Economia

PL do pré-sal: entreguismo ou fôlego financeiro para a Petrobras?

Entenda os argumentos a favor e contra o projeto que desobriga a estatal de participar da exploração do pré-sal

Apoie Siga-nos no

Os deputados federais retornaram ao trabalho em Brasília na segunda-feira 1º com uma pauta que agrada especialmente ao governo interino e seus aliados. Dentre as matérias a serem apreciadas está o Projeto de Lei 4567/16, ou PL do pré-sal, que nasceu no Senado e ganhou regime de urgência na Câmara dos Deputados em uma das últimas votações plenárias antes do recesso parlamentar, em meados de julho.

Com esse status, a matéria fura a fila dos demais e encabeça a pauta dos deputados. Antes disso, no início de julho, o PL já havia sido aprovado pela Comissão Especial da Petrobras e Exploração do Pré-Sal, também na Câmara.

O que é o PL 4567/16?

O PL, de autoria do senador licenciado e atual ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB-SP), altera as regras para a exploração de petróleo e gás natural do pré-sal, extinguindo a atuação obrigatória da Petrobras em todos os consórcios formados para a produção nessas áreas.

O que diz a lei atual? 

A lei atual, a 12.351/10, determina que a Petrobras deve ser a operadora de todos os blocos do pré-sal contratados sob o regime de partilha de produção. Isso significa que quem vence um leilão para a exploração deve constituir com a Petrobras e com a Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA) – empresa pública criada justamente para gerir contratos de partilha de produção – um consórcio para a exploração do bloco licitado.

No consórcio, a lei estabelece que a Petrobras deve ter participação mínima de 30%. Como operadora, a Petrobras é responsável pela condução de todas as atividades operacionais relacionadas à exploração e à produção de petróleo e gás. É ela, por exemplo, quem contrata as empresas prestadoras dos serviços necessários às atividades exploratórias, fornecedores, e fica com o controle dos custos do negócio.

O que muda com a nova lei? 

O PL do pré-sal, que tramita agora na Câmara, muda completamente a configuração desses consórcios, que passariam a poder ser formados apenas pelo vencedor do leilão e pela PPSA. A Petrobras poderia ser a operadora, desde que optasse por isso. Funcionaria assim: o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) ofereceria à Petrobras, “considerando o interesse nacional” – conceito que não é detalhado no PL – a preferência para ser a operadora dos blocos a serem contratados pelo regime de partilha.

Depois disso, a Petrobras teria até 30 dias para se manifestar sobre o direito de preferência em cada uma das áreas ofertadas. Se a estatal aceitar, terá participação mínima obrigatória de 30% no consórcio vencedor da licitação. Se dispensar, o bloco terá outro operador e cai a obrigatoriedade da participação.

É verdade que a nova lei dá poderes à presidência?

Sim. A nova proposta também define que as escolhas da Petrobras serão submetidas ao presidente da República e será ele quem dará a palavra final sobre quais blocos ofertados deverão ser operados pela estatal ou não. Ou seja: mesmo que a Petrobras opte por ser a operadora isso pode ser vetado pela Presidência.

O que isso significa?

Essa medida abre uma fratura na proteção que a Petrobras desfrutava diante de mudanças políticas. Agora, conforme a ideologia do presidente, a estatal pode ter sua atuação prejudicada. 

As empresas que substituírem a Petrobras terão as mesmas obrigações dela?

Sim. O projeto estabelece, ainda, que a empresa que estiver à frente do bloco terá de assumir as mesmas obrigações que hoje a Lei 12.351 exige da Petrobras, como informar ao comitê operacional e à Agência Nacional de Petróleo (ANP), no prazo contratual, a descoberta de qualquer nova jazida de petróleo e realizar a avaliação da descoberta seguindo as regras do plano de avaliação aprovado pela ANP.

O que diz a Petrobras sobre o projeto? 

Pedro Parente, que assumiu a presidência da Petrobras a convite do presidente interino, Michel Temer, esteve em Brasília na semana passada e defendeu o projeto de lei, argumentando que ele tornaria os próximos leilões mais competitivos.

Além disso, Parente, acusado por petroleiros e críticos de estar iniciando um desmonte da Petrobras para privatizá-la, vê como positiva a aprovação das novas regras porque a estatal, em crise desde o início da Operação Lava Jato, teria dificuldades para fazer os investimentos necessários caso continuasse obrigada a participar da exploração de todos os campos do pré-sal.

O que dizem os defensores do projeto?

O limite de caixa da Petrobras é o principal argumento de quem defende a proposta. Os defensores afirmam que no cenário em que a empresa está – no centro das investigações envolvendo pagamento de propina e lavagem de dinheiro – a Petrobras não teria capacidade financeira para atuar como operadora exclusiva.

Após registrar prejuízo líquido de R$ 34,8 bilhões em 2015 e ver sua dívida bruta atingir R$ 450 bilhões no primeiro trimestre do ano, a estatal anunciou uma redução de 24,5% nos investimentos previstos para o período 2015-2019. O tema é de interesse do governo interino, pois a medida seria um mecanismo para atrair petroleiras estrangeiras para compensar as dificuldades da Petrobras em investir na extração no pré-sal.

Há mais algum argumento a favor do PL 4567? 

Quem é a favor da proposta argumenta também que a nova regra para o pré-sal daria à estatal o tempo necessário para que ela se recupere da crise financeira, já que ela não seria mais obrigada a ser a operadora de todos os blocos licitados no pré-sal. Há ainda quem diga que a proposta estimula a indústria petrolífera no País, uma vez que haveriam mais operadores à frente da exploração das áreas, diluindo a contratação de fornecedores de equipamentos e serviços.

Quais são os argumentos contrários ao projeto? 

Do outro lado da queda de braço estão os que acusam o governo interino e seus aliados de entreguismo, por criarem e defenderem um projeto que daria ao capital estrangeiro poderes sobre o petróleo nacional, tirando a autonomia e a prioridade da Petrobras, construída ao longo dos últimos anos.

Por isso, embora já derrotados na Comissão Especial da Petrobras e Exploração do Pré-Sal e no plenário – na votação do regime de urgência – deputados que hoje são oposição mantêm forte resistência ao PL, argumentando que o objetivo final seria excluir a Petrobras do processo de produção do pré-sal.

O deputado Weverton Rocha (PDT-MA), por exemplo, apresentou na sessão que aprovou a urgência um voto em separado pedindo a rejeição da proposta. No seu voto, o deputado argumentou que os riscos e custos de extração no pré-sal vêm caindo significativamente, de modo que não se justifica mudar a legislação para atrair empresas estrangeiras.

Na sessão ele disse que a permanência da Petrobras como operadora em todos os consórcios para a exploração do pré-sal contribui decisivamente para o sistema de controle brasileiro do processo de exploração feito por estrangeiros.

Por isso, a ausência da Petrobras não permitiria ao governo aferir eficientemente se a exploração realizada por transnacionais estrangeiras estaria em volumes corretos ou seria subnotificada ao governo brasileiro.

Mas o que os críticos do projeto dizem sobre a saúde financeira da Petrobras?

Quem se opõe à proposta afirma também que, se num primeiro momento os escândalos envolvendo a Petrobras abalaram a credibilidade da estatal para obter crédito estrangeiro, a empresa já vem mostrando que está em recuperação e que será capaz de colocar suas contas em ordem.

Opositores acusam ainda os defensores de, com o PL do pré-sal, estarem iniciando um processo que levaria à desestatização da Petrobras, um primeiro passo para a privatização. Tirar o protagonismo da Petrobras na exploração do maior achado energético do Brasil reduziria a importância da estatal e justificaria sua venda futura.

Há mais algum argumento contrário? 

Os grupos contrários aos PL 4567 criticam a conveniência da qual desfrutariam a partir de agora as empresas estrangeiras ao se tornarem operadoras de blocos do pré-sal. Afinal, as pesquisas e descobertas das primeiras jazidas foram feitas pela Petrobras, que assumiu os riscos da empreitada. Agora, os retornos seriam garantidos. Pesa ainda a experiência internacional: o petróleo dos grandes produtores mundiais está nas mãos de empresas estatais em cerca de 90% dos casos.

A venda de um poço do pré-sal na semana passada tem algo a ver com o projeto?

A Petrobras anunciou na sexta-feira 29 que seu Conselho de Administração aprovou a venda de sua participação de 66% no bloco exploratório BM-S-8, campo do pré-sal na Bacia de Santos, para a Statoil Brasil, subsidiária da norueguesa Statoil, por US$ 2,5 bilhões. A transação faz parte da estratégia que prioriza investimentos em ativos com maior potencial de geração de caixa no curto prazo.

O BM-S-8, ou Carcará, é atualmente operado pela Petrobras (66%) – parte que passará para a Statoil – em parceria com a Petrogal Brasil (14%), Queiroz Galvão Exploração e Produção (10%) e Barra Energia do Brasil Petróleo e Gás (10%). É o primeiro bloco colocado à venda pela estatal que, para enfrentar a escalada da sua dívida prevê vendas de ativos de mais de US$ 14 bilhões até o final do ano. Carcará é das primeiras áreas de exploração do pré-sal, ainda no regime de concessão e não de partilha, e por isso não está dentro da regra que obriga a presença da Petrobras no consórcio.

Na prática, existe possibilidade de o projeto ser barrado? 

A bancada do PT na Câmara reconhece a dificuldade de derrubar a proposta e, por isso, deve procurar uma via alternativa, que seria reduzir o percentual mínimo obrigatório para a estatal no consórcio, mas não extinguir esse piso. Vice-líder da oposição na Casa, Carlos Zarattini (PT-SP) afirmou à imprensa na semana passada que o partido planeja apresentar emendas para diminuir a exigência de participação de 30% para 20% nos consórcios de exploração. 

O partido e a oposição defendem que é necessário que a estatal continue atuando em todos os campos do pré-sal, o que ajudaria na recuperação financeira da empresa e impediria que a cadeia produtiva, especialmente seus fornecedores, fossem afetados. Permitir que empresas estrangeiras operem os campos de exploração do pré-sal poderia acertar em cheio esses fornecedores, muitos deles altamente dependentes dos negócios com a Petrobras.

Enquanto isso, a Petrobras segue explorando o pré-sal?

Sim, os avanços da empresa na exploração seguem. Em julho, a Petrobras iniciou a produção de petróleo e gás natural do projeto Lula Central, o décimo grande sistema de produção a entrar em operação no pré-sal da Bacia de Santos. Com a extração de cerca de 30 mil barris por dia, este foi o segundo sistema a entrar em operação neste ano na região e o pré-sal já responde por cerca de 40% do total da produção no País, que supera 1 milhão de barris de petróleo por dia.

Dos dez poços com maior produção no Brasil, nove estão no pré-sal. A alta produtividade resulta em uma redução contínua do custo de extração, que atingiu um valor inferior a US$ 8 por barril no primeiro trimestre deste ano.

O tempo médio para construção de um poço marítimo no pré-sal da Bacia de Santos, por exemplo, caiu 71% entre 2010 e 2016, passando de 310 dias em 2010 para 89 dias nos cinco primeiros meses de 2016.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Os Brasis divididos pelo bolsonarismo vivem, pensam e se informam em universos paralelos. A vitória de Lula nos dá, finalmente, perspectivas de retomada da vida em um país minimamente normal. Essa reconstrução, porém, será difícil e demorada. E seu apoio, leitor, é ainda mais fundamental.

Portanto, se você é daqueles brasileiros que ainda valorizam e acreditam no bom jornalismo, ajude CartaCapital a seguir lutando. Contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo