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Economia

Socialismo dentro do capitalismo

Sem dinheiro e sem patrão

por Clara Roman — publicado 20/03/2012 10h44, última modificação 20/03/2012 10h55
O Brasil tem hoje 3 milhões de pessoas inseridas em políticas comunitárias, diz o secretário de Economia Solidária Paul Singer
solidária

Centro de Abastecimento da Economia Solidária, no 5º Fórum Social Mundial, em 2005. Toneladas de alimentos produzidos por associações familiares devem ser consumidas durante o evento. Foto: Marcello Casal Jr/ABr.

Ainda é pouco para um país tão grande, mas já é possível dizer que hoje, no Brasil, três milhões de pessoas vivem sob uma espécie de socialismo dentro do capitalismo. O levantamento é de Paul Singer, secretário de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego. Na sexta-feira 16, ele fez um balanço sobre a parcela da população que está inserida em programas de economia solidária (cerca de 1,6%). Ao todo, são 30 mil empreendimentos.

“É uma alternativa não capitalista ao desemprego”, diz o sociólogo e economista, em aula magna na Universidade Mackenzie.

Hoje, a economia solidária é uma das bandeiras do Plano Brasil sem Miséria – principal programa de Dilma para erradicação da extrema pobreza. Segundo Singer, o orçamento da pasta nunca foi tão grande.

Até partidos que antes eram resistentes à ideia, por considerar “coisa do PT”, estão com planos de estímulo a projetos comunitários. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), tem estudado a possibilidade de importar o programa para o estado.

Se hoje iniciativas como o microcrédito, moeda social, banco comunitário e produções em cooperativas são reconhecidas como projetos de sucesso, há pouco tempo elas passavam despercebidas por grande parte da população, inclusive autoridades. Singer explica: esse tipo de organização foi uma resposta ao desemprego massivo, consequência da hiperinflação e da crise econômica no país durante as décadas de 1980 e 1990. “Trabalhadores lutaram para ficar com a massa falida e montar empresas cooperadas”, explica.

Singer conta que em 1988, quando fazia parte da plataforma eleitoral da então candidata à prefeitura Luiza Erundina em São Paulo, uma das propostas de campanha era organizar a massa de trabalhadores desempregados (na época, cerca de um milhão e meio de pessoas) em associações produtivas independentes. Foi quando ficou sabendo que essa ideia não era nova. “Recebi cartas de pessoas falando que já estavam fazendo isso. O nome economia solidária foi adotado depois”, diz.

No mundo, diversas iniciativas pipocam. Butão, um país de 700 mil habitantes nas montanhas do Himalaia, na Ásia, será o principal um dos principais nomes da próxima conferência internacional de economia solidária. O país, que investe intensamente na ideia, deixará de contabilizar seu crescimento pelo PIB. Utilizará a conceito de FIB (Felicidade Interna Bruta), um indicador que mede não só o desenvolvimento econômico, mas a possibilidade de tornar a sociedade mais democrática e sustentável. “É uma fábrica de utopias, mas não é algo para quando tormarmos o poder, é para agora”, afirma o sociólogo.

Em outubro de 2011, representantes de 62 países se reuniram em Montreal, em conferência chamada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

No Brasil, são as mulheres que lideram o processo. “A pobreza é feminina e infantil”, diz. Comunidades quilombolas, indígenas e extrativistas também representam boa parte dos empreendimentos. Proporcionalmente, cidades pequenas contabilizam um grandes número de iniciativas. Um exemplo é Guaraqueçaba, no Paraná. A cidade tem apenas sete mil habitantes, mas 27 cooperativas e associações de economia solidária. A capital, Curitiba, com cerca de 1.750.000 habitantes - 250 vezes o tamanho de Guaraqueçaba - tem apenas 91 empreendimentos (pouco mais que o triplo).

Um dos princípios desse tipo de organização econômica é  a ausência de hierarquia. Em sua análise, Singer retoma a herança militar na sociedade como uma das causas para sua hierarquização estrita (até em esferas supostamente mais livres, como universidades).

“[A economia solidária] é uma réplica da economia brasileira sem patrão”, afirma.

O  processo, explica ele, envolve desde trabalhadores que perderam seus empregos, comunidades tradicionais, até engenheiros, universitários, economistas e administradores.