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Brasil na crise

Bancos brasileiros aumentam captação no exterior em 2012

Neste ano, captação de companhias instaladas no país foi de 15 bilhões. Mas, segundo especialista, procedimento é arriscado em um cenário instável
por Clara Roman — publicado 24/02/2012 09:48, última modificação 24/02/2012 09:48
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Depois de um segundo semestre desfavorável para a captação no mercado externo em 2011, por conta do agravamento da crise internacional, instituições brasileiras aproveitam, neste início de ano, a janela de liquidez nos mercados desenvolvidos - que ocorre em razão dos problemas de crédito dos países europeus.

O relatório do Banco Central divulgado na quinta-feira 23 mostrou que o segmento financeiro impulsionou a entrada de dólares no país neste mês, que superou as saídas em  6,52 bilhões de dólares. Em 2012, o Brasil já captou 15 bilhões de dólares em títulos de companhias instaladas no Brasil.

Daniela Prates, pesquisadora do Instituto de Economia da Unicamp, aponta que a nova linha de crédito do Banco Central Europeu, aliada com a manutenção da taxa de juros básicos nos Estados Unidos, criou uma oportunidade para os bancos privados brasileiros.

O Bradesco BBI, por exemplo, participou de uma captação global da montadora Ford. Além disso, segundo a Reuters, o banco, por meio de sua unidade nas Ilhas Cayman, iniciou operação para captação externa de 500 milhões de dólares nesta quinta-feira 23, com bônus de 10 anos.  O Itaú BBA faz parte de consórcio para a venda de títulos de seis anos da Edesa, companhia de energia argentina.

 O cenário internacional, no entanto, ainda é muito volátil. O pacote que salvaria a Grécia do calote, segundo Prates, não resolve a situação. Além disso, nada impede que outros países europeus entrem em colapso. Ao que tudo indica, Portugal é a bola da vez. “A gente não sabe quanto tempo essa situação [de liquidez] vai durar. O endividamento externo traz vulnerabilidade”, diz.

Em uma situação de desvalorização do real, dívidas em moeda estrangeira deixam a situação difícil para os devedores privados. O procedimento é arriscado e pode prejudicar os investidores dessas instituições – ou resultar em um novo processo de socialização das perdas, como ocorreu na crise de 2008, depois da quebra do Lehman-Brothers, quando o BC teve de criar estratégias para aumentar a liquidez por meio das reservasem dólares.

Segundo relatório desta quinta-feira, as reservas internacionais atingiram 355,1 bilhões de dólares no primeiro mês de 2012. Com isso, o Brasil teria liquidez suficiente para evitar o contágio da crise. “A gente tem um colchão de segurança, mas ele é público. Crescer muito o endividamento não é nunca bom”, aponta Prates.

Em relação ao mesmo período do ano passado, a América Latina teve um aumento de cerca de 41% nas captações de bônus em moeda estrangeira: até 10 de fevereiro de 2012, 24,2 bilhões tinham sido captados, ante 14,28 bi do ano passado. Nesse cenário, o Brasil tem um papel de destaque, responsável por 15 bilhões do valor total. “São vários motivos: o diferencial de juros, além de casas financeiras mais desenvolvidas, e o crescimento rápido depois da crise. O Brasil é visto como destino privilegiado do capital estrangeiro e nesse início de ano acontece a mesma coisa”, explica a especialista. Ao lado do Brasil, o México tem sido um destino atraente, seguido do Peru.

Prates questiona como os bancos estão fazendo a proteção desse endividamento externo. “Como tem critérios de prudência, tem que fazer hedge [cobertura de finanças] dessas operações, mas não de 100%.O risco cambial está sendo só transferido”, comenta. Assim, se o governo não salvar, o risco passa para os investidores.

“É um comportamento típico [dos bancos], pro-cíclico: quando a situação é favorável, aproveitam para expandir empréstimo”, explica. Mas o procedimento é arriscado em meio a um cenário conturbado.  “Se não tiver outro evento adverso [como o aprofundamento da crise do crédito grego, no ano passado], a gente vai ter um semestre de abundância de capital, os bancos vão aproveitar e a gente vai ter um crescimento da dívida externa”, conclui.

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