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A nova Líbia?

por Gianni Carta publicado 27/07/2012 11h18, última modificação 06/06/2015 18h42
A guerra civil na Síria fica mais violenta, Al-Assad vira personagem secundário e o Ocidente se enreda em um jogo diplomático intrincado
Assad

Sírios vs. sírios. O presidente Al-Assad pode ter deixado o país. E em Alepo, seguem os conflitos. Foto: Bulent Kilic/AFP

O futuro de Bashar Al-Assad passou para o segundo plano em um cenário mundial no qual se delineiam possíveis conflitos entre defensores e detratores estrangeiros da Síria. A guerra civil a ser decidida na batalha entre as forças regulares e o Exército Sírio Livre (ESL), em Alepo, no noroeste do país, terá repercussões no Oriente Médio e em capitais ocidentais, diz o professor Michael Clarke, diretor-geral do Royal United Services Institute (Rusi). No relatório do Rusi, intitulado A Collision Course for Intervention, Clarke não descarta uma intervenção externa limitada na Síria.

“Na verdade, essa guerra nunca deixou de ser um entrevero entre a Arábia Saudita e o Iraque”, argumenta Malek Chebel, filósofo e antropólogo especializado em Islã. Segundo Chebel, autor, entre dezenas de livros, de Manifeste pour un Islam des Lumières, de um lado estão os iranianos no apoio ao grupo xiita Hezbollah (considerada uma organização terrorista pelos EUA), com sede no Líbano, e xiitas e alauítas na Síria e na liderança do Iraque. Do outro estão os sauditas, aliados da maioria sunita na Síria e no Líbano, bem como da minoria sunita no Iraque.

No tablado internacional, os sauditas e os países conservadores do Golfo Pérsico fornecem armas para a oposição síria. A Turquia também auxilia a oposição e colabora (a exemplo da Arábia Saudita) com os EUA. Chebel, aliás, não descarta a possibilidade de a recente derrubada de um caça turco que teria violado o espaço aéreo sírio não ter sido uma tática para motivar uma invasão estrangeira por parte de Washington.

Israel, como os EUA, gostaria de assistir à queda de Assad. O motivo? “O elo entre o Hezbollah e Teerã seria rompido”, responde Hesam Houryaband, analista independente de relações internacionais. Os serviços de inteligência israelenses culpam o Hezbollah e o Irã pelo atentado suicida na Bulgária que provocou a morte de cinco cidadãos de Israel.

Além disso, Tel-Aviv teme uma transferência de armas químicas da Síria para o Hezbollah. Em entrevista à ultradireitista Fox News, o premier israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou: “Certamente, não queremos estar expostos a armas químicas nas mãos do Hezbollah, seria algo como a Al-Qaeda ter essas armas”. Se isso acontecer, acrescentou Netanyahu, “teremos de agir”.

Neste momento crítico no qual naufragou a coalizão do governo de Bibi, como é conhecido o premier, e, por tabela, às vésperas de novas eleições legislativas, Tel-Aviv não descarta um ataque ao Irã. “Na verdade, a grande obsessão de Israel, Estados Unidos e um punhado de países europeus é Mahmoud Ahmadinejad. A queda de Assad seria uma maneira de neutralizar o Irã”, afirma Houryaband.

Israel, é preciso frisar, pode perder com a queda de Assad. Isso aconteceria se uma legenda sunita integrista chegasse ao poder. A oposição sunita ao poder do existente clã de aluítas xiitas, religião professada por 10% da população, é um saco de gatos. Vários deles integram formações fundamentalistas. A Irmandade Muçulmana, por exemplo, uniu-se aos rebeldes sírios. A Al-Qaeda, também. Observa Houryaband: “É irônico, mas as armas químicas poderiam cair nas mãos da Al-Qaeda, como sugeriu, sem crer na possibilidade, Netanyahu”. O grupo fundamentalista poderia atacar não somente Israel, mas o Iraque, Afeganistão e até a Europa, projeta o analista.

Os israelenses temem um novo regime na Síria semelhante ao que chegou ao poder no Egito com a vitória eleitoral de Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Recentemente, Morsi foi à Faixa de Gaza para encontrar a liderança do Hamas, legenda com braço armado e também considerada terrorista pelos EUA. E o Egito liberou o ingresso de palestinos, fato inédito desde 2007, quando o Hamas venceu as eleições em Gaza e as fronteiras com Israel e o Egito, então presidido por Hosni Mubarak, foram bloqueadas. Estaria Morsi se afastando de Israel?

Além do Irã, dois países defendem a Síria: Rússia e China, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Portanto, uma resolução para invadir a Síria seria vetada por ambos. “Os russos e os chineses não querem deixar a Síria para o Ocidente porque perderiam credibilidade”, analisa Chebel. Para eles, seria a perda de uma esfera de influência.

A Rússia fala, de fato, em uma nova Guerra Fria. O chanceler russo, Serguei Lavrov, por exemplo, denunciou na quarta-feira 25 a falta de condenação, por parte dos Estados Unidos, do atentado à bomba, em 18 de julho, que matou três aliados do alto escalão de Assad. “Trata-se de uma autorização direta ao terrorismo”, disparou Lavrov. Emendou o chanceler: “Em outros termos, isso significa que os Estados Unidos continuarão a apoiar tais atos terroristas, enquanto o Conselho de Segurança não fizer o que eles querem”.

Lavrov denunciou ainda as novas sanções da União Europeia contra o regime sírio. Na segunda-feira 23, a UE acrescentou 26 pessoas e três novas entidades à lista negra do bloco e fortaleceu o embargo sobre as armas mediante controles reforçados.

O efeito dominó iniciado na Tunísia e a subsequente Primavera Árabe atingiram a Síria 17 meses atrás. Num primeiro momento, o conflito era parecido com aqueles do Magreb. A oposição síria reivindicava melhores condições de vida e mais liberdade. Pouco a pouco, os manifestantes se transformaram em grupos de guerrilheiros e recentemente os embates finalmente receberam a definição de guerra civil pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Ocorre que agora a Síria atravessa uma guerra entre religiões e etnias.

Ao contrário do Magreb, onde os países são relativamente livres uns dos outros, o Levante é uma região na qual as políticas de países como a Síria e o Líbano não podem ser dissociadas. Um dos temores é que o Líbano seja um dos primeiros países a sofrer as repercussões da guerra síria. No início do ano, 20 pessoas perderam a vida em Trípoli num confronto entre a minoria xiita alauíta, religião de Assad, e a maioria sunita.

Essas rivalidades sectárias e étnicas sempre existiram. Damasco localiza-se no epicentro do Levante, como era conhecida essa região do Oriente Médio nos tempos do Império Otomano, e englobava vários países: Líbano, Israel, territórios palestinos, Jordânia e Iraque.  Religião e etnia sempre foram um problema sério e as guerras jamais escassearam. Mas, como defende Pascal Boniface, um especialista francês em Oriente Médio, a questão central na região sempre foi a luta entre os territórios palestinos e Israel. Na Síria, etnias e religiões pareciam ser menos importantes do que na Palestina, em Israel ou na Arábia Saudita.

A partir da revolução de 1979 no Irã, o quadro mudou. O governo de Hafez al-Assad, pai do atual presidente, aliou-se ao líder supremo do Irã, o aiatolá Khomeini. Uma união no mínimo estranha: um árabe laico e socialista com um persa e líder islamita. Eles tinham, entretanto, um inimigo comum, Saddam Hussein. Ambos os países concordaram em monitorar os passos de Israel e dos EUA (embora a Síria tenha ajudado os norte-americanos na luta contra Saddam). Mais: os dois países passaram a apoiar os grupos Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica.

Clarke, o diretor-geral do Rusi, parece acreditar no fim dessa triangulação entre xiitas na região – e no futuro domínio de sunitas. E visto que a derrota (e mesmo a improvável vitória) de Assad terá repercussões internacionais, países estrangeiros consideram a possibilidade de uma intervenção limitada. Fundamental, por exemplo, é encontrar e se desfazer das armas químicas. Igualmente importante é controlar os fluxos de refugiados e campos potencialmente radicais no Líbano, Turquia, Jordânia, Gaza e Iraque.

Assad, segundo Clarke, já pode ter deixado o país com sua família, mas a estratégia do exército regular prevalecia na quinta-feira 26. Os estrangeiros (ocidentais) poderiam organizar operações clandestinas, colocar assessores e dar apoio militar ao ESL, encorajar um golpe de Estado. “De fato, em alguns aspectos importantes, a intervenção ocidental começou”, escreve o especialista.

Chebel acrescenta: “As grandes potências ocidentais não são nada humanistas, são cínicas”. Sobre se os EUA estariam interessados em fazer brotar democracias no mundo árabe, avalia: “Assim como Muammar Kaddafi, Assad deveria ser varrido do poder rapidamente. É uma questão moral. Mas são os sírios que têm de fazer isso. A razão? Por anos e anos esses ocidentais eram íntimos de Assad”.