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Economia

Paulo Daniel

Paulo Daniel

Além de economia

03.02.2012 09:48

Economia e política

Embora alguns sempre queiram exaltar o tecnicismo econômico, é sempre bom afirmar que a ciência econômica é uma ciência social, portanto, os modelinhos matemáticos e econométricos dificilmente explicarão ou entenderão a realidade na qual estamos inseridos que é apresentada de uma só vez em toda sua complexidade com suas múltiplas relações, determinações, reciprocidades e contradições.

O Estado moderno se particulariza como prática humana justamente pela dinâmica de dominação e de conservação da ordem social. Foto: Cícero R. C. Omena

O próprio Marx, em uma célebre passagem do prefácio à Para a crítica da Economia Política, afirma que “o modo de produção da vida material condiciona, em geral, o processo social, político e espiritual da vida”. Não se trata de afirmar que a economia é mais importante que a política, o direito, as artes etc. A esfera econômica, por si só, refere-se aos entes múltiplos e concretos da realidade predominantemente pela própria materialidade do ser social, que depende primariamente da produção e reprodução de suas condições materiais de existência, tanto em nível biológico como social.

O que pode caracterizar um ser social? A característica especial que distingue o ser humano de um ser meramente biológico é o trabalho, entendido como atividade orientada para uma finalidade previamente concebida e criadora de novas objetividades. A evolução do trabalho simples até a as formas mais complexas, é a base para o desenvolvimento do ser social, fazendo recuar constantemente as barreiras naturais. Acompanhando o crescente processo de socialização do ser, vários outros complexos e complexidades aparecem e se desenvolvem também para garantir sua reprodução material.

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Entre as mais diversas complexidades que surgem, estão a política e o Estado cujo objetivo é regular de modo sistemático as relações econômicas entre os seres humanos, que em última instância visa a escolher os meios adequados de organização da sociedade produtora.

A sistematização dessas atividades acaba por consolidar relações de dominação, que adquirem estabilidade e autonomia frente aos processos imediatamente produtivos. Centraliza-se o controle ao mesmo tempo em que uma parte dos membros da sociedade passa a responder politicamente pelas decisões de sobrevivência daquele sistema em nível geral. Os interesses do Estado se põem como interesses em si e para si, tornando-se valores objetivos, de validade social. Esses valores, que passam a fazer parte da reprodução social, interferem na vida dos sujeitos e são impostos à comunidade a despeito de sua vontade e consciência. Disso, naturalmente, podem surgir conflitos, que o Estado dirime usando a força ou por meios não diretamente violentos.

O Estado moderno se particulariza como prática humana justamente pela dinâmica de dominação e de conservação da ordem social, ou seja, a sociedade capitalista. Continuamente, para sua própria reprodução como elemento de garantia da dominação de classe, o Estado precisa se tornar autônomo da esfera da produção e reprodução imediatas. A política é o campo em que as diferentes forças sociais lutam pelo controle desse poder de autoridade sobre as leis, o aparto militar, o orçamento etc. Essa é a gênese da autonomia relativa do político e do Estado como esferas de valores e campos específicos de atuação.

Essa autonomia é necessária para o correto funcionamento do Estado como elemento de mediação da ação humana dentro do sistema que o engendrou, que ele ajuda a manter e com o qual estabelece uma relação orgânica de existência.

Portanto, não se pode dizer, por exemplo: “até aqui vai a economia e a partir daqui segue a politica”. Por outro lado, a realidade em si mesma não é uma caótica mistura de movimentos sem direção, mas sim, um processo evolutivo que pode possuir internamente tendências mais ou menos acentuadas.

Neste sentido, cabe ao cientista social, analisar a realidade e sua totalidade para descobrir as relações existentes entre os fenômenos de modo a poder explica-los e interferir de maneira apropriada sobre eles.

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Sua opinião

  1. João disse:
    Realmente, o autor tem razão: não vejo como separar economia e política. Até por isso não me causou estranheza não haver na sessão de economia da Carta Capital nem uma nota, sequer, sobre a privatização dos aeroportos feita pelo governo Dilma ontem. Pelo visto privatização ainda é assunto tabu para nossa esquerda...melhor nem tocar no assunto, ainda mais quando é feita por quem durante anos satanizou a palavra, não é mesmo, Carta Capital? Nada como um dia atrás do outro, hehehe...
  2. Rodrigo disse:
    Roberto, infelizmente você está mentindo. Os EUA passaram 06 anos de recessão aos fins da era Reagan (ou seja, se mantiveram em recessão, menos para os yuppies, tal como hoje - no financeiro) e com o Bush pai. E a crise de 87 não foi nem sobra da recente e nem da de 29. Infelizmente, no resto você diz uma meia verdade. Se o ser humano realmente é capaz de muita maldade, então realmente não deve acumular poder sobre os demais, incluindo o econômico. Você propõe deixar tudo livre para tubarões devorarem quem possa. Que pessoas possam dominar sobre as outras através da dependência e chantagem econômica, por terem mais capital. O Estado, com possibilidade de discussão pública sobre ele, não pode interferir. Não pode interferir na autoridade de um capitalista sobre quem não tem capital. Nem Adam Smith chegava perto de pregar tal plutocracia.
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