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Feijão, o "vilão da inflação"

por Rui Daher publicado 01/07/2016 02h55
Condições estruturais e apoio ao maior segmento produtor garantiriam em caso de paulada. De quem falo? Da agricultura familiar
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Nos últimos seis anos (2010/11 a 2015/16), somadas as três safras, a área plantada com feijão caiu 24%

A grita contra o preço do feijão voltou a franzir os cenhos de William e Renata, no Jornal Nacional. O fato é cíclico e sempre será. Como em toda agropecuária.

Preocupa-me, no entanto, que os apresentadores possam antecipar suas rugas. Ô dó. Não? Ah, o departamento de jornalismo da Rede Globo gosta? Identificar um “vilão da inflação” justifica a alta dos juros e conquista bons patrocínios? O quê?! Quando isso acontece os casais Bernardes-Bonner e Vasconcellos-Athaíde são brindados com um jantar no Fasano Rio? Merecem. Afinal, não é fácil preocupar toda a população apenas com uma expressão facial.

O Phaseolus vulgaris é importante para o Brasil. Não só como alimento, mas por suas várias simbologias. Sozinho, mostra ganho de força, “ih, menino, você ainda precisa comer muito feijão para chegar até aqui”. Junto ao arroz, sintetiza segurança alimentar, “preciso trabalhar, se não como garantir o feijão e arroz dos bacuris”. Os ricos, mesmo quem dele abdique em seu cardápio trivial, quando encarece, tornam-se guardiões dos pobres, “bem feito, quem mandou votar nela, vai bater uma panelinha, vai, bem”.

Supimpa o feijão. Bonito, rico e gostoso, deveríamos entende-lo mais. Além do prazer culinário, enche-nos de proteínas, ferro, cálcio, complexo B, outras vitaminas, carboidratos e fibras. Dizem não engordar. Pode-se economizar em academias de ginástica.

Serve também ao bucolismo. Quem não pegou um punhado de seus grãos e ficou a enfileirá-los desenhando imagens de sua emoção? Ou, ao lado da mãe, na mesa da cozinha, não pousou a cabeça nos braços e aquietou-se observando a paciência dela separando os grãos bons dos que não iriam à panela? Experimentem sentir seu perfume no momento do “agora vou temperar o feijão”.

O Brasil, normalmente, é o 2º produtor mundial da leguminosa, atrás da Índia. Cultura de ciclo (plantio/colheita) curto, em torno de 90 dias, plantamos três safras anuais, em variedades e regiões diversas, com predominância dos grãos da variedade carioca (este ano, olímpico), preto (melhor, afrodescendente), guandu, caupi, corda, fradinho, e outros 40 mais.

Levantamentos da CONAB avaliam separadamente as três safras e três de suas classificações: carioca, preto e caupi (exclusivo do Nordeste). O IBGE simplifica, é feijão, e pronto.

Nos últimos seis anos (2010/11 a 2015/16), somadas as três safras, a área plantada com feijão caiu 24%, para 3,0 milhões de hectares; a produção 15%, de 3,7 para 3,2 milhões de toneladas; enquanto a produtividade (kg/ha) cresceu 12%.

Em termos regionais, o Centro-Sul responde por 66% do plantio, o Centro-Oeste, 13%, e o Nordeste, 21%.

A primeira safra, o “feijão das águas”, é plantado entre agosto e dezembro; a segunda, o “feijão da seca”, de janeiro a março; e a terceira, menor, plantio irrigado, entre abril e junho.

Visto assim do alto, era para faltar feijão no Brasil? Não, não era, mas o estamos importando a preços muito mais caros dos que, historicamente, pagamos a nossos produtores.

Vou mais longe, não tendo nevado durante meses nas regiões de plantio, nem mesmo os maus períodos climáticos são graves a ponto de justificarem escassez e preço estratosférico. Condições estruturais e bom planejamento e apoio ao maior segmento produtor, que fornece 70% do abastecimento, garantiriam qualquer maior paulada. De quem falo? Ora, da agricultura familiar, agora sem ministério.

Na última safra, que agora usam para justificar o problema, realmente houve problemas climáticos em algumas regiões, principalmente no Nordeste. A perda foi de 9% em relação ao ano anterior, ou 100 mil toneladas de produto. Praticamente toda ela se deu naquela região. Conjuntura pura e simples incapaz para tanto alarde.

No mais, a queda na área plantada, ainda mais que pouco amenizada pelo aumento da produtividade, pois em áreas de agricultura familiar, está se tornando estrutural.

Não está valendo a pena plantar feijão, prefere-se soja e milho. Ainda mais que 70% do abastecimento dessa cultura sai da agricultura familiar, menos produtiva, pouco apoiada tecnicamente, e sem garantia de comercialização.

Não é de hoje que a produção agrícola voltada aos alimentos de mercado interno tem sido relativizada a favor dos itens de exportação.

Apenas teve certa retomada na demanda, entre 2003 e 2013, período acentuado de inserção social por emprego, renda e programas sociais, que fizeram o perfil de consumo das famílias brasileiras apontar mudanças.

Os abaixo da linha de pobreza passaram a ter acesso aos feijão, arroz e farinhas. Os menos miseráveis, os compuseram com ração de maior valor, carnes, frutas e produtos industrializados.

Daí, nos últimos 15 anos, produção e preços de feijão se alternarem em etapas de baixas e altas e, frequentemente, servirem de “vilões da inflação”.

Nos últimos seis meses, segundo o Instituto de Economia Agrícola, houve 231% de variação de preço. Hoje, o produtor de feijão carioca está recebendo R$ 520,00 pela saca de 60 kg, e o do preto R$ 300,00. Respectivamente, R$ 8,67 e R$ 5,00 por quilo.

Vocês sabem o quanto estão pagando nos supermercados. 

 

 

 

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