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Crônica do Villas

Tiro de guerra

por Alberto Villas publicado 03/06/2016 04h34
Caminhando, eu consegui escapar do Serviço Militar
Alberto Villas
Alberto Villas

"Dispensado do Serviço Militar inicial em 1969 por insuficiência física temporária para o Serviço Militar podendo exercer atividades civis"

Logo cedo bati os olhos no jornal e vi a fotografia em preto e branco do capitão do Exército Carlos Lamarca, no meio do mato, treinando uma bancária a dar tiros certeiros com um fuzil.

Notícias desencontradas davam conta que Lamarca havia desertado do Quartel de Quintaúna, perto de São Paulo, junto com o sargento Darcy Rodrigues, o cabo José Mariane e o soldado Carlos Alberto Zanirato.

Há quatro dias, ele estava desaparecido. O quartel tinha dado falta, além de Lamarca, do sargento, do cabo e do soldado, também de 70 fuzis FAL, dez metralhadoras, duas bazucas e muita munição. O clima no Brasil estava pesado demais.

Três dias depois, naquele janeiro de 1969, enquanto Carlos Lamarca se organizava para passar o verão no sertão baiano, montar o seu quartel general e enfrentar o regime militar, eu preparava a minha mochila.

Era uma mochila de couro de bode comprada no Mercado Modelo de Salvador e que ainda fedia muito. Minha mãe havia me aconselhado a deixá-la no sol por alguns dias para que aquele cheio desaparecesse. Ficou dependurada no varal do terreiro da minha casa um bom tempo, mas o cheiro não sumiu.

Dentro dela, coloquei uma capa de chuva de plástico duro, uma camiseta, uma cueca, um boné - brinde do Posto Fraternia - alguns pacotes de biscoitos Mirabel, uma garrafa de água mineral São Lourenço de vidro, uma escova e uma pasta de dente Kolynos.

No segundo compartimento da mochila, enfiei um exemplar da revista Realidade com a última batalha do câncer na capa, um exemplar do Diário de Minas, o livro Eram os deuses astronautas, de Erich von Däniken e minha carteira de identidade.

Carlos Lamarca já se sentia mais ou menos seguro em barracas de lona instaladas entre cactos e pequenos cajueiros, quando peguei a BR-3 rumo a Ouro Preto. Fui caminhando e cantando canções do disco Rosa dos Ventos, de Maria Bethânia, canções que sabia de cor.

As sombras são/assombrações/as vibrações/a sombra e o som/da amada/da visitante/imaginada/teu ventre invento/e o teu silêncio/é o som de uma celesta/nos mangues frios/caligrafia/da mecânica celeste

A minha decisão de ir à pé de Belo Horizonte até Ouro Preto foi tomada uma semana antes, quando recebi em casa uma convocação para me apresentar para o Serviço Militar. Por nada desse mundo eu entraria para o Exército Brasileiro, naquele janeiro de 1969. Nem obrigado. Pensei até em fugir para Estocolmo para colher morangos ou para Havana, plantar cana.

Procurei me informar e soube que o peso mínimo para estar apto para o Serviço Militar era 50 quilos e eu estava com os meus 51 quilos e 200 gramas bem pesado na farmácia do Hormínio, na Rua Grão Mogol. Pensei com os meus botões que indo à pé até Ouro Preto perderia esses quilos e seria dispensado.

O meu tênis Bamba estava meio estropiado mas mesmo assim, tinha certeza que ele aguentaria chegar inteiro a Ouro Preto. E fui caminhando. Sabia que tinha 97 quilômetros pela frente, algumas serras, pedras no caminho e muita poeira vermelha de minério no acostamento estreito e perigoso.

Cheguei a Ouro Preto um farrapo. Sentei no chafariz da pracinha principal, joguei uma água fria na cabeça, tirei o tênis Bamba e coloquei os pés inchados pra cima. Não tinha tempo a perder nem quilos a ganhar. Na rodoviária, comprei uma passagem de volta para Belo Horizonte e voltei, cochilando.

Sete horas da manhã já estava de prontidão na porta da Quarta Região Militar para me apresentar. Como os militares seguiam a ordem alfabética, fui um dos primeiros a ser chamado. Um sargento, cara do sargento Tainha, mandou que todos tirassem a roupa e subissem, um a um na balança. O peso era o primeiro teste.

Quando eu e meus ossos subimos naquela balança branca e enferrujada, ele jogou uns pesos pra lá e pra cá e disse pro subalterno: “Quarenta e nove exatos”. Vesti minha roupa, fui colocado de lado e chamado para bater carimbos em certificados militares.

Depois de quase uma hora batendo carimbos com o nome do Major Chefe da Terceira Seção, Dario da Fonseca Ferreira, recebi o meu.

Lá estava escrito: “Dispensado do Serviço Militar inicial em 1969 por insuficiência física temporária para o Serviço Militar podendo exercer atividades civis”.

Fiquei sabendo que além dos 59 quilos, eu tinha 1.70 metros de altura, a cútis clara, os olhos verdes, os cabelos castanhos, o tipo sanguíneo GR A RH Positivo e nenhum sinal particular.

Nenhum sinal particular do lado de fora porque, do lado de dentro, eu tinha uma cicatriz profunda dos militares que caçavam, prendiam, torturavam e sumiam com os meus amigos, pra nunca mais.