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Cultura

Crônica do Menalton

Sobre o ressentimento

por Menalton Braff publicado 15/01/2016 06h04
Muitas vezes, o ressentido é ressentido exatamente por não poder aspirar a qualquer vingança

Nada mais desagradável do que ter de lidar com o ressentimento alheio. O Adamastor foi quem me alertou para o assunto, ele, que nunca o (re)sentiu.

Se um dia, por distração, você pisar o pé de um ressentido, este é o início de aborrecimentos sem fim. Primeiro, ele vai tentar pisar seu pé também. Vai fazer disso ponto de honra, razão de sua existência. O ressentido é capaz de dedicar a vida à realização de uma vingançazinha que o alivie da dor guardada nos escaninhos de sua mente patológica.

Quando você o encontra casualmente em um lugar qualquer, ele se encolhe, torvo o semblante, baixa a cabeça pesada, arrasta os olhos no piso. É uma reação natural, pois o ressentido acha que você passou por ali apenas para aporrinhá-lo. Enfim, o mundo está todo organizado apenas e tão-somente para lhe causar aborrecimentos. Ele é ressentido mesmo que não tenha causa para isso. Então, como quase sempre acontece, ele inventa uma.

Muitas vezes, entretanto, o ressentido é ressentido exatamente por não poder aspirar a qualquer vingança, por pequena que seja. Esse é o que se pode considerar o ressentido para todo o sempre, o ressentido por princípio. Ele jamais o perdoará pelo pisão involuntário. Para onde ele for, vai carregar numa sacola essa dorzinha latejando. Presume-se que o ressentido desse tipo sinta algum prazer em seu ressentimento. Digamos que a dorzinha do ressentimento seja o tempero de sua vida. Assim como o bicho-de-pé do jeca. Aquele queimorzinho, uma coceira sem fim, como viver sem tempero nenhum?

Mas também existem os ressentidos ocasionais. Sua vida é pura alegria até o dia em que viu o vizinho comprar um carrão. Enquanto não comprar um ainda maior e mais caro, ou enquanto não ficar sabendo que o vizinho se arrebentou numa trombada com seu carro, ele estará sofrendo. O sentimento da inveja é a causa do ressentimento. Basta que seu motivo desapareça para que ele volte a viver feliz.

Para sorte minha, tenho encontrado poucos do primeiro tipo em minha vida. Quase todos os que já cruzaram meu caminho, depois de algum tempo, encontravam-se curados, porque isso de cicatriz é consequência da própria cura.

O Adamastor me afirmou várias vezes que o rancor guardado é o pior veneno da alma. Se você tem algum, jogue fora esta porcaria.

Se alguém supuser que estou falando de política, é provável que esteja enganado. Agora, pretendendo adequar a crônica ao cenário dessa instituição, nada posso fazer, senão descobrir, como o Macunaíma, que tudo pode transformar-se em tudo. 

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