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A última colônia africana

por Redação Carta Capital — publicado 10/04/2013 17h24, última modificação 10/04/2013 17h24
Representante do povo Saharaui, que reivindica território ocupado pelo Marrocos, vem ao Brasil para denunciar violência contra seu povo e espera ser ouvido
saara ocidental

Povo do Sahara Ocidental quer ter direito a Estado próprio. Foto: Paolo Cattaneo, Centro Polesano de Documentazione

Por Amanda Cotrim
Karim Lagdaf chegou ao Brasil praticamente a mesma época da visita da blogueira Yoani Sanchez. A ideia era passar cerca de três meses aqui para, tal como a ativista cubana, denunciar as violações de direitos humanos praticadas contra ele e seus conterrâneos no Marrocos. Mas, diferentemente do tratamento recebido pela blogueira, não teve o mesmo espaço nos jornais e revistas. Sua fala não foi reproduzida no Jornal Nacional. O programa Roda Viva não o levou para o centro do debate. Quase ninguém ouviu, portanto, o pedido, em bom espanhol, por independência de sua etnia e do Saara Ocidental em pleno século XXI. Ele é um dos 177 mil saharuis que, sem acesso ao próprio território, vivem refugiados em acampamentos nas mediações de Tindouf, na Argélia. São quase 40 anos tentando sobreviver na região mais árida do deserto do Saara.

 
A história da última colônia africana, uma população islâmica sunita de língua a “hassanya”, quase não é contada pelos estudiosos contemporâneos nem pelos jornalistas. “Em pleno século XXI, o Marrocos protagoniza uma guerra imperialista, obrigando o exílio dos saharauis no auge da globalização”, diz Lagdaf.
Com o olhar compenetrado, o homem de 55 anos, vestido com calça social preta e camisa branca, aponta com os olhos e acusa com a boca: “É um julgamento militar de civis”. Diz isso durante a entrevista numa lanchonete no bairro Santa Cecília, em São Paulo. Karim Lagdaf deixou o continente africano e veio até o Brasil realizar o que a globalização não foi capaz de fazer: o apelo à realização de um referendo – promessa da Organizações das Nações Unidas desde 1974 – para decretar a independência do Estado Saharaui. Em novembro de 2010, quando 30 mil pessoas foram às ruas com este pedido, o governo do Marrocos reprimiu o protesto com água quente lançada por nove helicópteros. Vinte e quatro pessoas foram presas. No inicio de 2013, quatro jovens foram condenados à prisão perpétua por terem participado dessa manifestação.

Karim Lagdaf nasceu em El Aiun, capital do Saara Ocidental, uma antiga colônia espanhola hoje pertencente ao Marrocos. O território foi invadido em 1975 num conflito que opôs a Frente Frente Popular de Libertação de Sanguia El Hamra e Rio de Ouro (Polisário), formada pelos saharauis, e o Marrocos. Lagdaf é integrante e representante da Frente Polisário na América Latina. “Vim até o Brasil porque acreditamos que o país está crescendo no cenário internacional e poderá nos ajudar politicamente, reconhecendo a independência do nosso Estado”, diz.
No dia em que o Marrocos invadiu o Saara Ocidental em 1975, Karim estava em Madrid para matricular-se na universidade. Diante da invasão marroquina, o jovem estudante decidiu voltar e lutar pela libertação do seu país. Desde então, vive exilado em acampamentos cedidos pela Argélia.
Um muro de 2.500 quilômetros separa o Marrocos dos acampamentos saharauis. É vigiado por 150 mil soldados marroquinos. Conhecido como Muro da Vergonha, ele apresenta em seu percurso uma infinidade de minas terrestres que, vez ou outra, provocam mortes entre os saharauis. Desde a criação do muro, na década de 1970, os sarahauis não podem mais retornar às suas terras. “Eu tenho família que não conseguiu se exilar na Argélia e ainda permanece do outro lado do muro. Não podemos nos ver. Nunca saberei quando vou conviver com a minha família de novo”, afirma. A única possibilidade de ver as famílias que estão do outro lado do muro é através da Minurso, um órgão da ONU que auxilia os refugiados, transportando-os para ver suas famílias por cinco dias.

Recentemente, em outubro de 2011, três ativistas humanitários foram sequestrados em um acampamento de refugiados saharauis na Argélia. Esse fato abriu uma nova fase do conflito no Saara Ocidental.
Lagdaf denuncia aquilo que numa guerra não se noticia. Em um conflito, os números de mortos e feridos é a história oficial informada à população. Mas existem outras formas de violência silenciadas: “O exército do Marrocos estupra nossas mulheres saharauis; exploram nossas crianças, cometem atrocidades, e o mundo precisa saber disso”, revolta-se.
Ele garante: “o povo saharaui não vai mais permitir ser colonizado. Vamos lutar até a morte pela recuperação do Saara Ocidental e a independência do Estado Saharaui”.

Os 700 mil saharauis que não estão nos acampamentos resistem no Saara Ocidental. Eles também estão exilados, mas em seu próprio território em condições precárias, sem direitos civis, servindo, apenas, para servir, diz Lagdaf. Atualmente, quase um milhão de saharauis gritam para ter seu Estado de volta.
Atualmente a República Árabe Saaraui Democrática é integrante da União Africana e reconhecida por 86 países.

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