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Cultura

Crônica do Menalton

Socorro!

por Menalton Braff publicado 18/12/2015 12h38
Vocês já perceberam como é engraçado o sistema bancário brasileiro? Não sei se isso é universal, mas acho que não
Tânia Rêgo / Agencia Brasil
Dinheiro

Um dia de um banco em greve

Minha primeira conta bancária e meu primeiro talão de cheques, como esquecê-los? O primeiro talão é como a primeira lingerie, percebeu, a gente jamais esquece. Tinha uma capa cinza-chumbo, com o nome da instituição financeira (não existe mais) e alguns outros detalhes com tinta preta. Muitas vezes o carreguei no bolsinho da camisa, mais exposto que o necessário, porque era, segundo o conto do Machado, minha alma exterior. Me sentia cidadão, com muito orgulho. 

O canhoto, de onde se destacava a folha do cheque, lembro bem, no alto tinha um lugar para data, logo abaixo espaço para o beneficiário, então vinham lugares para o saldo inicial, o valor do cheque, o valor do depósito e, antes do saldo final, o lugar para se fazer o lançamento dos juros. Lançamento dos juros, você está ouvindo?

Aprendi a calcular os juros e quase nunca errava. Tanto por mês, dividido por trinta, multiplicado pelo número de dias em que permaneceu sem mudança o saldo. Então era multiplicar o percentual do juro pelo saldo. Fácil, não é mesmo? E ganhava-se dinheiro dos bancos. Claro que usavam meu dinheiro cobrando muito mais dos tomadores. Uma palavra que se ouvia muito era spread.

Você riu? É assim mesmo: apanha e sente-se feliz. Pois naquele tempo, banco era uma instituição onde se depositavam as economias para que ficassem guardadas, mas com liquidez imediata, e para que rendessem juros. O raciocínio parecia ser bastante simples: o banco, de posse de nosso dinheiro, fazia empréstimos com os quais ganhava juros. Uma fração desses juros era distribuída aos correntistas, os verdadeiros donos do dinheiro.

Não sei qual foi o pensamento daqueles pais da pátria que, em 1964, acharam o sistema ruim e resolveram inovar, invertendo muita coisa. Até hoje não consegui entender. Se tenho algum dinheiro, o meu salário recém-recebido, por exemplo, e não quero guardá-lo debaixo do colchão, como faziam meus tios e avós, devo deixá-lo nas mãos de um banqueiro que, para tanto, vai pegar um pedaço do que era meu. Ele ganha emprestando o dinheiro e ganha guardando o dinheiro.

Existe negócio melhor? Eles dizem que são despesas de administração. Vocês já perceberam como é engraçado o sistema bancário brasileiro? Não sei se isso é universal, mas acho que não. O banco cobra taxas de que não tem de dar explicação nenhuma, para manter seu dinheiro rendendo juros para ele. Antigamente, antes de 1964, ainda me lembro, agiota era condenado à prisão porque cobrava o extorsivo juro de cinco por cento ao mês. Hoje, bem, hoje, depois que eles se tornaram poder, é melhor parar por aqui.

Este é o ascendente e inevitável caminho do progresso. De quem?