Você está aqui: Página Inicial / Internacional / A blogueira favorita da mídia

Internacional

Entrevista - Yoani Sánchez

A blogueira favorita da mídia

por Cynara Menezes — publicado 24/02/2013 11h58, última modificação 17/12/2013 12h07
A jornalista defende a Revolução Cubana, que "devorou a si mesma", e diz que censura em seu país não seria diferente sem o embargo
Marcello Casal Jr/ABr
Yoani Sánchez

A blogueira cubana Yoani Sánchez em Brasília, onde participou de reunião no Congresso Nacional

Falta um dente no sorriso da blogueira "milionária", como parte da esquerda se esforça em catalogar Yoani Sánchez. Tanto o endeusamento patrocinado pela mídia internacional quanto a tentativa de reduzi-la a uma mera agente a serviço dos Estados Unidos foram os responsáveis por elevar a jornalista de 37 anos ao patamar de opositora mais visível do regime cubano hoje.

No Brasil, Yoani foi recebida praticamente como chefe de Estado por políticos da oposição, com direito a interromper uma sessão da Câmara para que ela conhecesse o plenário.

A blogueira cubana iniciou aqui uma turnê por 12 países da América Latina e Europa, além dos Estados Unidos, que se tornou possível após Cuba ter mudado a política migratória, em janeiro. Antes disso, Yoani havia feito 20 tentativas de sair da ilha nos últimos cinco anos, em vão. Ela é pequena, muito pálida e magra. Seus cabelos longos lhe conferem um certo ar de evangélica. Calma, enfrentou estoicamente os protestos furiosos e despropositados de militantes do movimento estudantil em sua passagem pela Bahia, na semana passada. Ao falar, porém, sua voz grave se impõe, é articulada e soa extremamente convicta de seus objetivos.

O objetivo número um é, claro, derrubar o regime de Fidel e Raúl Castro. Para isso, Yoani Sánchez não parece preocupada em se unir a quem for. Foi nomeada vice-presidente para Cuba de uma entidade patronal de imprensa, a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), e não demonstra interesse em discutir problemas de direitos humanos a não ser em seu país. Sempre que perguntada sobre os presos norte-americanos na base de Guantánamo, por exemplo, responde: "Acho um horror, uma ilegalidade. Infelizmente não posso fazer nada quanto a isso". Na Câmara dos Deputados, posou ao lado do que há de pior na política brasileira, como o líder ruralista Ronaldo Caiado e o brucutu homofóbico Jair Bolsonaro.

Hábil com as palavras, a cubana recorre a frases de efeito para responder questões mais difíceis, como a recorrente pergunta sobre a educação e a saúde cubana, apontadas como exemplo de que há coisas boas no regime que tanto critica. "É como se eu fosse um passarinho que deveria estar feliz na gaiola só porque recebo alpiste e me ensinam alguns truques. Eu quero voar", diz. A frase é ótima e ela a repete em toda parte.

Tampouco adianta tentar fazer comparações entre problemas de outros países com os que enfrenta no seu, que ela se sai com essa: "É como se eu estivesse com dor de dente e alguém viesse me dizer: 'você reclama, mas eu tenho dois dentes doendo'. Isso não vai fazer com que o meu pare de doer." Justiça seja feita: Yoani não foge de nenhuma pergunta, muito embora a condescendência com que foi tratada pelos repórteres no Brasil não tenha sido exatamente um desafio. Ela nega o suposto financiamento que teria de entidades governamentais dos EUA, atribuindo a "difamações" propagadas pelos Castro.

Sempre muito assertiva sobre a "Cuba futura" que antevê, sem Castro algum no horizonte, Yoani deixa escapar certo temor de uma jogada do regime que poderia atrapalhar seus planos: que Mariela Castro, filha de Raúl, seja escolhida como sua sucessora. Ou seja, uma saída "à Dilma Rousseff" para Cuba. Será? Yoani Sánchez falou com exclusividade a CartaCapital em Feira de Santana (BA).

CartaCapitalVocê é de esquerda ou de direita?

Yoani Sánchez – Me considero uma pessoa pós-moderna, acho que estes limites já não estão tão claros. Sou uma defensora da liberdade de expressão, sobretudo da liberdade de imprensa. Para muitas pessoas isso me colocaria ao lado dos liberais, do liberalismo. No entanto, até por origem –venho de uma família de ferroviários que vivia num cortiço–, também me preocupa a situação que vivem agora os mais desfavorecidos de meu país, com todas estas reformas de corte neoliberal que Raúl Castro está fazendo. Por um lado, estão criando oportunidades para o setor privado, mas, por outro, estão criando grandes diferenças sociais. A compra e venda de casas, por exemplo, uma medida largamente desejada, está provocando a redistribuição classista dos bairros. Gente que tem mais dinheiro vai para os melhores bairros e os que têm menos, para a periferia. Se continuar assim, teremos uma Cuba tão neoliberal quanto qualquer outro país, com as grandes diferenças e os grandes abismos. Neste ponto, eu poderia ser tachada como de esquerda.

CCVocê preferia que a revolução cubana não tivesse acontecido?

YS – Não, não. Penso que a revolução foi um bom detonante, uma necessidade para muitas pessoas. O problema foi quando a revolução se devorou a si mesma e deixou de ser uma revolução.

CC - Quando isso ocorreu?

YS – Essa é uma grande discussão. Meu marido, que é jornalista e mais velho do que eu, diz que a revolução terminou em 1968, quando Fidel Castro aplaudiu a entrada dos tanques soviéticos em Praga. Como uma revolução rebelde permite que um império – ainda que seja comunista é um império – termine com um processo nacional de rebeldia, de transformação? Outras pessoas dizem que a data foi 1980, com o êxodo de Mariel, quando mais de 120 mil cubanos disseram ao regime: 'não gostamos deste sistema'. Minha mãe diz que para ela a revolução terminou em 1989, o ano em que fuzilaram o general Arnaldo Ochoa, que estava ligado ao narcotráfico, mas também foi um julgamento político. Ou seja, as datas são muitas. Eu não conheci a revolução. Nasci em 1975, sob muito estatismo, sovietização, rigidez. Aqueles rebeldes descidos da Serra Maestra, que pareciam tão jovens, com seus escapulários, tão reformistas, tão sonhadores, no momento em que nasci já eram uns burocratas de abdômen avantajado e muito cuidadosos cada vez que davam um passo, para que nada lhes fugisse do controle.

CCMas e se não tivesse ocorrido o embargo norte-americano? Poderia ser diferente, não?

YS – O embargo, sem dúvida, fez com que a revolução se radicalizasse e deu ao governo um argumento para explicar tudo. Mas eu não creio que o tema das liberdades fosse diferente sem o embargo. Simplesmente vivemos sob um sistema pensado para que o indivíduo não possa ser livre. Se é livre, começa a perguntar, a questionar, a se associar, a buscar informação, e o sistema não funciona, porque está baseado em que o mundo é um inferno e Cuba um paraíso. 'Você tem que se conformar com o zoológico porque lá fora é a selva': essa é a dicotomia que explora o governo cubano. E quando a pessoa abre os olhos, lê outra literatura, contata com outras pessoas, essa dicotomia começa a ruir.

CC Para nós, o que parece injusto é que um país gigante tente espezinhar durante anos uma ilha pequena só porque decidiu fazer diferente e ser comunista.

YS – Esse é o símbolo de Davi contra Golias. Mas o Davi que eu conheço se chama povo cubano. E o Golias que faz a minha vida difícil é o governo de Cuba.

CCVocê não teme que acabe o regime dos Castro e Cuba caia em mãos dos cubanos de Miami, que são políticos da pior direita inclusive sob a ótica norte-americana?

YS – A Cuba do futuro tem muitos riscos, mas não é por isso que vamos nos conformar com o presente. Não é uma atitude de esquerda se paralisar por temor ao futuro. A atitude de esquerda é: vamos à mudança! E depois encontraremos soluções para os problemas que irão surgindo. Não tenho temor da miamização de Cuba, mesmo porque o exílio de Miami também é um estereótipo. Passaram-se 54 anos, os que se foram em 1959 ou nos anos 1960 já são octogenários. Chegou uma nova geração, com outra mentalidade. Nas últimas votações para presidente, um amplo setor da Flórida votou em Barack Obama. Enfim, não creio que o dilema nacional seja os Castro hoje ou Miami amanhã. Tem muita gente que diz: você não teme que chegue o McDonald's em Cuba? Não, não temo, chegará. O que me preocupa agora é que o operário cubano, para comer um hambúrguer, precise trabalhar dois dias completos. Não me importa que se chame McDonald's ou McCastro, mas que as pessoas tenham a oportunidade de ter um salário digno que lhes permita escolher entre comer vegetais ou um hambúrguer.

CCSe Cuba vai tão mal, por que as pessoas não se revoltam?

YS – As pessoas em Cuba se rebelam emigrando. As revoltas cubanas não estão na praça Tahrir, estão do lado de fora dos consulados. As pessoas não têm consciência cívica, o Estado se ocupou tanto de tudo que meus contemporâneos sentem que o país não lhes pertence. O país é do governo, é do partido, de Fidel. Estão apáticos. Quando têm um pouco de rebeldia, não a usam para enfrentar um repressor na rua, mas para enfrentar um tubarão no estreito da Flórida. Creio que nós, cubanos, votamos com os pés. Não protestamos, mas votamos indo-nos do país.

CCAgora que mudou a lei migratória pode haver um novo êxodo?

YS – Há muita gente planejando ir embora. Nos dias em que estive organizando os vistos, vi muita gente jovem do lado de fora dos consulados. É difícil, porque há vários requisitos para conseguir um visto, mas os cubanos são engenhosos. Então o que estão fazendo? Vendem suas propriedades e com esse dinheiro compram uma passagem para um país que não pede visto. Na Aeroflot, que voa de Cuba a Moscou, se esgotaram todos os bilhetes na primeira semana. Por quê? Porque a Rússia não pede visto para os cubanos. Então vão para lá e usam o país como trampolim para ir a outra parte. Sim, vai haver uma saída em massa.

CC – Escutei você falar relativamente bem de Mariela Castro. Poderia ser uma saída ao regime que ela se tornasse presidenta?

YS – Não acredito que ela queira. Me parece que está mais focada na sexualidade e em seu trabalho no centro de educação sexual. Sim, poderia ser uma maneira de moderar o regime. Mas creio que criaria inconformismo, seria uma evidência muito clara de nepotismo: do irmão mais velho ao caçula e à filha deste. Nos deixaria um sabor tão amargo na boca que, por melhor que fosse sua presidência, sempre nos ficaria a impressão de que somos um reino que se herda consanguineamente.

CC – E se fossem convocadas eleições e ela se candidatasse?

YS – Eu não votaria nela. Ainda que faça um trabalho muito bom do ponto de vista da sexualidade e do respeito às diferenças, me parece uma pessoa com sérias dificuldades para dialogar. Todas as vezes que tentei um debate de ideias, recebi respostas agressivas. Quando um político age assim, tem grandes possibilidades de se converter em um ditador.