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A Syngenta e o bom negócio da China

por Rui Daher publicado 12/02/2016 05h20
Maior negócio já feito pelo país no exterior, compra da líder global em defensivos agrícolas mostra estratégia geopolítica chinesa
MICHAEL BUHOLZER / AFP
Sede da Syngenta na Suíça

Estatal ChemChina ofereceu 43 bilhões de dólares pela compra da empresa suíça Syngenta

A China National Chemical Corporation (ChemChina) fez um pouso forçado de US$ 43 bilhões sobre a suíça Syngenta, líder global em defensivos agrícolas. A estatal chinesa fez o que a norte-americana Monsanto não conseguiu, mesmo oferecendo US$ 4 bilhões a mais.

Estratégia geopolítica é cada vez mais importante, meus caros, e nós aqui destruindo a Petrobras e o know-how no setor de construção de grandes obras nacionais e internacionais.

O movimento se constituiu no maior negócio feito pelos chineses no exterior, justamente quando se discute uma suposta debilidade econômica, que ameaça levar de roldão outras economias mundiais.

Syngenta, Monsanto, China, tudo a ver com você no Brasil. Na levada do slogan, poderíamos incluir a Rede Globo, que se não ajuda alimentar corpos e almas, o faz muito bem com cacholas e preferências políticas e culturais.

Hoje em dia, a concentração de mercado entre fabricantes de sementes geneticamente modificadas, agrotóxicos e fertilizantes químicos já é uma brutalidade. A entrada dos chineses não aumenta um tiquinho tal característica, mas interfere em seu eixo.

Tivesse a Syngenta aceitado a oferta da Monsanto, somada à união entre Dow Chemical e DuPont, o domínio norte-americano só não seria total pela força das alemãs Bayer e Basf. A última, aliás, vítima recente de ataque por frota comandada em Washington.

São curiosos os efeitos alardeados. Os EUA, grandes consumidores, temem que a China, no futuro, possa não fornecer a países pouco simpáticos a ela. Junte-se a dificuldade de Tio Sam em lidar com derrotas.

No Brasil, folhas e telas cotidianas, usualmente péssimas analistas, pensam numa China autossuficiente em alimentos, fibras e energias renováveis, o que secaria o saldo positivo de nossa balança comercial.

Aceitando o eufemismo da empresa, a Syngenta diz fabricar sementes e produtos e soluções para a proteção de cultivos. Os produtos, eu conheço: herbicidas, fungicidas, inseticidas. As “soluções” me trazem dúvidas: quebra-cabeças, palavras-cruzadas, sei lá.

Não se justifica a aflição. Os EUA sabem que a economia chinesa transita para um crescimento menor, tem estrutura rural limitada, e seu interesse na liderança da Syngenta reside no seu poder exportador.

O mesmo se repete aqui. Não será a linha de produtos da Syngenta que fará a China vencer suas dificuldades em se tornar autossuficiente no segmento. A agricultura brasileira continuará enchendo os bolsos da Syngenta, agora chinesa.

No ano passado, a ChemChina comprou a Pirelli por 7 bilhões de euros. Mostra um apetite para além da comida. Querem também diversão e arte. Ou, como desconfio, desmentir quem não a considera economia de mercado.

Se todos seus movimentos, nas duas últimas décadas, não são pró-mercado, o que seriam?

Modesto, eu só espero que os chineses não descontinuem os famosos calendários Pirelli.

 

Ana Maria Primavesi
Ana Maria Primavesi: 'não existe planta sadia sem solo sadio'

Todos nós que mexemos com o agro conhecemos a engenheira agrônoma, nascida na Áustria, radicada no Brasil e formada pela Universidade Federal de Santa Maria (RS), Ana Maria Primavesi.

Seu pioneirismo ao pesquisar e divulgar a utilidade de manejos integrados e agroecológicos do solo é cada vez mais entendido e comprado pelos agricultores brasileiros.

É cada vez mais fácil convencê-los de que a sabedoria cabocla não parou no plantio direto em palha. Hoje em dia dominante, tal manejo pode e deve ser complementado com novas formas de tratamento próximas do que foi preconizado pela professora.

Para ela, “não existe planta sadia sem solo sadio (...) solo e planta formam uma unidade no ciclo da vida”.

Lembro disso quando vejo grãos, que parecem frangos estimulados por bombas hormonais sintéticas, crescendo sobre solos saturados de adubos químicos.

Alguém me pergunta se tudo aquilo é saudável. Respondo que não. Então, por quê? Uai, se não, como os amigos aí, caboclos, sertanejos, campesinos e ruralistas, fariam os chineses gastarem 43 bilhões de dólares mais dois relógios-cucos com os suíços?

Se a agricultura resistir ao “caminho do meio”, que atenua o uso excessivo de agroquímicos, pelo equilíbrio no condicionamento do solo, nutrição apoiada em elementos orgânicos e minerais, indutores naturais de resistência às pragas e doenças e controladores biológicos, no final, encontraremos desertificação, escassez de água e alimentos tóxicos.

Mas, até lá, a ChemChina terá feito um bom negócio. 

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