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Da China ao Brasil, as crises magnificadas ou anunciadas

por Rui Daher publicado 11/03/2016 02h22
Um dos países mais estudados no planeta, China deixa a impressão de ser cada vez menos entendida quando vistos só os índices econômicos
Bolsa de Valores na China

Não faz um mês, anunciado o crescimento de 6,9% para o PIB chinês, em 2015, que céus e bolsas mundiais caíram

Crises quando magnificadas ou insistentemente anunciadas vêm como pragas egípcias. Folhas, telas cotidianas e economistas por elas ouvidos foram informados que é disto que o povo gosta.

Em certos setores da economia até entendo. O mau e velho jogo de comprar na baixa e vender na alta é excitante. Apostar em cavalos e cassinos também. Servem àqueles da nota só: aumentar os juros e cortar custos desempregando trabalhadores. 

China

Desde 1978, com mudanças econômicas promovidas por Deng Xiaoping, a China cresceu em taxas aceleradas, acima dos dois dígitos. Em alguns anos passou de 15%.  Entre 2004 e 2011, a economia hegemônica já no bambeio, o crescimento real do PIB chinês foi, em média, de 10% ao ano.

Analistas começaram a dizer que tal evolução não era saudável e poderia levar a economia chinesa ao desastre. O Partido Comunista Chinês (PCC) concordou e começou a tomar medidas para o pouso.

Passou-se, então, a discutir se ele seria suave ou forçado, algo como as penas de um cisne e um lutador de sumô. De 2012 a 2014, desacelerou para o alvo indicado, média de 7,5% ao ano, fim da era dois dígitos.

Não faz um mês, anunciado o crescimento de 6,9% para o PIB chinês, em 2015, economistas-demônios soltaram o clássico: “O Menor Crescimento em 25 Anos”. Céus e bolsas mundiais caíram. A manada focou uma só direção e estropiou as cercas da economia no planeta.

Os mais idosos lembrarão de um centroavante de Corinthians, Santos e América do México, o Zague. Muito rápido, sua característica era baixar a cabeça e disparar com a bola. Não confirmo, mas há quem diga que, em certo jogo, sem perceber, não parou, atravessou a linha de fundo, e varou o alambrado do Pacaembu. É como fluem as análises econômicas no Brasil.

Querem ver? Em pouco mais de um mês, vocês brincaram o Carnaval e aprenderam o que é condução coercitiva e tiro-no-pé, certo?

Vamos ao The Wall Street Journal, 07 de março: “Commodities dão impulso a uma nova alta nos mercados emergentes”.  Mais: “China deixa de lado reforma e opta por PIB”.

Notícias boas para países desgraçadamente exportadores de commodities, em especial agrícolas, bem em todos os cantos do Brasil. Etanol e boi? Sim, basta a lupa: o primeiro foi prejudicado pela política do governo e uma larica de açúcar; o segundo queixa-se do custo dos insumos dolarizados, embora em fevereiro tenha exportado 14% a mais do que em 2015. Em dólares.

Embora, hoje em dia, a China seja um dos países mais estudados no planeta, deixa a impressão de ser cada vez menos entendida, sobretudo quando vistos apenas aspectos e índices econométricos.

Pensem no maior navio do mundo já construído, o “Prelude”. Flutua com gás natural liquefeito da Shell. Seu casco tem comprimento maior do que a altura do Empire State Building (NYC).

Caso ele precise mudar o sentido de sua viagem levará algum tempo, certo? Mais: e se a decisão só for tomada depois de uma assembleia de tripulantes? Provável estar encalhado no Piscinão de Ramos.

Dá-se o mesmo com a economia chinesa. É paquidérmica, mas como o “Prelude” sua transição é demorada, tem comando centralizado e não ouve ninguém.

Palhinha: A ChemChina iniciará, em 23 de março, a oferta pública para aquisição da totalidade das ações da Syngenta. Nem tão paquidérmica assim.

Brasil

Em artigo para o Jornal GGN, de Luís Nassif, escrevi o seguinte: “Entre 2002, último ano do governo FHC, e 2010, final do mandato de Lula, o PIB nominal brasileiro cresceu a uma taxa de 4,23% ao ano. Foi de R$ 1,491 trilhão para R$ 3,887 trilhões, um aumento de 160%. Nos três anos seguintes, com Dilma Rousseff, chegou a R$ 5,316 trilhões, quando desacelerou e entrou em crise”.

Não menti. São números reais, apenas não admitidos pelos editores das Organizações Globo. Outras publicações, também rasteiras, seguem a mesma cartilha. Em vão. Influem aos já influenciados e são inermes a quem pensa.

Assim como reconheço vários equívocos na política econômica praticada no primeiro governo Dilma, alerto que o planeta vive uma crise de crescimento desprovida de horizonte palpável e que a comparação da debacle brasileira atual se faz com os extraordinários índices atingidos até 2012.

Por que, então, o desespero? Acertem aí a carroça. Tivemos uma eleição.

Agro

Lembram-se de quando íamos nos ferrar por que a China iria importar menos soja do Brasil? Hoje: “A China aumenta as importações de soja e o Brasil é o país mais favorecido”.

“Milho safrinha? Ninguém vai plantar”. Hoje: “Demanda explode e faz preço disparar”.

Recessão em 2015, né? Sem dúvida (-3,8%). Deve ter sido culpa da agropecuária que só cresceu 1,8%. Atenção campesinos, caboclos, sertanejos e ruralistas, vamos trabalhar mais. As instituições financeiras precisam de vocês!