Você está aqui: Página Inicial / Economia / Agrotóxicos e maniqueísmo

Economia

Opinião

Agrotóxicos e maniqueísmo

por Rui Daher publicado 23/08/2016 04h48
A alternativa ao uso excessivo de fertilizantes não é um cultivo estritamente orgânico, mas manejos integrados
Paulo Filgueiras / GERJ
Agricultura

Na coluna anterior, critiquei o excessivo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos na agricultura brasileira. Para tal citei os estudos do professor Jules Pretty, da Universidade de Essex, no Reino Unido, provando manutenção da produtividade mesmo após redução na aplicação de agroquímicos.

Já esperava de onde e como viriam as críticas. Escrevi várias vezes sobre o tema e as críticas sempre mostravam desconhecimento e incredulidade. Ainda que tais experimentos também ocorram no Brasil, sua aceitação pelo setor agrícola é pequena.

Primeiramente, fora ... temer esclarecê-los. Para evitar as réplicas de sempre, nunca menciono tratos estritamente orgânicos. Reconheço-os ideais, úteis e eficientes, mas para atender mercados restritos, pois difíceis de cumprir os volumes de produção necessários à segurança alimentar no planeta.

O que defendo, porque comprovo-os positivos diariamente, são os manejos integrados, combinados, nos quais são aplicadas doses menores de agroquímicos, potencializados por maiores quantidades de materiais orgânicos e minerais, que propiciam condicionamentos positivos na biota do solo e altas vantagens monetárias aos agricultores.

O fato de voltar à última coluna, porém, é reforçar uma ideia do professor Jules e que combina com muito do que penso. Ele sugere a proliferação de Farmer Field Schools. Escolas agrícolas onde os produtores, através de experimentos, poderiam comprovar a efetividade desses novos tratos e manejos, em ambiente neutro.

Os leitores poderão dizer que muitas empresas fazem dias de campo. Não são ambientes neutros. O mesmo com instituições privadas e públicas de pesquisas (IAC, Iapar, Embrapa, Emater), fazendas experimentais em universidades. Verdade, mas tudo misturado, sem foco, com recursos limitados e inconstantes, de poucas consequências, ou patrocinados pelos grandes fabricantes. Se autônomos, não chegam ao maior interessado, o produtor.

A indústria fabricante desses materiais tem limitados recursos financeiros, poder de divulgação e de associação com entidades de pesquisas para obter comprovação científica. Isso os impossibilita de ampliar a comercialização, sempre marginal em relação às tecnologias fabricadas e massificadas pelas multinacionais do setor de insumos.

Não é difícil transpor para o Brasil o que propõe o professor no Reino Unido. Bastaria determinação política do governo para usar os assentamentos agrícolas e multiplicá-los em centros experimentais demonstrativos de manejos e produtos alternativos. Eventualmente, a iniciativa privada poderia consorciar-se a isso.

Cerca de um milhão de famílias brasileiras vivem em 10 mil assentamentos que ocupam área perto de 90 milhões de hectares, 70% com mais de dez anos de formação. Se espalham por todos estados do País, mas de forma precária e vistos pela sociedade de forma polêmica.

Há no governo excelente arcabouço de dados (IBGE, MAPA, etc.) para determinar condições edafoclimáticas e culturas para que se possa escolher (Incra) assentamentos vocacionados a se transformarem em “Escolas Agrícolas Experimentais”, nos moldes propostos pelo professor Jules Pretty.

Isso permitiria que plantios, tratos culturais e colheitas, realizados pelos próprios assentados, com técnicas e produtos alternativos, bancados com financiamentos público e privado, e acompanhamento em todas as etapas por técnicos agrícolas, fossem testados.

Os resultados de produção e produtividade serviriam como demonstração aos demais fazendeiros, tecnicamente comprovados, enquanto os de comercialização assegurada reverteriam para o assentamento.

Certa vez, em artigo para outra publicação, sugeri às grandes empresas privadas do setor de insumos que adotassem um assentamento. Com o tempo teriam um cliente fidelizado. Nada feito.

Neste assunto, registro e agradeço ao professor Mauro Sopeña, da Universidade Federal do Pampa, em Santana do Livramento/RS, que me enviou e-mail com o artigo “Assentamentos Orgânicos”, publicado pelo Arco, Jornalismo Científico e Cultural.

Famílias de Júlio de Castilhos (RS) se destacam na produção de alimentos sem agrotóxicos. Embora a matéria se refira apenas ao uso de assentamentos em produções orgânicas, sua ampliação ao uso combinado e redutor de agroquímicos, para efeito de conhecimento e aprendizado aos grandes agricultores, que ainda resistem produzir de forma mais barata e menor impacto ambiental, mostra a viabilidade do aqui proposto.

registrado em: