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Dúvidas e desesperança

por João Sicsú publicado 09/01/2015 05h44, última modificação 10/06/2015 19h10
O início do segundo governo Dilma indica que o pragmatismo de governabilidade venceu os sonhos e a história do PT. Por João Sicsú
Roberto Stuckert Filho / PR
Dilma Rousseff e Joaquim Levy

Joaquim Levy é empossado por Dilma Rousseff em 1 de janeiro. O pragmatismo venceu

Não passaram apenas 12 semanas. Não passaram apenas 12 meses. São 12 anos de governos do PT e de seus aliados. No imaginário do povo brasileiro, que tem pressa, uma dúzia de anos é muito tempo. Não é o início de um projeto, mas sua consolidação. Esses 12 anos não foram um período homogêneo em termos de resultados, de ideias e de políticas adotadas. Houve ziguezague.

Um balanço minucioso do período 2003-2014 ainda precisa ser elaborado. Mas, grosso modo, houve três fases. Na primeira, as ideias fervilhavam. Era um governo que acertava e errava. Aliás, errava mais do que acertava, mas havia muito debate. Era um governo vivo de ideias. Havia debate nas universidades, na mídia, nos movimentos sociais, na internet e no interior do próprio governo.

A equipe econômica, constituída em 2003, por Antônio Palocci e Henrique Meirelles, provocou um desconforto histórico. O PT, um partido que foi construído nas lutas por melhores salários e mais empregos, nos genuínos movimentos sociais e com forte influência de uma esquerda que pregava justiça social, nomeou uma equipe econômica que defendia ideias opostas à sua história.

Em nome da governabilidade e de muitos outros argumentos chamados de técnicos tais como “não se pode dar cavalo de pau em transatlântico”, fez-se uma opção definitiva de continuidade do modelo econômico do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999-2002).

Estranhada por muitos, essa tinha sido uma opção definitiva, sem volta. Foi uma opção estranha para economistas desenvolvimentistas e de esquerda, mas foi uma opção confortável e comemorada pelos petistas pragmáticos. Havia um argumento simplório que confortava a militância petista: “deixa a política econômica com eles e a política social com a gente”. Erro crasso: políticas sociais necessitam de financiamento cuja fonte está no modelo econômico.

A primeira fase obteve resultados pífios ou medíocres. Tudo muito semelhante ao segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Basta comparar os números e perceber que as melhoras foram imperceptíveis. E assim a história seguiria o seu rumo... sem solavancos e com uma oposição enfraquecida já que o governo havia roubado alguns de seus quadros e todas as suas ideias econômicas.

Faltou combinar com a vida real... resultados irrelevantes, ataques bem sucedidos da grande mídia tendo como mote a corrupção no interior do governo, queda do ministro Palocci provocada por denúncias de um caseiro, a crise americana/mundial de 2007-2009 e a intensificação do debate de ideias, fizeram o PT se reencontrar com a sua história e seus sonhos dos anos 1980 e 90.

Teve início a segunda fase. A oposição foi saindo do Ministério da Fazenda e voltando para a oposição. Saiu de outros órgãos do governo também. Meirelles continuou à frente do Banco Central, mas a sua diretoria foi mudando: quem era do mercado financeiro voltou aos seus empregos de origem. O modelo do período FHC foi modificado sem “cavalo de pau”. Houve algum tipo de controle do movimento de capitais internacionais especulativos. Os bancos públicos honraram o rótulo que possuem. A Petrobras fazia descobertas inusitadas. O governo elevou o seu patamar de investimentos, uma política fiscal anticíclica foi organizada e houve início de uma restruturação que objetivava justiça tributária. Importantes programas sociais foram lançados ou aprofundados. Os resultados obtidos foram extraordinários. José Alencar, o vice-presidente da República, e o presidente Lula se consolidaram.

O ano de 2011 é um marco. Tem início a terceira fase. O debate morre, na mídia e no governo. Grandes quadros progressistas ou de esquerda, aos poucos, saem de cena. Os movimentos sociais estão adormecidos. As políticas de Palocci e Meirelles voltam com força total: juros subiram, superávit primário foi elevado, houve contenção do crédito e o câmbio flutuou livremente para baixo. Os resultados se tornam pífios a partir de então. O único bom resultado que é o desemprego deixa de ser explicado pelo vigor econômico e é mantido graças a fatores demográficos e políticas sociais específicas.

Após 12 anos, representantes diretos dos banqueiros assumem a direção do Ministério da Fazenda e dão o tom da política econômica. Os juros sobem novamente. Metas de superávit primário são fixadas independentemente dos ciclos. Representantes de latifundiários e do agronegócio ganham espaço. E, em nome da moralização, direitos sociais estão ameaçados.

A guinada de 2011, que se torna mais nítida em 2015, parece ter sido mais uma jogada política pragmática de consolidação do modelo iniciado em 2003 que foi interrompido em 2006-7. A opção de 2003 retornou apenas com suas políticas em 2011. Em 2015, retorna com as políticas e com representantes legítimos da oposição ligados ao sistema financeiro. A opção feita na Carta aos Brasileiros de 2002-3 parece estar se consolidando. O pragmatismo político de governabilidade do PT parece ter vencido os sonhos e a história do PT.

Com muitas dúvidas e certa desesperança nesse governo encerro essa breve reflexão.