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Economia

Crescimento econômico

Navegando na contracorrente

por Luiz Antonio Cintra — publicado 29/01/2012 16h28, última modificação 06/06/2015 18h58
O mundo desacelera, mas o Brasil vai acelerar, diz Guido Mantega
Guido Mantega

irma o ministro. Foto: Sérgio Lima / FolhaPress

A despeito do mercado financeiro, o ministro Guido Mantega mantém a aposta em um crescimento de 4,5% neste ano. Na entrevista a seguir, ele menciona as variáveis que inclui em sua equação e reforça a necessidade de o País agir diante da “guerra cambial” em curso no planeta.

CartaCapital: O senhor tem anunciado que o País crescerá 4,5% neste ano. Como chegaremos lá?
Guido Mantega: Nós reunimos as condições. Em primeiro lugar, porque não somos tão suscetíveis aos problemas da economia mundial. Dependemos menos do mercado externo, temos uma exposição menor à Europa, e isso nos dá mais autonomia de voo, enquanto outros países, como a própria China, dependem muito do mercado externo. Esse é o primeiro ponto. Segundo ponto, temos um mercado interno sólido, que continua crescendo, em termos de vendas ao varejo, 8% ao ano. Nos últimos sete ou oito anos, estamos crescendo 7%, em média, e no ano passado, até o último número que tenho, chegamos a 7,7%. Então o nosso mercado continua em expansão. Terceiro ponto, estamos com um aumento do salário mínimo expressivo, de 14,3%, que vai injetar em torno de 50 bilhões de reais na economia. A massa salarial continua crescendo, tivemos, em 2011, um aumento do emprego de quase 2 milhões de trabalhadores com carteira assinada. Em quarto lugar, as amarras do crédito que tínhamos estabelecido em 2011 foram eliminadas. No ano passado, começamos puxando o freio, subindo os juros, com medidas prudenciais, compulsório, IOF para o crédito ao consumo, ou seja, puxamos vários freios para dar uma controlada na economia. E os freios funcionaram. Agora estamos na direção oposta. Desde agosto de 2011, o BC passou a reduzir a taxa de juros, amenizamos as medidas prudenciais, o IOF já começamos a baixar e, portanto, estamos em um ciclo de expansão do crédito, redução do custo financeiro...

CC: E os investimentos?

GM: Do ponto de vista da ação governamental, temos um grande programa de investimentos pela frente. O investimento será um dos propulsores desse crescimento em 2012, mesmo porque é bom crescer com investimento, pois ele dá um crescimento de qualidade. Em segundo lugar, porque o País precisa de mais infraestrutura, de logística etc. para impedir gargalos, reduzir custos, por isso temos um programa ambicioso, eu diria, de investimentos. Só no PAC são 42 bilhões que vão estar completamente liberados no orçamento de 2012. Temos o Minha Casa, Minha Vida, da Caixa Econômica, que vai ter uma injeção de mais de 40 bilhões de reais, ou seja, estará a pleno vapor. E vale lembrar que a segunda fase desse programa terá o dobro de recursos da primeira fase. E os ministérios estão preparados. Em 2011, houve mudança de governo e, apesar da continuidade, houve também mudanças de equipes, alguns problemas nos ministérios ligados à infraestrutura, e tudo isso já foi recuperado. Realmente, o investimento vai dar uma puxada neste ano. E não haverá nenhuma contenção nessa área, ao contrário. Além dos programas sociais, que continuam todos. E vamos dar continuidade à política de solidez fiscal, sempre reduzindo a dívida pública em relação ao PIB. Essa política fiscal, mais a queda da inflação que está ocorrendo, dará graus de liberdade ao BC, que divulgou uma ata hoje dizendo que o juro irá a um dígito. Ainda que com muito mais modéstia do que a política do Federal Reserve, que desta vez foi tão longe quanto podia.

CC: Em que sentido?
GM: Bem, a taxa de juros real nos EUA é negativa. A inflação hoje lá é de 3,5%, um título de dez anos da dívida norte-americana paga 2%. A taxa básica é de 0% a 0,25%, portanto, estão trabalhando com taxas reais negativas. E o Ben Bernanke já anunciou que vai ficar assim até 2014, ou seja, perto deles somos modestos. O Mario Draghi (presidente do Banco Central Europeu) também reduziu as taxas. No Reino Unido, também já estão praticando o Quantitative Easing. O Draghi, de certa forma, quando liberou esse crédito de 490 bilhões de euros aos bancos, também acabou soltando um crédito adicional. Então, o mundo inteiro está baixando a taxa de juros e, felizmente, nós reunimos condições aqui, com inflação em queda, com as commodities bem comportadas neste ano, ao menos é a previsão geral, também porque tiveram uma alta muito forte nos dois últimos anos. Então, ou estabiliza ou cai, ou seja, não haverá pressão inflacionária. Com a previsão de queda da atividade internacional, o mundo vai crescer menos em 2012, então isso também puxa para baixo. Assim, as pressões inflacionárias serão menores. Estamos caminhando para o centro da meta, o que abre espaço para que o BC possa dar continuidade à política de crédito que está fazendo. E os bancos públicos estarão presentes.

CC: E no caso da indústria?
GM: Vamos intensificar a defesa comercial. E só agora o aumento do IPI sobre os veículos importados vai mostrar seus efeitos, já que os estoques com tributo menor estão acabando, e vão passar aos carros nacionais. A indústria eletroeletrônica tem seus estímulos, assim como existem os estímulos para a linha branca. Outro ingrediente importante é o otimismo do brasileiro, que está confiante que 2012 será melhor do que 2011.

CC: Já tem entrado uma boa quantidade de dólares, com mais pressão sobre o -real. Isso é preocupante?
GM: A desvalorização do real que já houve, desde pelo menos julho do ano passado, como resultado das medidas tomadas, continuará. Não permitiremos a valorização do real, e o mercado já sabe disso. Temos instrumentos eficazes para atuar e vamos fazê-lo. E para a indústria é muito importante o câmbio porque, afinal de contas, a guerra cambial está pegando fogo. A medida do Bernanke vai nessa direção, é a “quantitativização” do Bernanke. Na fala do Obama, ele afirmou que criará um departamento de polícia de importações, impedindo as fraudes para defender o mercado norte-americano, ou seja, é guerra. O pessoal vai para a guerra, e nós também estamos nela. E vamos nos defender adequadamente, com um pouco mais de defesa comercial. Estamos entrando com um processo de salvaguardas para o setor têxtil, dentro das regras da OMC, evidentemente. E estamos examinando outros setores.