Você está aqui: Página Inicial / Internacional / “Bento XVI nunca foi o papa da mudança”

Internacional

Vaticano

“Bento XVI nunca foi o papa da mudança”

por Redação Carta Capital — publicado 11/02/2013 12h43, última modificação 14/02/2013 15h32
Para jornalista que cobriu visita do papa ao Brasil, Ratzinger completou uma transição; o próximo líder agora deverá ter energia para promover eventuais rupturas

Quando Joseph Ratzinger foi proclamado papa Bento XVI, em 2005, estavam evidentes algumas limitações que marcariam a sua missão à frente do Vaticano, entre elas a idade avançada (tinha mais de 75 anos, limite para um bispo se aposentar), a indisposição a grandes viagens e a ausência de apelo midiático sobre as multidões que marcaram o seu antecessor. Estava evidente, sobretudo, que seu pontificado seria de transição, e não de mudanças bruscas, já que durante anos ele foi o mentor intelectual de João Paulo II.

A análise é do jornalista Leandro Beguoci, um dos poucos repórteres brasileiros a acompanhar Bento XVI no voo que trouxe o pontífice ao País em 2007. Durante a cobertura, para a Folha de S.Paulo, Beguoci entrou em contato com estudiosos, bispos e interlocutores do Vaticano e se transformou em um dos poucos setoristas em igreja da imprensa nacional. Foi ele, por exemplo, quem descobriu que o cardeal dom Odillo Scherer seria nomeado arcebispo metropolitano de São Paulo naquele ano.

Beguoci pede cautela ao analisar o legado do papa que anunciou a renúncia na segunda-feira 11. Ele lembra que, embora não se esperasse rupturas na condução da Igreja, Bento 16 foi menos conservador que o antecessor em algumas questões pontuais, como, por exemplo, quando nomeou um jesuíta como porta-voz do Vaticano (papel antes delegado a um membro da Opus Dei). Enfrentou também a questão da pedofilia de forma mais clara.

Para o jornalista, o papel de Joseph Ratzinger no pontificado anterior não permite que seja feita uma análise de sua missão à frente da Igreja apenas levando em consideração os últimos sete anos.

 

“Ratzinger foi o auxiliar mais próximo a João Paulo II em matéria de teologia. Quando se falava de documentos papais, sempre foi ele quem deu a linha. Era um cardeal brilhante, algo que João Paulo não era. Ratinzger foi professor universitário e assumiu como um papa intelectual.”

E completa: “A missão dele, portanto, não aconteceu em sete anos. No futuro, João Paulo II e ele podem ser lembrados como duas partes do mesmo papado”.

Em seu pontificado, lembra Beguoci, Bento XVI fez poucas mas simbólicas viagens, como ao Brasil, país com o maior número de religiosos católicos do Planeta, e à Turquia, numa tentativa de enviar um apelo simbólico de que promoveria um papado para além da Europa.

Ainda que Bento XVI tenha ficado marcado como um papa recluso em comparação ao antecessor, o jornalista lembra que João Paulo II foi exceção e não a regra na história recente da Igreja ao assumir um peso político considerável em razão do momento histórico de sua escolha – um cenário conturbado em que um religioso polonês teve influência na queda do comunismo.

Feita essa transição, afirma Beguoci, espera-se agora que o próximo pontífice seja mais jovem e assuma como a energia necessária para de fato dar início a um novo período, como havia feito João XXIII nos anos 1960 ao convocar o Concílio Vaticano II e promover as mudanças mais significativas da Igreja no século XX, entre elas o fim das missas em latim. Coincidência ou não, é possível que a primeira grande viagem do futuro líder da Igreja seja ao Rio de Janeiro, que em julho abrigará a Jornada Mundial da Juventude.

As mudanças, acredita Beguoci, devem ser observadas mais claramente a partir do próximo papa - que, conforme anunciou Ratzinger em sua mensagem, deverá ter energia para operar de dentro para fora. “A Igreja não é um bloco monolítico. O Vaticano é um país com centenas de bispos e milhares de paróquias. Por isso tem que ter energia. Bento 16 fez uma transição. O próximo papa terá um compromisso de maior duração. Isso vamos poder observar com mais calma.”

“Quando você fala com cardeais, você percebe que a noção de tempo é outra. Eles falam em ‘horizonte da eternidade’, sobre coisas de longa duração. O jeito de pensar é bem diferente. Não adianta achar que as coisas são retas”, conclui.