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Indústria automobilística

O caminho mais curto para o aquecimento

por Gabriel Bonis publicado 27/05/2012 09h44, última modificação 06/06/2015 18h14
Governo aposta fichas na área, mas consumidores estão endividados
carros

Elza fiúza/ABr

Pressionado pelo cenário externo incerto e resultados abaixo do esperado na indústria, o governo federal anunciou na segunda-feira 21 medidas de estímulo ao PIB, apostando mais uma vez no setor automobilístico como a peça capaz de segurar um crescimento de pelo menos 3% neste ano. E para que isso ocorra, os cofres públicos vão deixar de receber cerca de 1,2 bilhão de reais destinados ao corte na alíquota do Imposto sobre Produto Industrializados (IPI) para venda de veículos, além do estímulo ao consumo pela redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para pessoa física.

Essa aposta no setor de automóveis é vista pelos analistas de mercado como um caminho mais curto para aquecer a economia em tempos de crise, porque a área representa mais de 20% do PIB industrial e responde de maneira rápida aos estímulos. “A indústria automobilística tem alto retorno em empregos, além de impacto no PIB em torno de 8%. É diferente do setor de tecnologia, por exemplo, que apresenta impacto econômico, mas gera poucos postos de trabalhos”, explica Antônio Jorge Martins, professor do MBA em Gestão de Negócios Automotivos da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

 

 

Uma justificativa semelhante é usada pelo Ministério da Fazenda, responsável pelas medidas. O órgão avalia que as políticas de estímulo adotadas se encaixam "porque o setor enfrenta mais dificuldades" e "por afetarem uma série de outras indústrias e trabalhadores", informa em nota a CartaCapital.

A expectativa do governo é que a ação gere demanda e aqueça o comércio, tanto que os estímulos incluem a queda no preço da tabela dos automóveis e melhores condições de financiamento. Ainda assim, essa engenharia pode esbarrar em um ponto crítico: a capacidade das famílias em assumir novos compromissos, uma vez que estão mais endividadas que na crise de 2008. "No setor bancário esse índice é de 5,7% e no automotivo é ainda maior. E isso incomoda", alerta Martins.

O endividamento, no entanto, não parece ser um problema para o Ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ele defende que o aumento de renda dos trabalhadores e a entrada de novos empregados formais no mercado impedirá que os consumidores percam o controle e deixem de pagar as prestações. “Os novos trabalhadores têm a capacidade de adquirir bens, e a economia vai se movimentando, de modo que não haja excesso de endividamento."

Mesmo assim, há outra questão: as pessoas estão dispostas a comprar um automóvel? Isso porque o governo utilizou-se de generosos estímulos aos setor em 2008 e impulsionou a venda de milhares de veículos, muitos deles ainda sendo pagos ou em boas condições de uso.

Por isso, uma avaliação sobre a eficiência dos estímulos depende da taxa de substituição de produtos, que ao atingir um certo nível perde eficácia, explica David Kupfer, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em economia da indústria. "Ninguém troca de geladeira a cada seis meses só porque houve um estímulo."

Para contornar um cenário com resultados fracos aos estímulos, os analistas ouvidos por CartaCapital defendem a necessidade de buscar outras opções, como o auxílio à construção civil ou até mesmo manter o apoio ao consumo, mas focando em bens duráveis não beneficiados por outras medidas do governo. "Os bens duráveis possuem grandes condições de estímulo à demanda e consumo, por isso, recebem mais atenção", destaca Kupfer.

Procurado para comentar as medidas de apoio ao setor automobilístico, o Ministério da Fazenda afirmou, via assessoria de imprensa, que o governo anunciou neste ano "diversas medidas de estímulo a outros setores, como têxtil, calçado, móveis e bens de capital, além de ações sobre o câmbio e a redução dos juros, que beneficiam a indústria de maneira  ampla."

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