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Especial Ferrovias

Para recolocar o País nos trilhos

por Redação Carta Capital — publicado 09/04/2013 11h29, última modificação 09/04/2013 11h39
Especial Ferrovias : Governo testa modelo de licitação para as estradas de ferro
Trem da ALL no alto araguaia

Foto: Divulgação

Por Luciano Feltrin

Se uma parte relevante da estratégia do governo para desatar os nós da ineficiência logística passa pela aprovação da Medida Provisória nº 595, que trata dos portos, outra está diretamente ligada à aposta feita nas concessões de ferrovias. O teste de fogo para saber se o modelo terá sucesso ou -encontrará -resistência da iniciativa privada deve ocorrer ainda neste semestre. Há a expectativa de que, até lá, o primeiro dos nove trechos que o governo pretende transferir para investidores interessados em explorar o modal seja leiloado.

Trata-se de uma linha projetada para ter 477 quilômetros de extensão a ligar Açailândia, no Maranhão, a Porto de Vila do Conde, no Pará, passando por 11 municípios. Num primeiro estágio, a ferrovia será uma opção para transportar carga geral, ajudando a escoar petróleo e derivados, além de açúcar, milho, etanol e soja. No futuro, ganhará maior importância estratégica, pois será uma extensão da Norte-Sul, servindo de interligação com o Porto de Santos, o principal da América Latina.

 

 

As audiências públicas marcadas para costurar o edital de concessão da linha têm servido como termômetro para o governo. O ponto que mais tem sido debatido nas reuniões é o que trata do papel da Valec, vinculada ao Ministério dos Transportes, durante e após as licitações. Pelo modelo desenhado pelo governo, a estatal comprará toda a capacidade operacional dos responsáveis por construir as ferrovias, revendendo às transportadoras de carga. O fato divide opiniões de interessados em participar dos leilões. Uma parte do mercado enxerga na modelagem um conforto adicional para entrar de cabeça nas licitações. Afinal, com a Valec garantindo a demanda e, em última instância, assumindo possíveis prejuízos, os riscos do negócio seriam bastante reduzidos.

“Grandes construtoras e fundos de pensão gostaram do modelo, porque ele mitiga riscos e abre a possibilidade de obtenção de retorno financeiro de longo prazo”, acredita Renato Sucupira, sócio da BF, consultoria financeira independente que no momento acompanha cada passo do processo de -licitação de perto para dois clientes. Também agrada, segundo o especialista, o fato de que a Valec antecipará 15% do valor total a ser investido na ferrovia aos vencedores do leilão. Embora o desenho no qual a estatal absorve parte relevante dos riscos operacionais seja novo e precise de tempo para ser colocado à prova, é certo que ele fez crescer o apetite de grupos de investidores bastante distintos.

“Há várias categorias de interessados: investidores institucionais e financeiros como fundos de pensão, soberanos e aqueles que aplicam em infraestrutura, além de operadores de modais, usuá-rios de carga e tradings”, exemplifica Hans Lin, um dos responsáveis pela área de banco de investimento do Bank of America Merrill Lynch no Brasil.

A operadora logística JSL, hoje concentrada em rodovias, é uma das empresas que vislumbram no modal ferroviário uma oportunidade para transportar carga. “Não descartamos participar de futuras concessões ferroviá-rias, mas isso só acontecerá se algum dos nossos clientes entender que o modal faz sentido para sua operação. Caso isso aconteça, podemos compor um consórcio juntos”, afirma Fernando Simões, presidente da companhia.

O negócio também interessa à América Latina Logística (ALL). Com seis concessões ferroviárias no Brasil, a companhia pode atuar como operadora das futuras linhas. “Nós nos vemos como o competidor mais forte desse mercado e candidato natural a comprar capacidade nas malhas”, afirma Carlos Eduardo Baron, gerente de relação com investidores da empresa.

A falta de consenso dos investidores em relação ao modelo da Valec vai além da questão da garantia de demanda de capacidade das linhas a ser ofertadas. “Os potenciais investidores não colocam em dúvida a capacidade financeira que a estatal terá para honrar os compromissos. Ela certamente conseguirá ativos e garantias suficientes para isso”, observa a advogada Rosane Menezes Lohbauer, especialista em infraestrutura do escritório Madrona Hong Mazzuco Brandão. “O que preocupa de fato é medir os riscos de a Valec não demonstrar uma gestão eficiente ao longo do tempo.”

Nesse sentido, o que mais causa inquietação aos interessados em participar das licitações é a possibilidade de que a estatal possa estar superestimando a demanda das ferrovias, o que poderia, na mais drástica das hipóteses, causar frequentes prejuízos à companhia, que teria de pedir socorro ao Tesouro Nacional.

O anúncio de que 10 mil quilômetros de ferrovias serão licitados e 91 bilhões de reais aplicados em estradas de ferro para que, em 2015, a participação das ferroviárias no total transportado no País salte dos atuais 25% para 35% renovou o ânimo de todo o setor. Embalados pela desoneração da folha de pagamento, os fabricantes pretendem ampliar a produção para dar conta da crescente demanda.

“A indústria está se preparando para fornecer a maior parte dos componentes, como trens e locomotivas. Claro que será preciso importar, mas a ideia é de que isso aconteça de forma -pontual, apenas para a aquisição de componentes e peças específicas, caso de rolamentos”, exemplifica Vicente Abate, presidente da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer). Dessa forma, calcula o executivo, será possível cumprir as metas de fornecimento de conteúdo local – que varia de 60% a 80% no segmento.

Ao longo dos últimos dez anos, a indústria investiu 1,5 bilhão de reais. Nesse período surgiu, por exemplo, o polo de Hortolândia, no interior paulista. Formado por pelo menos dez empresas, emprega 4 mil funcionários, três vezes mais do que há quatro anos. O número poderia ser ainda mais expressivo, caso não faltasse mão de obra para o setor, o que, além de dificultar contratações, inflaciona o passe dos trabalhadores.

“Um profissional que atua em nível de gerência na área comercial de uma ferrovia, função que é a cereja do bolo por lidar com toda a estratégia da empresa, pode ganhar de 17 mil a 25 mil -reais por mês”, estima Fernando Marucci, diretor da consultoria de recrutamento e seleção de executivos Asap.