Você está aqui: Página Inicial / Economia / Os desafios da indústria brasileira

Economia

Política econômica

Os desafios da indústria brasileira

Percorremos o caminho inverso dos asiáticos. Eles abriram a economia para importações redutoras de custos
por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 04/03/2013 09:53, última modificação 04/03/2013 09:56
Comments

A perda de dinamismo da industrialização brasileira provocou, no início dos anos 90, uma reação extremada nas hostes liberais: abrir a economia e expor os empresários letárgicos aos ares benfazejos da globalização. O silogismo em que se desdobra a premissa é grotesco em sua simplicidade: se a indústria brasileira perdeu a capacidade de investir ou de se modernizar, a solução é submeter a incompetente à disciplina da concorrência externa.

Na arrancada dos emergentes bem-sucedidos, os benefícios da abertura da economia ao investimento estrangeiro – tais como absorção de tecnologia, adensamento de cadeias industriais, crescimento das exportações – dependeram fundamentalmente das políticas nacionais. Dentre os chamados BRICS, cresceu mais e exportou ainda melhor quem conseguiu administrar uma combinação favorável entre câmbio real competitivo e juros baixos, acompanhada da formação de redes domésticas entre as montadoras e os fornecedores de peças, componentes, equipamentos, sistemas de logística e advertising.

Na era da arrancada chinesa, é superstição acreditar que a abertura financeira e a exposição pura e simples do setor industrial à concorrência externa são capazes de promover a modernização tecnológica e os ganhos de competitividade. Os estudos mais especializados e aprofundados sobre o tema mostram que a concorrência nos mercados contemporâneos está marcada por características que não guardam qualquer semelhança com as crendices simplificadoras das vantagens comparativas. A propósito das suposições sobre o estado atual das trocas internacionais, dois economistas de Princeton escreveram um artigo denominado “O surgimento das cadeias globais: não se trata mais de Vinho versus Tecidos”. É uma crítica bem argumentada e com sólidas bases empíricas às teorias convencionais sobre os ganhos de comércio lastreadas na teoria das vantagens comparativas.

Os estudiosos reconhecem a existência de economias de escala e de escopo, economias externas, estratégias de ocupação e diversificação dos mercados, conglomeração e acordos de cooperação. Nesse jogo só entra quem tem cacife tecnológico, poder financeiro e amparo político dos Estados Nacionais.

Não há exemplo nos países periféricos – aí incluídos o Chile e os “Tigres Asiáticos”, a China, de renúncia a políticas deliberadas de reestruturação produtiva ou de estímulo à modernização e à conquista de mercados. Seja qual for a estratégia adotada – liderança das exportações ou preeminência do mercado interno –, os casos bem-sucedidos de avanço industrial e produtivo na dita “era da globalização” têm um traço comum: intencionalidade e coordenação pública.

É insensato subestimar os efeitos causados pelas mudanças da geoeconomia mundial: a expansão sino-asiática vai continuar ameaçando as estruturas industriais do Velho e do Novo Mundo. As políticas asiáticas de promoção e integração industrial estão alicerçadas em ganhos expressivos nas relações produtividade/salário e sálario/câmbio na manufatura. Esse processo é amparado por um sistema de crédito voltado para o investimento manufatureiro privado e para a sustentação dos programas públicos de gastos em infraestrutura.

A despeito da crise global e da inevitável desaceleração chinesa, o estilo de desenvolvimento sino-asiático vai prosseguir em seus trabalhos de ganhar a dianteira na porfia competitiva global. Nessas circunstâncias, a valorização cambial é um erro grave, assim como a hesitação em promover políticas adequadas de defesa comercial e de estímulo às exportações.

Em artigo escrito com Júlio Sérgio Gomes de Almeida sugeri que a falsa inserção competitiva da economia brasileira está cobrando o seu preço. Falsa porque as políticas dos anos 1990 entendiam que bastava expor a economia à concorrência externa para lograr ganhos de eficiência micro e macroeconômicas. O Brasil encerrou os anos 1990 com uma regressão da estrutura industrial, ou seja, não acompanhou o avanço e a diferenciação setorial da indústria manufatureira global e, ademais, perdeu competitividade e elos nas cadeias que conservou.

Percorremos o caminho inverso dos asiáticos, que abriram a economia para as importações redutoras de custos. Importar para exportar. A abertura da economia estava, portanto, comprometida com os ganhos de produtividade voltados para o aumento das exportações. As relações importações/exportações faziam parte das políticas industriais, ou seja, do projeto que combinava o avanço das grandes empresas nacionais nos mercados globais e a proteção do mercado interno.

Leia os últimos artigos de Belluzzo:

Comentários

Todos os comentários são moderados, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Não serão aceitas mensagens com links externos ao site, em letras maiúsculas, que ultrapassem 1 mil caracteres, com ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência. Não há, contudo, moderação ideológica. A ideia é promover o debate mais livre possível, dentro de um patamar mínimo de bom senso e civilidade. Obrigado.

comentários do blog alimentados pelo Disqus
O enigma Marina

O enigma Marina

Edição Atual | Anteriores



Luiz Gonzaga Belluzzo
Luiz Gonzaga BelluzzoLuiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.
Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo As dores europeias
Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo Fausto e o moralismo
Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo Caprichos e direitos
Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo O poder da finança
Análise/Luiz Gonzaga Belluzzo A economia da crise

Índices Financeiros
Moedas
Dolar Comercial +0.00% R$0,000
Dolar Paralelo +0.00% R$0,000
EURO +0.00% R$0,000
Bolsas
Bovespa +1,03% 56789
Nasdaq +1,03% 12340
Frankfurt +1,03% 38950

Especial Haiti

Diálogos Capitais