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Cenas de um velho filme

por Rui Daher publicado 17/05/2013 11h00, última modificação 17/05/2013 11h13
Depois de colhida a safra de grãos, o cenário de caminhões trilhando estradas esburacadas até formarem longas filas nos portos brasileiros sairá de cartaz
Lucas Baptista/Futura Press/Estadão Conteúdo
Fila nos Portos

A fila nas estradas para os terminais portuários brasileiros ainda é comum

Foi preciso que folhas e telas cotidianas mostrassem longas filas de caminhões esperando para embarcar grãos nos portos do País para que muitos analistas saíssem esbravejando a respeito da infraestrutura brasileira, precária e prejudicial à competitividade da agropecuária.

Sabemos que não fosse isso, até aqui sempre visto como obrigação exclusiva do Estado, e estaríamos ganhando de lavada a Copa do Mundo dos produtores e exportadores de commodities.

Esquecem-se de que, nos últimos 40 anos, o Brasil passou quebrado pelo menos duas décadas, de joelhos diante da banca mundial, fazendo a lição de casa imposta pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que nos enviava grave senhora em tailleur e pasta executiva para dar-nos a nota. Nos dois sentidos.

Poucos também se lembram dos métodos e ritmo com que se avançou sobre as fronteiras agrícolas após a década de 1970, incompatível com a construção de infraestrutura adequada. Enquanto a primeira percorria o palco a passos de Mick Jagger, a velha senhora sentava-se no banquinho com seu violão.

Hoje, bem fornidos de clientes e espaço na mídia, os queixosos deixam de lado o fato de que se o País não pôde tratar com dignidade a maior parte de sua população naquilo que seria básico para a sobrevivência, nem mesmo com um equivocadamente criticado assistencialismo. Onde arrumaria recursos para construir portos, estradas, ferrovias, aeroportos e hidrelétricas?

Indo mais atrás, para evitar autoflagelo, não se deve comparar nossa matriz de transportes com as de nossos concorrentes. Lembram-se nos filmes de mocinho e bandido daqueles milhares de trabalhadores abrindo ferrovias e dos barcos a vapor com rodas de pás subindo e descendo o Mississipi? Pois é, nós optamos por malhas rodoviárias, e pior, tímidas.

E não pensemos que, depois de alguns anos de alívio soprado por ventos asiáticos, agora estamos com a bola toda para investir em infraestrutura. O plano de concessões na área de transporte, 200 bilhões de reais anunciados pelo governo para serem gastos em 20 anos, parece pouco para o próprio governo. A EPL, Empresa Brasileira de Planejamento e Logística, criada em 2012, pensa que seria necessário ao menos o dobro.

Ainda mais quando interesses privados e congressistas, tão poupados em suas identidades, se chocam, como no caso da MP dos Portos.

Assim, tão cedo, tá mais fácil o ‘Ibra’ vir jogar no Corinthians do que a ‘Infra’ nos tornar competitivos. Três décadas para atingirmos a razoabilidade, diria o professor Tite.

Mesmo porque novas fronteiras agrícolas estão sendo abertas nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia a passos de um Jagger 40 anos mais jovem, enquanto nossos projetos parecem mais focados nos eventos esportivos que vêm por aí.

É claro que em situações dramáticas, como a atual dos transportes, alguém sempre ganha. Segundo o ILOS, Instituto de Logística e Supply Chain (?!), em doze anos, o faturamento das 140 maiores empresas do setor saiu de 3,0 para 48,0 bilhões de reais. Essa grana só pode ter sido incorporada à nossa não competitividade, pois não.

Como dois terços da movimentação de cargas no Brasil são realizados por caminhões, vê-se que as boas e velhas transportadoras mereceram mudar suas razões sociais para chiques operadoras de logística. Serão?

Na dura, a conversa é a seguinte: os preços dos fretes rodoviários dobraram em três anos. Teriam os combustíveis, pneus, peças e mão de obra crescido na mesma proporção?

Não fiquem impressionados. Depois de colhida a safra de grãos, o cenário de caminhões trilhando estradas esburacadas até formarem longas filas nos portos brasileiros sairá de cartaz.

Voltarão na próxima colheita. Depois que as imagens dos deslizamentos de morros no sul e sudeste e da seca no nordeste deixarem as folhas e telas.

Tudo tão comum, anual, nem mesmo bissexto.