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Produção industrial

Economia ainda espera setor automobilístico deslanchar

por Gabriel Bonis publicado 03/07/2012 19h24, última modificação 06/06/2015 18h28
IBGE mostra queda recorde da produção mesmo com medidas de estímulo ao consumo para ativar demanda
carro

Crédito impulsiona venda de carros. Foto: Anderson Gores/AE

Apesar dos a economia brasileira segue em desaquecimento no primeiro trimestre de 2012. O quadro foi evidenciado nesta terça-feira 3 com a queda de 0,9% da produção industrial em maio na comparação com abril, descontadas as influências sazonais. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram a terceira queda consecutiva nesta comparação. O resultado é ainda pior na análise do mesmo período de 2011, quando o saldo negativo fica em 4,3%, o maior desde setembro de 2009 (-7,6%). Esse recuo em maio e nos 3,4% acumulados neste ano tem ligação com a forte queda no setor de alimentos e principalmente de veículos automotores, que caiu 18,1%.

Essa queda na indústria automobilística foi pressionada pelo decréscimo de cerca de 75% na produção dos produtos avaliados no setor, como chassis com motor e autopeças. Um resultado a indicar que os estímulos, como redução de IPI, ainda não reativaram a cadeia produtiva do setor automotivo, responsável por cerca de 20% do PIB.

Segundo Júlio Sergio Gomes de Almeida, doutor em economia e consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), isso ocorreu porque a crise e o aperto do crédito no ano passado aumentaram os estoques de veículos nos pátios das montadoras. Apenas nas últimas semanas, estes lotes estão sendo vendidos. “A partir de julho ou agosto, espera-se a reativação plena da cadeia de produção”, diz. “Há um problema conjuntural associado à queda da demanda, mesmo que as vendas se recuperem haverá um ajuste que não reverte na produção”, explica Antônio Correa de Lacerda, doutor em Ciências Econômicas e professor da PUC-SP.

Mesmo com as dificuldades de 2011, a indústria automobilística brasileira teve lucros elevados e recorde de dividendos enviados ao exterior. Segundo o Banco Central, as empresas do setor enviaram a suas matrizes 5,58 bilhões de dólares, 36,1% mais que em 2010. A quantia foi maior que a de bancos 3,15 bilhões de dólares e empresas de telecomuinicações (2,44 bilhões de dólares).

A queda da produção industrial foi vista como extremamente negativa pelo mercado. É um indicativo de que a situação ainda pode piorar. “O problema industrial já se alastrou para outros setores”, aponta Almeida.

Em 2011, a área não cresceu e agora caiu quase 3,5%. “Esse baixo desempenho já afetou os serviços, pois se a indústria cresce menos, compra menos serviço e investe menos. Também dispensa trabalhadores e corta salários. Esses empregados consomem menos e afetam outros setores.” Lacerda completa que parte deste resultado se deve à perda de competitividade nos últimos anos. A indústria deve, porém, se beneficiar no segundo semestre com a esperada melhora do câmbio, a redução dos juros, desoneração da folha de pagamento e o estímulo ao consumo.

As medidas adotadas nos últimos meses pelo governo devem impulsionar a economia nos próximos meses. Almeida estima que o crescimento do PIB e da indústria deve ficar em 2% em 2012. O mercado, por meio do Boletim Focus, aposta em 2,18%. “As vendas de automóveis aumentaram e a produção deve se elevar a partir de agora. O mesmo vale para os eletrodomésticos", ressalta Almeida. Mas, segundo o consultor do IEDI, a alta não foi expressiva o bastante, o que sugere uma eficácia menor do incentivo ao consumo. Lacerda prefere, no entanto, destacar que, para o PIB chegar a 2%, a economia terá de crescer na casa dos 4% nos últimos trimestres do ano. “Isso traria um cenário muito melhor para 2013, porque o ano começa com as medidas funcionando.”

As melhoras dependem do aquecimento do mercado consumidor. As taxas de inadimplência de pessoas físicas e empresas chegaram ao recorde de 6% em maio e o endividamento é visto como um limitador do consumo, aposta do governo para ativar a economia. A presidenta Dilma Rousseff negou, no início de junho, que houvesse um elevado nível de endividamento das famílias brasileiras na comparação com padrões internacionais. Uma opinião apoiada pelo professor da PUC-SP. Lacerda defende que o índice de inadimplência é recorde, mas ainda muito baixo. “Os juros caíram na base e também para o tomador final e isso terá algum impacto positivo na renegociação de dívidas, financiamentos e novas compras.”

Para Almeida, os investimentos seriam o melhor caminho para garantir crescimento ao país. Nesta perspectiva, o governo teria melhores panoramas se estimulasse investimentos por meio de empresa estatais e no setor privado. “A redução em 0,5% dos juros de empréstimos do BNDES é um estímulo ao empresário, embora pequeno. Seria necessário também fornecer um incentivo tributário por certo período ao empresário que for investir”, ressalta. É o mesmo que acredita o economista Roberto Messenberg, coordenador do Grupo de Análise e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (GAP/Ipea). Messenberg defende a necessidade de expansão do investimento público, que tem um momento favorável. “Na situação atual, você não tem escassez de capital, não tem nenhum perigo de a dívida pública entrar em uma trajetória explosiva, não tem problema de excesso de demanda na economia. Todos os fatores que poderiam ser citados para reprovar uma atuação mais forte do setor público na economia caem por terra”.

Lacerda destaca, porém, a possibilidade de incentivar consumo e investimento como medidas complementares. “O estímulo ao consumo move o investimento, porque aumenta a demanda. Desde que o governo atue também para aumentar a competitividade da indústria e evitar que a demanda vá para produtos importados é válido. É preciso ativar o mercado garantir um cambio competitivo, juros baixos, financiamento etc.”

Com informações Agência Brasil.