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Economia

Crise Econômica

Desempregados ou com renda menor, 60 milhões não pagam suas prestações

por Carlos Drummond publicado 20/04/2016 04h05
Obrigados a gastar seus rendimentos em alimentos e outros bens básicos, trabalhadores de baixa renda atrasam o pagamento das contas para sobreviver
Agência Brasil
Desemprego

Na indústria foram fechadas no primeiro trimestre 31 mil vagas só em São Paulo

Na base da crise política e uma das causas do seu agravamento, a recessão iniciada em 2015 provocou, em março, o atraso médio de 60 dias no pagamento das contas de 41% da população com mais de 18 anos. São 60 milhões de indivíduos, 80% deles com renda de até dois salários mínimos, calcula a Serasa Experian. As dívidas não honradas somam 256 bilhões de reais.

O primeiro trimestre foi o pior para o comércio desde 2000, com queda do consumo em 8,5% na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a empresa. Os pedidos de recuperação judicial de empresas superaram em 114,1% o total registrado nos primeiros três meses do ano passado.

O total de inadimplentes é o maior desde 2012. No primeiro trimestre, mais de dois milhões entraram na lista de devedores. No grupo das pessoas agora com o nome “sujo”, impedidas de comprar a crédito no comércio, só 3,3 milhões ganham mais de 10 salários mínimos, ou 8,8 mil reais por mês.

Há 2,94 milhões com renda entre cinco e 10 salários mínimos (4,4 a 8,8 mil reais) e 7 milhões recebem entre dois e cinco salários (1,76 a 4,4 mil). O maior grupo de prejudicados é a parcela de menor renda. São 24,24 milhões com proventos na faixa de um a dois salários mínimos (880 a 1,76 mil reais) e 22,56 milhões com rendimentos abaixo de um salário mínimo.

Os trabalhadores de renda mais baixa, obrigados a gastar a totalidade dos rendimentos em alimentos e outros bens básicos, não conseguem economizar e quando perdem o emprego, atrasam o pagamento das contas para sobreviver.  

Água e energia, as principais contas em atraso

A Serasa Experian é o maior banco de informações de crédito ao consumidor no País e os dados sobre a pontualidade do pagamento das prestações são fornecidos pelas empresas comerciais clientes.

O Serviço de Proteção ao Crédito e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas fazem seu levantamento sobre inadimplência, com base nos números coletados pelo SPC e outros órgãos semelhantes.

O resultado de março aponta 58,7 milhões de indivíduos em atraso, na maior parte relativos a contas de água e energia elétrica e dívidas bancárias, as primeiras em consequência do “tarifaço” do governo, que decidiu compensar de uma só vez a contenção dos preços dos serviços públicos praticada nos últimos anos.

O desemprego e a queda do rendimento são os principais motivos do adiamento da quitação de parcelas de dívidas. O acompanhamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostra um aumento da taxa de desemprego, de 6,8% para 9,5% entre outubro de 2015 e janeiro deste ano.

A população desocupada cresceu 42% entre outubro de 2014 e o mesmo mês do ano passado, para 9,6 milhões de trabalhadores. O rendimento médio real caiu 2,4% entre janeiro de 2015 e o mesmo mês deste ano, de 1.988 reais para 1.939 reais.

O custo de vida sobe mais em despesas pessoais e alimentação

Na indústria, setor com os maiores salários e impacto mais significativo na massa de rendimentos, foram fechadas no primeiro trimestre 31 mil vagas só em São Paulo, segundo pesquisa da Federação das Indústrias do estado. Entre 20 segmentos pesquisados, 14 registraram queda no nível de emprego.

Sem emprego ou com rendimentos em declínio, qualquer elevação de preços de bens de consumo obrigatório significa sacrifícios adicionais. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, de São Paulo, o custo de vida aumentou 0,44% em março deste ano na capital do estado, em comparação ao mês anterior. As maiores altas ocorreram nos grupos de despesas pessoais, com variação de 4,13%, alimentação (1,03%) e transporte (0,43%).

Deter a recessão, o desemprego e a redução da renda será um dos principais desafios na condução da economia, qualquer que seja o desfecho da crise política.