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Ataque nuclear norte-coreano seria suicídio, diz especialista

por Deutsche Welle publicado 11/03/2013 10h19, última modificação 11/03/2013 10h37
Especialista defende que a Coreia do Norte não ficará só na retórica e vai, de alguma forma, atacar a Coreia do Sul. China tem papel fundamental na aplicação de sanções contra os norte-coreanos

Depois de várias ameaças, a Coreia do Norte deverá colocar em prática, de alguma forma, as suas intimidações contra a Coreia do Sul. Isso poderia ser em forma de disparos de artilharia ao longo da zona desmilitarizada entre os dois países, por exemplo.

Isso é o que afirma Christoph Pohlmann, diretor do escritório da Fundação Friedrich Ebert na capital sul-coreana, Seul. Em entrevista exclusiva à DW, ele disse ainda que, caso a Coreia do Norte realize um ataque nuclear, certamente haverá retaliação por parte dos Estados Unidos – o que seria, na opinião dele, "basicamente um suicídio".

Ao mesmo tempo, Pohlmann frisou que a China tem um papel fundamental na aplicação de sanções contra a Coreia do Norte, já que os norte-coreanos realizam 70% de seu comércio com o gigante chinês. Ao mesmo tempo, a China estaria "muito irritada com o comportamento da Coreia do Norte".

Leia a entrevista completa:

Deutsche Welle – Há várias semanas, de forma incansável, a Coreia do Norte vem fazendo ameaças. Primeiro, anunciou que vai realizar mais testes nucleares neste ano e, depois, ameaçou uma guerra nuclear contra os Estados Unidos. Agora, anulou o acordo de não agressão com a Coreia do Sul. Em que medida, com esses acontecimentos recentes, o conflito escalou para um nível novo e mais perigoso?
Christoph Pohlmann – Poderíamos dizer que o conflito chegou a um novo nível, que também pode ser verificado em termos de incidentes militares. Isso porque a Coreia do Norte não pode continuar ameaçando sem que essas ameaças sejam seguidas de atos. Isto é, nós realmente podemos supor que a Coreia do Norte vai agir militarmente de alguma forma.
DW: Como isso poderia acontecer?

CP: Pode ser o que já sabemos e vimos apenas nas últimas semanas e meses: mais testes de mísseis, possivelmente também com outros tipos de foguetes, ou mais testes nucleares. Podem-se incluir aí provocações militares sobre terra ou mar, por exemplo, na forma de disparos de artilharia contra uma ilha sul-coreana ou ao longo da zona desmilitarizada entre o Norte e o Sul.

DW: A agência de notícias norte-coreana KCNA anunciou, em sua retórica de guerra, que as relações entre o Norte e o Sul teriam cruzado a linha de perigo de tal forma que a situação não poderia ser mais consertada, e que a situação na península coreana é agora tão perigosa que poderia acontecer uma guerra nuclear. Como você avalia isso?

CP: Isto é, naturalmente, uma retórica inaceitável e causa grande incompreensão e também preocupação à Coreia do Sul. Ao mesmo tempo, a Coreia do Norte tem que saber que, no caso de um ataque nuclear, haverá retaliação nuclear pelo lado dos Estados Unidos. O governo sul-coreano enfatizou isso mais de uma vez. Isso é algo que realmente se deve levar em conta. Isso significa, basicamente, um suicídio – do que todos os observadores estão convencidos. E isso não seria do interesse do regime norte-coreano.

DW: Então quer dizer que o "fundo do poço" ainda não foi atingido?

CP: Não. Mesmo que não haja mais diálogo entre os dois lados, é mais provável que a tensa situação ainda seja agravada, por exemplo, devido a grandes manobras militares por ambos os lados na semana que vem. Mas eu não vejo isso. Não acho provável que a Coreia do Norte vá praticamente acabar a Coreia do Sul com um ataque nuclear, ou pelo menos atingir um ponto muito sensível, por exemplo, bombardeando Seul com armas nucleares.
A Coreia do Sul realizou manobras militares depois que a Coreia do Norte fez seu terceiro teste nuclear em fevereiro
DW: Quanto ao "atingir um ponto sensível": essa é precisamente a intenção do endurecimento das sanções que o Conselho de Segurança impôs na quinta-feira (07/03) contra a Coreia do Norte. Essas foram as sanções mais duras na história recente do órgão mais poderoso da Organização das Nações Unidas (ONU). Qual é a eficácia deste pacote de sanções? Até que ponto essas medidas atingem o regime de Pyongyang?

CP: O significado simbólico, por si só, já faz com que essas sanções sejam significativas. É um pacote de sanções que consiste em limitações financeiras, mas também o monitoramento das rotas de transporte. E isso também afeta diretamente os empresários que realizam negócios para a Coreia do Norte. Por um lado, estas sanções são importantes. Caso contrário, a Coreia do Norte não responderia de forma tão agressiva a elas. Por outro lado, a sua implementação depende crucialmente da China.

A China apoiou essas sanções – da mesma forma como as outras, contra testes de mísseis – para desgosto da Coreia do Norte. Até agora, porém, Pequim tem sido – formulando de forma diplomática – um pouco relutante na aplicação dessas sanções. Como vizinho da Coreia do Norte e como um país que realiza mais de 70% do comércio exterior da Coreia do Norte, a China tem, claro, um papel fundamental.

DW: Este recente endurecimento de sanções apoiado pela China seria um indício para uma mudança de atitude por parte de Pequim?

CP: Eu ainda não vejo uma mudança de atitude em que a China estaria disposta, eventualmente, a abandonar a Coreia do Norte. Mas, tanto a paciência da liderança chinesa como também dos especialistas científicos, bem como a do público em geral, está lentamente se esgotando. Embora existam diferentes facções – incluindo os que não desejam ameaçar a estabilidade do regime norte-coreano e que querem, por exemplo, manter definitivamente a Coreia do Norte engajada como um amortecedor contra os Estados Unidos –, a China está muito irritada com o comportamento da Coreia do Norte.

Enquanto isso, há preocupações de que o comportamento da Coreia do Norte já não seja mais previsível e parece estar se tornando mais extremo, de modo de a China quer sinalizar ao jovem líder norte-coreano Kim Jong Un que este comportamento agora simplesmente foi longe demais. E, ao mesmo tempo, a China quer apresentar-se mais forte do que no passado recente como um membro responsável da comunidade internacional.
Com apoio de Rússia e China, EUA e aliados acirraram as restrições econômicas e políticas à Coreia do Norte
DW: Você vê no momento maneiras de quebrar o ciclo cada vez mais agressivo de ação e reação – e, se sim, onde?

CP: No meu ponto de vista há possibilidades. O problema é que nenhum dos lados parece estar disposto a dar esse passo até agora. Atualmente, a lógica político-militar que prevalece parece sinalizar uma maior escalada e nenhum dos lados quer ceder, pois isso poderia ser avaliado como um sinal de fraqueza. Assim, por exemplo, os Estados Unidos estão conduzindo seus grandes exercícios militares esta semana e na próxima. E a Coreia do Norte deverá responder com outras manobras.

Uma possibilidade seria a de que os Estados Unidos, se possível junto com a China, pudessem apresentar uma espécie de proposta de negociação para sair desta espiral: uma proposta que também ofereça incentivos à Coreia do Norte, o que seria difícil na atual situação de provocação incessante da Coreia do Norte.

Mas, ao mesmo tempo, na minha opinião, não há outra maneira, porque o perigo de que possam haver erros de cálculo de ambos os lados é muito grande, resultando em uma escalada incontrolável da situação. Isso significa que é imperativo que um dos lados – e no momento preferencialmente os lados mais fortes, ou seja, Estados Unidos e China – de preferência juntos, se aproximem dos norte-coreanos e tentem dissuadi-los deste curso. seja de forma aberta ou através de canais informais.

Autora: Esther Felden (fc)
Revisão: Roselaine Wandscheer

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