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Por que tanto medo da sustentabilidade?

por Rui Daher publicado 24/06/2016 10h00
É estranha a pouca ousadia dos agricultores brasileiros no uso de tecnologias poupadoras de solos, ambiente e bolsos
Tony Winston/ Agência Brasília/Fotos Públicas
Agricultura familiar

No Brasil, muitas práticas importantes de manejo têm sido usadas. Na foto, feira de agricultura familiar em Brasília

Muitas vezes volto de Andanças Capitais certo de que grande parte dos agricultores brasileiros pensa sustentabilidade como o desejo pessoal de sustentar-se.

Viagem anual a Miami, caminhonete nova, colheitadeira mais potente, toneladas de agroquímicos para aplicarem em suas lavouras. Luxo, comodismo e tradição, enfim.

Maltrato-os? Verão que não. Tanto os mais capitalizados como os que se valem de financiamento subsidiado pelo governo, safra após safra, repetem os mesmos manejos nutricionais e fitossanitários de altos custos, até cartelizados, sem que isso lhes garanta efetividade ou evite riscos. 

É estranha sua pequena ousadia no uso de tecnologias poupadoras de solos, ambiente e bolsos.

Pode parecer fascínio pelo jogo. Driblar os humores de Chicago, Nova York e o apetite chinês, emociona. Roleta girando! Preto: “Ufa, mais um ano sustentável”. Vermelho: “Ferrou. Os EUA produziram muito, os subsídios europeus nos massacraram, os chineses pousaram pesado, o clima não colaborou, a infraestrutura e a Dilma também. Ficamos insustentáveis”.

Cada país cultiva e produz alimentos de acordo com suas aptidões regionais e hábitos alimentares. Este o motivo para a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) medir a produção mundial dos mais de 250 países, através dos 20 principais alimentos lá produzidos.

Em 2012 (o último divulgado), a produção global de alimentos alcançou 9,2 bilhões de toneladas, época em que a população mundial acabara de chegar aos sete bilhões.

Uma ração anual per capita de 1,3 tonelada, confortável para ninguém passar fome. Sobrariam ainda alpiste para pássaros, rãs para apreciadores e quinoa para veganos.

Nessa relativa fartura, contribuem: a União Europeia (22%); China (15%); Brasil (11%); EUA (8%); e África (7%). Mais de 60%.

Se, de um lado, tais expressões produtivas são repassadas às conquistas agroquímicas, de outro lado, elas começam a ser percebidas como limitantes da produtividade agrícola futura. Embora milhares de moléculas sejam patenteadas a cada ano, suas efetividades pouco acrescem aos níveis já alcançados nas principais regiões de agricultura.

Em artigo no China Daily, Asia Weekly, os pesquisadores em sustentabilidade agrícola e energética, Colin Osborne, Duncan Cameron e Mark Sinclair, da University of Sheffield, no Reino Unido, afirmam: “A união das práticas antigas à biotecnologia moderna é a chave para alimentar a crescente população global”.

Essa a crítica aos nossos agricultores, submissos à pressão dos grandes fabricantes de agroquímicos, equivocados por dois fatores. A primeira é a de que produtos orgânicos e naturais se aplicam apenas em cultivos de baixa escala. A segunda é a cegueira ambientalista de não os permitirem associados às tecnologias minerais e de baixo impacto ambiental em doses mais baixas.

São erros dos produtores rurais, principalmente os grandes, coonestados por órgãos oficiais regulatórios, educacionais e dos técnicos, consultores e agrônomos, indutores do discurso agroquímico de massa.

A China possui ao redor de 9% das terras agricultáveis do planeta. Ainda assim, é exportadora líquida de alimentos e supre um mercado interno que representa 21% da população global.

Tais resultados, até aqui, vieram da prática de agricultura intensiva.

Reformulam. Perceberam os altos custos dessa receita, os índices de erosão, poluição do solo, escassez de água e perda de biodiversidade, daí decorrentes.

Pesadas adubações químicas provocam alto uso de energia para obter suprimento de nitrogênio inorgânico (consumo de 5% da produção mundial de gás natural); esgotamento das minas de fósforo; lixiviação de nutrientes que poluem águas dos rios e costeiras; proliferação de algas que exaurem a oxigenação da água e letais para a fauna aquática.

Segundo os autores, o Ministério de Proteção Ambiental da China encontrou contaminantes em 20% das áreas agricultáveis, sem que houvesse aumento de produtividade no país, estagnada há 15 anos.

O fato tem repercutido junto à comunidade acadêmica chinesa e o governo lançou programas de manejo agrícola que conjugam métodos antigos (orgânicos) e novos (biotecnologia).

Redesenham, pois, seu modelo agrícola para diminuir a excessiva nutrição com fertilizantes artificiais e o controle tóxico de pragas e doenças. Valem-se da simbiose com micróbios, benéfica à extração de nutrientes e resistência das plantas.

Tornam assim o solo um sistema hidropônico, capaz de retenção de água, fornecimento de nutrientes pelas trocas catiônicas, minimizam a erosão.

Querem mais?

Ao argumento de que é impossível atender o consumo mundial de alimentos apenas com manejos estritamente orgânicos, a resposta está neles combinados. Em todos os sentidos.Aumentam a produtividade, diminuem a expansão de áreas, têm menor impacto ambiental, limitam o esgotamento dos solos e reduzem o custo por hectare.

No Brasil, muitas práticas importantes de manejo têm sido usadas. Desde o bom e velho plantio direto na palha, passando pela fixação de nitrogênio nas plantas através de leguminosas, e chegando à rotação de culturas, ao uso crescente de resíduos orgânicos, e a integração lavoura, pasto, floresta.

Por que, então, o medo?

O infinito exército de micróbios que habita os solos vive a perguntar o que esperam para ativá-los? Serão os chineses mais corajosos mesmo em condições edafoclimáticas piores?