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Contrastes europeus

por Paulo Daniel — publicado 02/03/2012 09h28, última modificação 02/03/2012 09h28
Um dos principais pontos dos efeitos da crise são o desemprego e a precarização da mão de obra
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Militantes protestam contra medidas dos governos diante da crise. Foto: Pascal Guyot/AFP

Muito se fala que da crise europeia, mas poucos meios de comunicação tomam o devido cuidado em tentar esmiuçar um dos principais pontos dos efeitos da crise, o desemprego e a precarização da mão de obra, que atingiu o seu clímax em 2008.

Neste sentido, a Organização Internacional do Trabalho elaborou um livro intitulado “Desigualdades no trabalho durante a crise. Testemunhos da Europa”, na qual relata que as desigualdades no local de trabalho aumentaram de maneira considerável em toda a Europa como consequência da crise econômica mundial e continuarão aumentando na medida em que mais países introduzam medidas de austeridade e reformas laborais. O livro inclui dados provenientes de 30 países e 14 estudos nacionais realizados por destacados especialistas europeus.

O livro examina, por exemplo, como os países que dependeram de ajustes de flexibilidade externa, como a Espanha, tiveram graves dificuldades no âmbito laboral. Além disso, destaca um aspecto da crise pouco documentado até agora: seus efeitos macroeconômicos, no âmbito das empresas, sobre diferentes categorias de trabalhadores e nos âmbitos de trabalho que os afetam diretamente.

Pode-se também observar que em alguns países, como Bulgária, Hungria e Reino Unido, aumentaram as diferenças salariais entre os trabalhadores na base e no topo da escala salarial.

Os trabalhadores com contratos temporários foram fortemente afetados pelas demissões e foram utilizados como uma espécie de “amortecedores de emprego”, como mostra o exemplo da Espanha, onde 90% dos postos de trabalho perdidos eram de trabalhadores temporários.

No que diz respeito ao desemprego, na maioria dos países europeus, as taxas de desemprego juvenil são aproximadamente o dobro das taxas dos trabalhadores adultos, com incrementos mais pronunciados na Estônia, Lituânia e Letônia, assim como na Espanha, Irlanda e Grécia.

Os trabalhadores pouco qualificados foram particularmente afetados pela crise conforme as empresas manufatureiras começaram a despedir parte de seu pessoal. Apesar de os homens inicialmente terem sido mais afetados pela crise do que as mulheres (6% nos Estados bálticos, Irlanda e Espanha), as práticas discriminatórias contra as mulheres agravaram-se ao longo dos últimos anos. As mulheres empregadas nos setores onde predomina a mão de obra masculina foram as primeiras a serem despedidas ou em ter maiores cortes salariais.

Além do que, as novas reformas laborais adotadas em 2012 com o objetivo de estimular a competitividade, como por exemplo, o congelamento do salário mínimo e os cortes na proteção social na Espanha; a decisão de multiplicar os mecanismos de tempo parcial na França; e uma moderação adicional dos salários e o incremento dos empregos de baixa remuneração na Alemanha e outros países, podem acarretar, como consequência direta, o aumento das desigualdades no mundo do trabalho e na sociedade europeia.

Em um contraste vivido pelos trabalhadores europeus, os altos executivos dos principais bancos da Europa, mesmo com a crise e a recessão mais do que anunciada, mantém suas remunerações e bônus elevados.

Por exemplo, O HSBC teve uma queda de 1,2 bilhão de dólares (cerca de 2 bilhões de reais) no seu lucro antes dos impostos em 2011, e o homem que comanda essa instituição financeira, Stuart Gulliver, ganhou um bônus de 5,9 milhões de libras esterlinas pelo seu trabalho (R$ 16 milhões), conforme noticiou o jornal britânico “Financial Times“. E, é importante destacar, apenas 192 pessoas no banco ganham 1 milhão de libras/ano e somente cinco compartilharam 27 milhões de libras/ano.

Não nos esqueçamos: na crise de 2008, muitos profissionais do setor financeiro foram alvo de protestos nos Estados Unidos e em várias partes do planeta, por receberem grandes quantias de dinheiro mesmo quando as companhias em que trabalhavam apresentavam resultados medíocres ou mesmo catastrófico.

Resta saber se as autoridades executivas e os agentes econômicos pretendem colocar no centro de suas agendas, a luta contra as desigualdades e, ao mesmo tempo, desenvolverem um conjunto de políticas que enfrentem as mazelas sociais e do mundo do trabalho. Infelizmente, até o momento, não é isso o que está sendo executado, portanto, não há outra história a ser construída para a maioria dos europeus, se não, a recessão.