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Ataque à embaixada expõe sentimento anti-EUA no Egito

por José Antonio Lima publicado 11/09/2012 17h54, última modificação 06/06/2015 18h28
No Cairo, manifestantes substituíram a bandeira americana por outra com a inscrição "Não há Deus a não ser Alá e Maomé é seu mensageiro"
Embaixada_Cairo

Na embaixada norte-americana no Cairo, manifestantes erguem bandeira com a inscrição "Não há Deus a não ser Alá e Maomé é seu mensageiro" no lugar da bandeira dos EUA. Foto: Khaled Desouki / AFP

Dois dos maiores traumas dos Estados Unidos na relação do país com o mundo muçulmano se juntaram nesta terça-feira 11. No aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro, a embaixada dos EUA no Cairo, capital do Egito, foi atacada, reativando a memória da invasão à representação norte-americana em Teerã, em 1979, ano da Revolução Islâmica. O nível de violência no Cairo foi uma pequena fração do ocorrido no Irã há mais de 30 anos, mas serviu para mostrar o tamanho da hostilidade aos Estados Unidos.

O protesto foi realizado por cerca de 2 mil pessoas que marcharam até a embaixada norte-americana e cercaram a edificação. A manifestação foi convocada por Wesam Abdel-Warethpor, líder salafita (conservadores ultrarradicais), mas tinha também integrantes não religiosos. A intenção era protestar contra um filme que, supostamente, mostraria o profeta muçulmano, Maomé. A representação de Maomé é proibida no Islã e considerada uma grave ofensa. A provocação era o "Dia Internacional do Julgamento de Maomé", organizado pelo pastor evangélico Terry Jones, um radical religioso da Flórida conhecido por queimar cópias do Corão, o livro sagrado do Islã. O evento, marcado para esta terça-feira, 11 de setembro, teria o apoio de cristãos coptas, que representam cerca de 10% da população egípcia.

O início do protesto foi tenso. Diversos manifestantes escalaram os muros da edificação e retiraram a bandeira dos Estados Unidos do mastro principal. Enquanto a bandeira americana era queimada, outra preta com escritos em branco tremulava em seu lugar. A inscrição dizia: "Não há Deus a não ser Alá e Maomé é seu mensageiro". A mesma frase foi pichada nos muros da embaixada, junto a ofensas aos EUA. Entre os gritos dos manifestantes, uma referência ao 11 de setembro: "Obama, Obama ainda há um bilhão de Osamas".

Não houve reação por parte da embaixada. Pela manhã, a representação americana, ciente do protesto, divulgou nota oficial condenando "esforços de indivíduos perdidos para ferir sentimentos religiosos de muçulmanos" e dizendo que o "respeito pela liberdade religiosa é uma pedra angular da democracia americana".

O protesto serviu para expor o anti-americanismo no Egito. O ódio aos EUA – menos popular do que a Al-Qaeda entre os egípcios – é um sentimento latente no país e deve ficar cada vez mais claro à medida que o país caminha, a duras penas, em seu processo de democratização. Durante a ditadura de Hosni Mubarak, todos os protestos eram proibidos, especialmente aqueles contra os EUA. Agora, é missão do presidente Mohamed Morsi, um irmão muçulmano, lidar com este sentimento. Nos próximos anos, à medida que o Egito desenvolver uma política externa independente, os EUA serão obrigados a enfrentar uma série de dilemas e responder pelas décadas de ingerência sobre o Egito. Mas os egípcios precisam entender que um governo não pode responder por atos de um obscuro pastor e que manifestações irracionais como a desta terça só fazem prejudicar a imagem do país.