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Cultura

Edgard Catoira

22.01.2012 14:55

A sustentabilidade: eles e nós

Os bancos, essas generosas instituições, sempre preocupadas com o bem-estar coletivo de seus clientes, estão engajadas em nova e meritória campanha. Trata-se de um movimento em defesa da sustentabilidade, essa palavra nova que passou a frequentar nossas vidas para nos ensinar a viver melhor, aproveitando com sabedoria os recursos que a Mãe Natureza proporciona.

'Que tal, em troca da nossa adesão à "sustentabilidade banqueira" ganharmos um desconto nas tarifas'. Foto: Dida Sampaio/AE

E a defesa da sustentabilidade que os bancos pregam é defender a Natureza, recebendo pilhas e baterias para dar um encaminhamento ecológico a elas, ou economizando de papel. Ou seja, preservar nossas florestas, reduzir a massa de detritos que suja as ruas, economizar a energia gasta na produção e por aí afora, numa infinidade de desdobramentos, todos positivos.

Campanha mais meritória, impossível. Ser contra isso torna você um perdulário consumidor de recursos naturais, um egoísta insensível para com o futuro da humanidade, um pária, indigno de viver numa sociedade moderna.

Porém, talvez valha a pena olhar por trás dessa bela fachada de boas intenções que agita a internet, aparece toda hora na televisão, gera entrevistas dos criadores da campanha e insere, independentemente do conjunto da obra, os bancos na lista das instituições socialmente responsáveis.

O papel que eles nos pedem para economizar é aquele que, por norma do Banco Central ou lei federal, seja lá o que for, os bancos são obrigados a enviar regularmente (acho que por mês, embora não o façam) com o resultado da nossa movimentação financeira: cheques emitidos, contas pagas, serviços prestados etc.

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Isso tem de vir em papel que, como sabemos, custa dinheiro. Sem contar o gasto com o pessoal encarregado de cuidar desse papel e de sua remessa até nós, além da tarifa do Correio. Multiplique por milhares (milhões) de clientes e veja quanto isso custa para os bancos.

A economia que querem que façamos para eles é abrir mão dessa correspondência toda e aceitarmos receber nossa movimentação por via digital: e-mail, Facebooks, Orkuts, Twitters e o que mais estiver disponível nesse incrível mundo da comunicação de hoje. Para eles, o custo será quase zero, as florestas e o planeta agradecerão, viveremos numa sociedade melhor.

Ótimo, mas benefícios institucionais, indiretos, à parte, o que é que nós, nosotros, ganhamos concretamente com isso? Tempo? Praticidade? Mais espaço nas gavetas e armários? Sim, tudo isso e pouca coisa, ou nada, mais. Eles, sabidamente devotados ao dinheiro, ganharão mais uma montanha dele, para nos emprestar com aqueles juros modestíssimos que conhecemos e com aquela generosidade que, por vezes, quase nos leva às lágrimas. Nós ganhamos, a consciência de ser bons cidadãos, amantes do planeta etc.

Ora, vamos falar sério! Que tal, em troca da nossa adesão à “sustentabilidade banqueira” ganharmos um desconto nas tarifas, uma reduçãozinha na taxa de juros, um premiozinho na nossa conta de poupança? Ou até, que sabe, uma panela, um liquidificador, uma escarradeira, uma coleção dos pensamentos de Lenin sobre banqueiros etc? Gostam da ideia?

Vamos ver se eles gostam. De minha parte, continuo com o papel, mesmo à custa de ser qualificado de predador insensível. E me recordo sempre de como banqueiro gosta de rezar o Pai Nosso pela metade, só a parte que diz: “Venha a nós o Vosso reino”…

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Sua opinião

  1. Roger disse:
    Digo o que ninguém quer dizer. Qdo indagado sobre o descalabro das taxas, juros e lucros meteóricos dos bancos no Brasil, o finado ex vice presidente José Alencar disse: alguém tem que ser dar bem nessa país!!! Pois é, e assim vamos...
  2. Fábio de Oliveira Ribeiro disse:
    A sustentabilidade deles é a conta que pagamos: Bradesco 12,00 de tarifa para manutenção da conta 1,80 por extrato tirado no caixa eletrônico etc... etc... Todo mês o Bradesco leva mais ou menos R$ 17,00 da minha conta. Se tiver 10 milhões de correntistas e cobrar o mesmo, quando tem de lucro sem qualquer esforço? Costumo dizer que daqui a pouco o Bradesco vai começar a cobrar por cada teclada. Teclou paga, errou a senha paga duas vezes. Agora parece que 30% deste banco foi vendido para investidores estrangeiros. Esta é a globalização do mundo cão?
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