraço foi recusado. Também Ratzinger resistiu à tentativa de Bertone de beijar a sua mão, em sinal de subordinação.

Para muito vaticanistas, Bento XVI deu um sinal claro de não apoiar a eleição de Bertone que, com o decano cardeal Angelo Sodano, travou, nos quase 8 anos de pontificado, uma diária queda-de-braço pelo poder.

Na bolsa de apostas internacionais, comandada por potente bookmaker, a “pule” de Bertone vale quase nada.  Surpresa até numa organização que se considera divina e que, no âmbito terreno, é representada por um monarca absoluto, denominado papa. E este, em questões relativas à fé, é , por tradição e forte propaganda, considerado infalível dado ser instrumento do Espírito Santo.

Caso Ratzinger consiga fazer o sucessor, permanecerá, dizem os vaticanistas, a influência da Opus Dei, iniciada com Wojtyla. O respeitado historiador e jornalista Corrado Augias, em livro publicado em 2010, conta ter Wojtyla, na véspera da sua eleição, rezado na tumba do fundador do Opus Dei e pedido pela sua intercessão na eleição.

Nos longos 15 dias de poder soberano, contam os adeptos fervorosos de Ratzinger, um troco poderá ser dado aos que o fizeram renunciar. Como todos são muitos católicos, nenhum fala em vingança, mas que tudo seria para o bem da Igreja.