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Gianni Carta

A secularização da Polônia

por Gianni Carta publicado 22/12/2012 15h59, última modificação 23/12/2012 18h43
A igreja ultraconservadora perde fiéis devido à falta de sintonia com as demandas das novas gerações
Igreja_Polonia

A igreja ultraconservadora perde fiéis devido à falta de sintonia com as demandas das novas gerações. Por Gianni Carta

De Cracóvia

Sentada em um café na Rynek Glowny, em Cracóvia, Agnieszka Kostecka, uma publisher de 38 anos, diz: “O mundo está em evolução, mas a Igreja Católica não acompanha suas mudanças, e, assim, não está em sintonia com a realidade”.

Católica praticante, Kostecka cita exemplos dessas mudanças a ocorrer principalmente nas grandes cidades polonesas (e europeias): casais, inclusive aqueles formados por pessoas do mesmo sexo, coabitam sem a benção da igreja; questiona-se, entre outras críticas, a proibição do uso de anticoncepcionais; diante de centenas de milhares de abortos, numerosos cidadãos são favoráveis à legalização do aborto; jovens e menos jovens com inclinações liberais não aprovam a interferência da igreja na política.

Segundo uma recente enquete, 95% dos poloneses ainda se dizem católicos – mas destes menos de 30% se julgam profundamente religiosos. Mais: pouco mais de 40% dos jovens vão à missa aos domingos, ante mais de 60% no início da década de 1990. Ainda assim, a Polônia continua a ser o país mais católico da Europa.

“A Igreja Católica é um dos últimos enclaves da era comunista”, argumenta o Grzegorz Makowski, professor de Ciências Sociais do Collegium Civitas, braço do Instytut Spraw Publicznych (Estudos de Políticas Públicas), um think tank em Varsóvia.

Como assim?

Segundo Makowski, durante a era comunista (1945-89) as pessoas engajadas em práticas religiosas neste país não o faziam “somente para satisfazer buscas espirituais”, mas também porque queriam ter mais liberdade em um regime ditatorial. E, de fato, o papel da Igreja Católica, e de João Paulo II, o papa polonês, foi fundamental para fazer naufragar o comunismo.

No entanto, com o fim do comunismo o inimigo da Igreja Católica passou a ser o Estado secular e democrático. “A igreja mostrou-se

completamente despreparada diante de uma sociedade de livre mercado e democrática”, observa Makowski.

O sociólogo Michal Nowosielski, diretor do Institytut Zachodni (Estudos Ocidentais), em Poznan, concorda com Makowski. “Após mais de 40 anos de comunismo, o papel da igreja mudou”, pondera. Ademais, “a modernização provocou uma maior laicidade”. Nesse contexto, a Igreja Católica tenta “preservar” seu papel na sociedade e na política. No entanto, essa é uma batalha perdida porque existem diferentes facções entre aquelas a liderar a igreja, argumenta Nowosielski

Os ultraconservadores da igreja, comparáveis aos evangélicos no Brasil, usam todos os meios para exprimir seus ideais. A Radio Maryia, por exemplo, argumentava que o ingresso da Polônia na União Europeia traria males da Europa Ocidental para este país. E agora faz campanha contra os “males” – coabitação, casais do mesmo sexo, etc.

Na mesma linha, párocos da velha guarda continuam a influenciar aqueles que ainda frequentam a igreja. Seus poderes são maiores em pequenas cidades como Sanok, no sudeste do país. Eles orientam os fiéis cristãos, por exemplo, em quem votar.

Algo que  não funciona até em Cracóvia, considerada a grande cidade (1 milhão de habitantes) mais conservadora da Polônia. Quando, nas últimas legislativas, um padre opinou quem era o melhor candidato, a mãe de Kostecka, também ela católica praticante, levantou-se da primeira fila, e, diante de olhares perplexos, foi embora.

Kostecka, a filha, também não vai mais a igreja com frequência. “Os padres não sabem mais se comunicar com os fiéis”, diz. Mas, claro, há exceções. Ela cita o exemplo de Mieczyslaw Malinski, um padre que sempre incluía no seu sermão algumas breves opiniões sobre fatos da atualidade. “Malinski nos fazia refletir.” No entanto, ele foi acusado de ter colaborado com os comunistas, e, já idoso, sua saúde se deteriorou e hoje ele não sai mais de casa.

Outro problema a afastar as novas gerações da igreja, diz Makowski, do Collegium Civitas, “é a falta de uma educação religiosa nas escolas em sintonia com os novos tempos”. Nas escolas públicas, ninguém é obrigado a frequentar essas aulas. No entanto, quem não as cursa, especialmente nas pequenas cidades, não é bem conceituado.

Quando o filho mais jovem de Kostecka, de 10 anos, encontrou um preservativo ainda na sua embalagem no banheiro de sua escola católica, a direção, conta a mãe, tratou o assunto “como se fosse o fim do mundo”. “Era o momento de explicar para os alunos para que serve um preservativo”, pondera Kostecka. Por outro lado, na escola pública de seu filho mais velho, de 13 anos, a professora de religião ensina a história das principais crenças. O jovem está fascinado com o Islã. “Isso é sinal que a professora ensina seus alunos a tolerância, pilar da religião católica.”

A professora em questão é, contudo, uma exceção.

Por essas e outras, o ateu Tomek Szkodzinski, um artista gráfico, de 31 anos, diz que não batizará o filho que está por nascer. Se 95% dos poloneses se dizem católicos é porque são, por tradição, batizados.

Indago a Szkodzinski se os fatos de ele ser ateu e não batizar seu filho não chocam seus interlocutores. “Eu não diria nada disso aos meus avós, mas meus pais e amigos não têm reações radicais.”

E se seu filho um dia optar pelo catolicismo? “Respeitarei sua decisão, mas explicarei a ele que na maioria dos casos aqui na Polônia os arautos da religião ensinam a intolerância.”

 

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