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Standard & Poor's ameaça rebaixar Índia para grau especulativo

por Gabriel Bonis publicado 11/06/2012 16h54, última modificação 06/06/2015 17h28
A ação diz mais sobre o trabalho das agências do que à situação da economia indiana
novadeli

Foto: Michaelvito/Flickr

A Índia pode ser o primeiro país dos Brics (grupo composto também por Brasil, China, Rússia e África do Sul) a perder seu "grau de investimento" concedido pelas agências de classificação de risco e ser rebaixado para nível especulativo. A ameaça foi feita nesta segunda-feira 11 pela Standard & Poor's. A agência revisou de estável para negativa a perspectiva econômica da Índia e apontou como justificativa o crítico desaquecimento da economia e as barreiras para realização de políticas econômicas. Isso significa que a Índia pode perder o nível de investimento BBB- nos próximos meses. “Reveses ou inversões no caminho da Índia para uma economia mais liberal podem prejudicar suas projeções de crescimento a longo termo e, por isso, sua qualidade de crédito”, disse Joydeep Mukherji, analista da S&P, em entrevista coletiva em Nova York. Logo após o anúncio, a rúpia, moeda indiana, e a bolsa de valores do país registraram queda.

Diante do aviso mandado pela S&P à Índia, os outros Brics, entre eles o Brasil, devem ficar de olhos abertos. Com a Europa e os Estados Unidos ainda enfrentando reflexos da crise de 2008, os Brics têm puxado nos últimos anos o crescimento mundial. As notas de crédito dos emergentes, também atribuídas pelas agências de risco, entretanto, ainda seguem abaixo das economias europeias. No ranking da S&P, por exemplo, o Brasil tem nota BBB, inferior ao BBB+ da Espanha, afundada na crise.  Dois rebaixamentos seguidos (para BBB- e, depois, para BB+), poderiam jogar o Brasil novamente no grupo dos países cuja dívida é classificada como "especulativa". "O eventual rebaixamento [da Índia] tende a criar alguma desconfiança em relação aos Brics, afetando principalmente o fluxo de curto prazo dos capitais, mas não o investimento direto", diz Antonio Correa Lacerda, doutor em Ciências Econômicas e professor da PUC-SP. Lacerda nota que o investimento direto é mais importante, pois significa uma sustentabilidade mais ampla da economia e do mercado. Para  Maryse Farhi, doutora em Ciências Econômicas e especialista em países emergentes da Unicamp, o impacto do alerta à Índia não deve chegar aos outros países, pois a Índia tem uma economia muito complexa. Para ela, entretanto, o aviso serve de alerta a longo prazo. "Pelo menos em um primeiro momento, não há impacto nos demais países do grupo, mas isso mostra que ninguém está imune”, diz.

 

 

O alerta emitido pela S&P se deu após uma sequência de notícias ruins vindas da Índia. Segundo o site da revista americana Bloomberg, o PIB da Índia cresceu 5,3% no último quadrimestre em relação ao ano anterior, o pior resultado em nove anos. O déficit comercial no último ano também foi recorde, e chegou a 184,9 bilhões de dólares. Esses dados levantaram a preocupação de que a perspectiva econômica do país tenha se deteriorado diante do agravamento do impasse político atual na Índia, que atrapalha os investimentos públicos, e da crise da dívida pública na Europa, que prejudica as exportações. A S&P aponta também o deslizamento fiscal, combinado com uma inflação persistentemente alta (acima de 7%), como itens capazes de enfraquecer a confiança dos investidores. “O peso da dívida do governo e a flexibilidade fiscal podem continuar erodindo, em paralelo à crescente vulnerabilidade externa devido a maior comércio e déficits corrente de conta. A qualidade do crédito indiano sofreria neste cenário, e um rebaixamento poderia ser o resultado”, diz o relatório.

Apesar das notícias negativas, o alerta da S&P causou certa surpresa. O PIB indiano cresceu 6,5% em 2011, muito acima dos níveis registrados na Zona do Euro, e há planos de construir novos portos, estradas e plantas energéticas para impulsionar o crescimento a longo prazo. Assim, o que motivou a revisão feita pela S&P? Para os analistas, a resposta está mais no comportamento das agências, que falharam ao prever a crise de 2008, do que na economia indiana. “A revisão é mais uma evidência de que [as agências de risco] estão um pouco perdidas e tentando se redimir, mas querem ser mais realistas que o rei", diz Lacerda. "O engraçado é que isso só surge agora, embora seja de conhecimento geral que a Índia sempre foi uma economia extremamente complexa. Parece-me um oportunismo fazer isso em meio à crise”, disse.

Farhi também critica as ações das agências de risco e lembra que elas mantiveram classificação positiva do banco norte-americano Lehman Brothers até dias antes de sua falência. A quebra do Lehman Brothers foi o detonador do início da recessão em 2008. “A revisão pode ser uma forma de mostrar que as agências não estão olhando apenas para a Europa”, diz. “Mas é espantoso que essas agências continuem funcionando”, afirma.

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