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Universo desconstruído, o retorno

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 15/08/2016 08h57, última modificação 15/08/2016 09h01
No volume dois da série, as personagens femininas têm mais espaço para ousar e realizar

Em 2013, resenhamos Universo Desconstruído, primeira antologia de ficção científica feminista no Brasil. Foi devidamente aplaudida. Muitos dos contos são excelentes em seu gênero e já não era sem tempo de uma iniciativa como essa em um meio tão impregnado de noções antiquadamente machistas quanto o da subcultura nerd da ficção científica brasileira.

Assinalamos, por outro lado, a recorrência da violência contra mulheres e o viés distópico e pessimista da maioria dos cenários. Isto talvez se explique pela popularidade da série Jogos Vorazes, então no auge e pela ansiedade por denunciar as injustiças e violências às quais meninas e mulheres continuam sujeitas, mas resultou um tanto repetitivo e proporcionou bem menos, em termos de diversidade e variedade, do que se poderia esperar da proposta.

O projeto, felizmente, não se limitou a isso. Mais recentemente, as mesmas organizadoras, Aline Valek e Lady Sybylla, publicaram Universo Desconstruído #02, coletânea de oito contos que, como o primeiro livro da série, pode ser baixada gratuitamente do site como e-book ou encomendada como livro impresso, neste caso com 253 páginas e preço de R$ 29,30.

Para satisfação dos apreciadores da literatura de especulação, nesta segunda coletânea, os contos são de qualidade mais uniforme e temática mais variada. Desta vez, as mulheres tendem a sofrer menos e ter espaço para ousar e realizar mais.

Um aspecto interessante é o papel dos personagens robóticos femininos, que já surgiam na primeira coletânea e na segunda voltam a aparecer em alguns contos. Na ficção científica clássica, inteligências artificiais costumam aparecer ora como ameaças à humanidade, como na peça de Karel Capek de 1920 que criou a palavra e o conceito de “robô”, ora, pelo contrário, como escravos perfeitamente obedientes, como na série de contos e romances de Isaac Asimov, mas neste e na maioria dos casos, os robôs ou “androides” são masculinos em nome e pronome, quando não “homens bicentenários”, embora geralmente desempenhem tarefas mecânicas ou intelectuais para as quais sexo e gênero são irrelevantes.

As robôs femininas ou “ginoides”, menos comuns, podem ser empregadas domésticas, como a Rose de Os Jetsons e garçonetes, como a Somni-451 de Cloud Atlas, mas mais frequentemente têm funções eróticas, como a sedutora Maria do Metropolis de 1927, a sensual dançarina Zhora do Blade Runner de 1982 e as escravas sexuais da série Humans de 2015.

Já no Universo Desconstruído, as robôs na maioria são tratados como femininas, com aparência condizente. São às vezes oprimidas, mas desempenham funções variadas e não sexuais e nunca são servas submissas ou máquinas assassinas. Pensam, agem, interagem e reagem como gente, rebelando-se quando abusadas e cooperando com suas parceiras quando tratadas como iguais. É como se fossem necessárias para exemplificar as razões para o feminismo dentro de cenários do futuro nos quais a injustiça contra as mulheres biológicas não é o foco.

Um comentário e uma amostra de cada um dos contos

1. “Corpo Escuro”, de Jarid Arraes

A autora de cordéis fala de autopreconceito contando em setilhas a história dos problemas de identidade de uma Jana do Cariri após usar um raio do futuro para clarear a pele, ideia talvez sugerida por O Presidente Negro, o infame romance racista de ficção científica escrito por Monteiro Lobato.  A proposta foi muito bem realizada dentro de seu gênero.

Nas bandas do Cariri

Lá pro ano de 3000

Chegou-se uma novidade

Que o povo nunca viu

Um danado tratamento

Com fim de clareamento

Para a pele ele serviu

2. “A Empresária que Vendia Sonhos”, de Fábio Kabral

Em um universo afrofuturista, ou seja, um cenário de ficção científica inspirado em culturas africanas e com protagonistas negras, tecnologia e misticismo se fundem de maneira inextricável, Fayolah Mwanga, bem-sucedida diretora de uma Agência de Relações Públicas Espirituais, triunfa no mercado e na sociedade com a venda de sonhos, mas paga um preço com o assédio de entidades espirituais a seu próprio sono. Soa como um conto mágico transposto para uma civilização de regime corporativo e alta tecnologia e só deixa a desejar um pouco mais de ousadia na caracterização do ambiente. Roupas (“executivas de terninho”), mobiliário, celulares e estruturas empresariais às vezes parecem demasiado ocidentais e prosaicos para um mundo construído sobre pressupostos tão interessantes.

Uma explosão de palmas. De todas as equipes do salão. Vencemos a concorrência!, a firma Ngura é nossa!, gritava a vice-Diretora Chioma, gritava o Amuna Thula, gritava toda a equipe de Mídias Oníricas perante os embasbacados funcionários da Ndoto Ya Abaju. Só não estava gritando a Diretora Fayolah, que apenas sorria – com a boca e com os olhos.

3. “Amor Fortemente Elíptico”, de Marta Preuss

Uma cientista da Terra viaja a um planeta atrasado do sistema Alfa Centauri para tentar entender as razões do aumento de sua mortalidade infantil. É um conto ingênuo e simplista na linguagem, na concepção político e no uso da especulação científica, tanto nos aspectos astronômicos quanto nos biológicos, mas de muita sensibilidade humana.

A visita a Centauri-III durou mais tempo do que Amanda previu, mas foi bem menos proveitosa do que ela esperava. O governo centauriano apenas negava veementemente qualquer problema com as crianças e focava nas reuniões de negócios e acordos monetários. Vendas de papéis e coisas sem valor científico foram conversadas e validadas, papéis foram assinados e ela não conseguiu cumprir a missão para a qual foi designada.

4. “O Resgate de Andrômeda”, de Thiago Leite

Andrômeda, uma exploradora do espaço, enfrenta alienígenas que invadiram sua nave. É uma típica aventura de ficção científica na tradição pulp, a não ser por a protagonista ser uma mulher de ação e por apresentar um equilíbrio entre dinamismo e empatia raro nesse gênero.

Finalmente, prestou atenção a si mesma e percebeu que estava imobilizada, os braços e pernas estirados e presos por tentáculos de uma criatura que se pendurava no teto. Tudo imóvel exceto por um leve movimento de sanfona, como se a criatura respirasse profundamente num sono pesado, fazendo Andrômeda se balançar suavemente. Tinha o corpo pendurado diagonalmente e a cabeça pendendo para a frente, as curtas mechas negras úmidas de suor grudadas à testa. Os braços musculosos estavam esticados para cima, suportando seu peso, e as fortes pernas estavam penduradas por tentáculos frouxos, mas apertados nas pontas onde seguravam seus tornozelos, e só não machucavam tanto porque ela calçava grossas botas negras de cano alto.

5. “BSS Mariana”, de Lady Sybylla

Ao lado das colegas de um centro de comando e do ex-marido militar, Endyra, uma cientista de origem indígena, participa do resgate de uma nave estelar brasileira que retorna depois de desaparecia por mais de cem anos e do esforço para salvar os tripulantes, aprisionados em uma atribulação insólita. Uma história complexa e imaginativa, talvez a mais interessante da antologia, rica de ideias e sutilezas que merecem uma leitura atenta. Os únicos pontos duvidosos estão em tentativas de dar explicações técnicas desnecessárias e pouco críveis para tecnologias imaginárias (por exemplo, “gás criogênico... baseado em genes de animais que praticavam a hibernação na Terra”).

Keyla chegou à sala de controle e ouviu os berros de Fábio e Endyra de longe. Desde que tinha começado seu doutorado com Endyra que ela e seu ex-marido se engalfinhavam na sala de controle cada vez que precisavam respirar o mesmo ar. Não que Endyra ligasse para o que os outros pensassem, mas a incomodava a insistência do ex em sempre aparecer em cada pequeno problema espacial.

6. “A Divina Nervura do Virtual”, de Ben Hazrael

O eixo do conto é uma disputa e um acerto de contas entre uma filha e um pai separado e ausente pela alma do irmão. É menos ficção científica do que uma fantasia cujo núcleo é inspirado pela Divina Comédia de Dante Alighieri, disfarçada em experiência científica sobre o inconsciente coletivo. A linguagem é criativa e a trama tem momentos dramáticos e comoventes, mas estes são frequentemente esfriados e estorvados por um excesso de alusões e citações tiradas tanto da cultura erudita quanto da indústria cultural de massas.

“Viviana, ao terminar de lhe dizer, notei que uma lágrima rolava em seu rosto e isto, minha cara, me fez chegar o mais rápido possível até onde estava. E, agora, estou aqui, diante de você: afinal, consegui te salvar dos três masoquistas que desejavam promover jogos vorazes com você e depois devorar sua carne como sashimi e usufruir osso por osso de seu corpo e agora? Agora você vem hesitar em continuar a jornada? Não, minha cara, é muita tolice para uma só pessoa, é quase pedir para se tornar um desses memes que viralizam naquele mundo que chamam de Internet”.

7. “Boneca”, de Clara Madrigano

Uma menina mantida em cárcere privado por um abusador descobre o diário escondido de uma antecessora no mesmo sofrimento, ou assim parece à primeira vista. A continuação da leitura revela uma realidade ainda mais perturbadora e a situação é usada com muita habilidade para abordar questões de identidade e liberdade.

Ari não contou para ele sobre Mary Louise. Encontrara o diário dela dentro de um dos livros que ficavam debaixo da cama. Anne of Green Gables, a capa dura com uma ruiva sardenta, com tranças que balançavam com a brisa: oco por dentro guardando os pedaços restantes dos cadernos de folha frágil de Mary Louise, ou MLA, como ela costumava assinar, de vez em quando.

Mary Louise era caótica, estava além de ordem cronológica. Havia páginas em que anotava lista das coisas de que sentia falta:

Bicicleta.

Disney Channel.

Ar puro.

Bonbon (o que quer que fosse Bonbon).

Sorvete.

8. “Espectro”, de M. M. Drack

Uma aventura espacial na qual a capitã de uma nave espacial resgata irmãos de criação cuja nave, enviada para explorar um planeta capaz de abrigar os emigrantes de uma Terra moribunda, está à deriva e perdeu contato com a base. Infelizmente, é uma história contada sem muita habilidade, ingênua na linguagem, na descrição dos sentimentos e relacionamentos e no uso da especulação científica. Para dar um exemplo, o mundo ao qual foi enviado a nave de exploração é um “planetoide gasoso”, coisa inexistente no vasto repertório dos objetos astronômicos conhecidos e que, mesmo que existisse, não teria uma superfície habitável por humanos.  As possibilidades do

– Quando você cresce da forma que crescemos, filhos de guerras civis e conflitos, cujas famílias há muito desaparecera; quando você cresce não tendo ninguém além daqueles pobres diabos como você para segurar a sua mão nas piores horas, você aprende que uma casa não precisa ser um teto sobre a sua cabeça. Você aprende que família é mais do que apenas ter o mesmo sangue correndo nas veias. E se é errado que irmãos lutem para se manterem unidos eu não quero estar certa... – lágrimas escorriam pelo rosto de Magellan.

Andrômeda não disse uma só palavra. Ela não era capaz de sentir as mesmas emoções dos seres humanos, mesmo possuindo uma matriz de empatia instalada em seu cérebro robótico. Ela compreendia o elo que unia Magellan aos irmãos justamente por ter sido concebida pelas mesmas mãos que haviam criado a moça de pulso firme e espírito inabalável que se sentava ao lado dela na cabine da Zodíaco.