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O acordo secular de elites trava o País

por Rui Daher publicado 18/12/2015 01h34, última modificação 18/12/2015 10h38
Com o passar dos séculos, ele se enraizou e se consolidou como natural, em equivocada interpretação de meritocracia
Avaaz
Protesto em Paris

Protesto em Paris antes da COP21: acordo não passou da página 32

Antes de discutirmos o momento do agronegócio no Brasil e os resultados alcançados na Conferência do Clima da ONU, finda na sexta-feira 11, em Paris, quero repetir o que mantenho farto em minhas parvas escritas: o acordo secular de elites que trava o desenvolvimento social da Federação de Corporações. Temo que os leitores o entendam como chatice, desalento ou falta de argumentos.

Peço, então, ajuda à jornalista Maria Clara R. M. do Prado, em artigo publicado no Valor (10/12/2015). Depois de citar percepções recentes de Joseph Stiglitz, Thomas Piketty e Luigi Zingales, sobre o aumento da concentração de renda no planeta, segundo ela, “consequência do estreito relacionamento dos grandes grupos econômicos com a classe política representada no Congresso e no Poder Executivo”, a autora chega ao Brasil. 

“Aqui, por defeito de fabricação nos primórdios da colonização, temos desde sempre [o destaque é meu] um país viciado em conluios e conchavos entre o poder econômico e a classe política, coniventes em seus interesses que confundem o público com o privado”.

Eis aí o que chamo acordo secular de elites. Talvez o mesmo que Mino Carta pense quando, em conversa com seus botões, separa o Brasil da casa-grande e o da senzala.

Não vejo qualquer possibilidade de mudança nessa dominação. Com o passar dos séculos, ela se enraizou de tal forma e se consolidou como algo natural, em equivocada interpretação de meritocracia.

Sigamos com o jogo. Sobre o agronegócio, se não puderem sair em andanças, acreditem muito pouco em alocuções de empresários do ramo, entidades, associações patronais e folhas e telas cotidianas. Quiserem previsões neutras, consultem Conab, IBGE, USDA, consultorias discretas, e tirem suas conclusões.

Entre agropecuaristas há um cacoete inato de se queixar dos malefícios que sempre existem, nem sempre fatais. Como empresários que são, gostam de repetir as aflições de colegas em setores menos afortunados. Acabam carpideiras dos maus bofes e números. Também, têm enorme dificuldade em perceber a extensão da área e a diversidade climática do país, acabando por generalizar situações locais.

Se é seu amigo e conta-lhe situação e perspectiva reais, você irá parabeniza-lo. Sobretudo, se ele soube racionalizar o uso de insumos. Se, no entanto, volta de uma palestra, almoço, onde ouve relatos de empresários que frequentam reuniões em federações corporativas, sugira a ele manter os dedos cruzados, que mandinga pega.

Sua plantação será arrasada pelo El Niño; o cafezal virará usina quebrada; a chicória fenecerá destruída por lagartas jurássicas que voam impunes diante da complacência de um “governo ambientalista e centralizador”.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), historicamente a mais representativa entidade do empresariado brasileiro, divulgou enquete que mostra apoio formal ao impeachment de Dilma Rousseff. A entidade não precisa ir à Avenida Paulista para se manifestar, ela ESTÁ na Avenida Paulista, por ironia, no número 1313, duplamente agressivo, embora adulado nos anos em que ganharam muito dinheiro.

Passemos à COP-21. Lembro coluna de 4 de dezembro quando tratei do papel da agropecuária nas mudanças climáticas. Misturei ceticismo, pelos resultados passados, e alento, pelo que as primeiras sessões indicavam.

Dissenções não tardariam a aparecer. A mais evidente e esperada: como coadunar os interesses dos países ricos e desenvolvidos com os dos emergentes e pobres?

Previ, ao final, um consenso e um acordo escrito: “sendo chato, acho que, desta vez, talvez o ofertório passe da página 9, mas não chegue à 32”. Creio não ter errado.

Consensos: o perigo é comum a todas as nações; os ricos participarão do esforço e deverão ajudar os pobres em suas metas; o aquecimento não deverá superar 2%, e meta de chegar a 1,5%.

Acordo escrito: apenas intenções. Onde o compromisso de financiar tais ações e a definição de um preço mundial para o carbono, com sanções e multas?

Os menos céticos confiam que o monitoramento constante e revisto a cada 5 anos será um bom começo. Algo assim vem sendo tentado nas últimas décadas, em vários piqueniques sobre o clima. Com resultados piores. No período, cresceram os índices de emissões de dióxido de carbono e seus estoques na atmosfera.

Para os países industrializados, dos consensos eternos, contemplar essas metas em seus planos econômicos anuais é dificílimo. Depois dos anos 1980, o capitalismo exacerbou um modelo de interesses conflitantes. Cada um na sua, aprofundando ainda mais a falta de cuidados sociais e ambientais.

Temo que o acordo obtido tenha, realmente, passado da página 9, mas nem mesmo tenha chegado à 32, como previ.

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