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OI, a falência da “supertele”

por Sergio Lirio publicado 21/06/2016 17h13
A política de “campeões nacionais” não explica a fusão da Telemar com a Brasil Telecom
Divulgação
Loja da Oi

Oi: a supertele se afundou

Com uma dívida de 64,5 bilhões de reais, a OI, operadora de telefonia que atende 74,5 milhões de clientes no País, ingressou na Justiça do Rio de Janeiro com um pedido de recuperação judicial. A última tentativa de renegociação dos débitos fracassou na sexta-feira 17.

Em uma apresentação a credores, a companhia revelou seu curtíssimo fôlego financeiro. Em dezembro, o caixa estaria positivo em 700 milhões de reais, mantidas as condições atuais de mercado. No próximo ano, ficaria negativo em 8,4 bilhões de reais, rombo que chegaria a 17,3 bilhões em 2018.

Parte da mídia apontou como causa única do fracasso a política de criação de “campeões nacionais” adotada no governo Lula. A ideia era fortalecer empresas brasileiras, estimular a formação de gigantes locais capazes de concorrer com as multinacionais por meio da participação acionária do BNDES, Banco do Brasil e Caixa, além da oferta de linhas de financiamentos públicos mais baratas. Outro beneficiado por essa política foi o JBS Friboi, hoje o maior frigorífico do planeta.

A OI consolidou-se em 2008 a partir da fusão da antiga Telemar, que operava no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Nordeste, com a Brasil Telecom, atuante no Distrito Federal e Centro-Sul. O governo Lula chegou a alterar a lei de outorgas, criada durante a privatização da Telebrás, para permitir a união das duas empresas.

Culpar apenas a política de “campeões nacionais” é uma meia explicação. No caso da OI, a teoria foi usada pelo governo para encobrir o real motivo da fusão: resolver a longa e desgastante disputa judicial entre os fundos de pensão das maiores empresas estatais, o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, e os sócios da Telemar, o empresário Carlos Jereissati e a construtora Andrade Gutierrez.

Mais detalhes estão na reportagem Os novos barões, publicada por CartaCapital em janeiro de 2008.

Desde a privatização em 1998, três fundos de pensão (Previ, do Banco do Brasil, Petros, da Petrobrás, e Funcef, da Caixa) envolveram-se em uma intensa batalha judicial com Dantas pelo controle da Brasil Telecom.

O banqueiro dominava a operadora, apesar de acionista minoritário, e usava-a de acordo com seus interesses, à revelia das fundações, obrigadas pelo governo FHC a investir nas teles privatizadas. Dantas também mantinha uma pequena participação na Telemar e igualmente alimentava uma disputa com os demais sócios.

As brigas societárias transbordaram para a política. Durante o governo FHC, Dantas contava com o total apoio dos tucanos. Em um jantar no Palácio do Alvorada em 2002, conseguiu do próprio presidente da República a troca de dirigentes das fundações incomodados com seus desmandos.

A chegada do PT ao poder em 2003 resultou em mudanças no comando e na orientação dos fundos de pensão. O falecido Luiz Gushiken, ministro palaciano, alinhava-se com as fundações. Sem o apoio de antes, Dantas aproximou-se de José Dirceu e Antônio Palocci. As disputas na cúpula do governo Lula e a aproximação do banqueiro de lideranças do partido estão na base do chamado "mensalão".

Foram 11 anos de uma guerra travada muito além dos tribunais no Brasil e no exterior. Espionagem, chantagem, fraudes e duas operações da Polícia Federal compõem o enredo. Os dois lados saíram maculados e daí nasceu a ideia da fusão. Dantas desistiu do setor de telefonia em troca de cerca de 1 bilhão de reais e de um armistício com o PT. Os fundos, por sua vez, aceitaram o comando de Jereissati e da Andrade Gutierrez.

O sonho da “supertele” nacional durou menos de cinco anos. Em 2013, a Portugal Telecom adquiriu o controle da OI, em outra operação nebulosa. Os portugueses não caíram de paraquedas no imbróglio. Em 2005, CartaCapital revelou na reportagem A conexão Lisboa que José Dirceu havia autorizado o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza a viajar a Lisboa e oferecer um negócio aos acionistas da Portugal Telecom.

O objetivo era o mesmo que embasou a criação da OI: solucionar o impasse entre Dantas e os fundos de pensão. O banqueiro venderia aos portugueses a então Telemig Celular. O dinheiro, cerca de 5 bilhões de reais, seria usado para comprar a parte da italiana TIM na Brasil Telecom. E as fundações estatais? Seriam obrigadas pelo governo a acatar o domínio do dono do Opportunity. O escândalo do “mensalão” atrapalhou os planos.

Concebida para resolver um problema acionário e politico-criminal, sem uma estratégia clara de negócios, o destino da “supertele” não poderia ser diferente.

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