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Economia

Entrevista

Menos ortodoxia

por Gabriel Bonis publicado 06/03/2014 05h51, última modificação 07/03/2014 05h43
"A principal tendência da economia ensinada é justificar o status quo”, critica biógrafo de Keynes, Robert Skidelsky. Por Gabriel Bonis, de Londres
Reprodução
Robert Skidelsky

Biógrafo de Keynes, Robert Skidelsky defende a reforma do ensino de Economia

De Londres

Lorde Robert Skidelsky, professor emérito da Universidade de Warwick, encerra a entrevista com uma crítica certeira ao ensino da Economia nas universidades do Reino Unido. “A principal tendência da Economia ensinada no Reino Unido é apenas justificar o status quo.” Na grade curricular, diz, sobram modelos matemáticos e faltam história e política, para que os estudantes entendam como o mundo econômico se relaciona com outras áreas da sociedade.

Skidelsky não está sozinho nas críticas. É essa a queixa de um grupo de estudantes da Universidade de Manchester, defensores de uma virada curricular, visto que os modelos ensinados não os ajudaram a prever ou a entender a crise iniciada em 2008. Reunidos no grupo The Post-crash Economics Society (algo como A Sociedade Econômica Pós-crise), os alunos pedem um menor peso para os conceitos “neoclássicos” e mais espaço para as ideias tidas como heterodoxas ou dissidentes.

Profundo conhecedor da obra de John Maynard Keynes, Skidelsky escreveu três premiados volumes sobre a obra e a vida do economista britânico, um abrangente panorama contrário à liberdade irrestrita para a “mão invisível” do mercado. “Hoje Keynes defenderia que muitos dos nossos problemas aconteceram pelo fato de os formuladores de políticas terem adotado medidas errôneas. E o fazem devido ao que lhes foi ensinado.”

CartaCapital: Como Keynes veria o movimento dos estudantes de Manchester?

Robert Skidelsky: Ele estaria bem interessado, ficaria muito desapontado com o que tem acontecido no ensino da Economia e teria uma visão de como isso poderia ser mudado. Keynes defenderia que muitos dos nossos problemas atuais aconteceram porque os formuladores de políticas têm adotado medidas errôneas. E o fazem devido ao que lhes foi ensinado.

CC: A iniciativa pode ter efeitos práticos?

RS: Os estudantes precisam se organizar bem e rapidamente, pois a vida estudantil não dura muito. Precisam de um plano com o que desejam aprender, além de se unir a estudantes de Economia de todo o país. Os interessados possivelmente estão no segundo ano ou na pós-graduação. Há uma janela de oportunidade, espero que possam agarrá-la.

CC: A oportunidade surgiu por causa da crise de 2008?
RS: Sim, ela revelou outras coisas bem podres do sistema. A desigualdade de renda e a distribuição de riquezas estão ainda pior. Há uma distribuição desigual de recompensas, as massas de cidadãos são lançadas para empregos de baixos salários em serviços, nos quais trabalham muito sem a esperança de sair dali. Os cortes de gastos públicos atingiram fortemente muitos cidadãos, que querem saber o que a economia tem a dizer sobre tudo isso. Eles descobriam que muitos problemas reais e clementes nem de perto figuram na Economia ensinada nas faculdades.

CC: Por exemplo?

RS: Especialmente em relação a como os bancos faliram. Os estudantes não aprendem muito sobre como o sistema financeiro funciona. Mas as reformas necessárias e as mudanças na forma como a disciplina é ensinada não virão dos profissionais. É preciso haver pressão de fora, a partir das duas fontes de pressão existentes: dos consumidores do produto, os alunos, e a de professores dissidentes ou heterodoxos, não necessariamente de faculdades de Economia. Eles devem se unir para um plano de reforma real.

CC: Há um movimento nesse sentido?

RS: Quando fui ao Brasil, há três anos, eu trabalhava em uma reforma radical. Agora vamos republicar o projeto, desenvolvido no The Institute for New Economic Thinking, que o abandonou por achá-lo muito radical. Mas é uma plataforma que pode ser desenvolvida. Ali está a maioria das coisas que os estudantes deveriam pedir: mais história da Economia, mais informações sobre os grandes choques de ideias e menos modelos matemáticos. Mais sobre as finanças comportamentais, psicologia, antropologia, política e economia política, para mostrar as complicações práticas da economia, sem tratá-las como escolhas isentas de consequências políticas.

CC: Quais pontos foram considerados muito radicais?
RS:
Queríamos, por exemplo, fazer da História da Economia uma disciplina compulsória. E trazer o trabalho de grandes economistas para o debate, como Keynes, Hayek, Schumpeter e Christopher Freeman, nada que os estudantes ouviram falar, ao menos não na Inglaterra. E fazer o curso mais focado em tópicos de interesse e ver como a teoria se desenvolveria a partir dos exemplos. A principal tendência do que é ensinado no Reino Unido é apenas justificar o status quo.