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Crônica

Questão de competência

por Menalton Braff publicado 16/09/2016 13h16
No bar, é sempre bom falar a verdade
Marcos Santos / USP Imagens
Cerveja

No bar, é melhor dizer a verdade

Com o calor que faz na região, costuma-se justificar os bares lotados todas as noites da semana. O consumo de chope e cerveja é paliativo para o desconforto do calor. E fala-se com justo orgulho em campeã nacional do consumo per capita de tais paliativos por aqui. Acho que está muito certo. Estranho seria que as sorveterias fizessem fortuna lá no Polo Norte. Você não concorda?

Outro dia fui visitar meu afilhado e cumprir minhas obrigações de padrinho. Ele estava festejando seu aniversário. Dei-lhe a bênção, beijei-lhe a testa e botei sobre a mesa um brinquedo de montar e desmontar. Como não fosse eletrônico, meu presente, em pouco tempo ficou esquecido num canto.

Então perguntei pelo Adamastor, meu compadre, e fui tomar uma cerveja no bar onde ele jogava conversa fora com os amigos. Alguns deles eu já conhecia, mas foi justamente um sujeito baixo e gordo, que eu via pela primeira vez, quem começou. Ele já estava com aquele olhar meio vidrado de quem consumiu o paliativo que de resto não refresca mais. Pelo contrário.  

Perguntou-me se eu era bom de copo. Fiquei meio sem jeito para responder, pois não sabia se a resposta esperada era que sim ou que não. Enfim, em mesa de bar o melhor é sempre dar a resposta esperada. Então todos se abraçam amigos, sem que ninguém fira ninguém. Quem é habitué de bar sabe como é que isso funciona. Numa situação como essa, e em caso de dúvida, o melhor é falar a verdade. Foi o que falei.

O gorducho amigo do Adamastor me olhou com profundo desprezo. Ele apertava os olhos e ria na minha direção. E seu riso me escorria pelo peito, pegajoso. Senti aquilo como se ele estivesse babando sobre meu rosto.

Eu já tomei sozinho trinta cervejas numa tarde, ele declarou com imenso orgulho. Trinta cervejas, o baixinho repetiu. Alguém aqui toma trinta cervejas sozinho numa tarde? Não sei se falava a verdade ou era hipérbole etílica, acontece que nenhum de seus conhecidos o contestou.

Parece que ninguém tomava, e o gorducho ficou com o troféu, que continuou exibindo até a hora em que me fui embora.

Per Bacco, saí pensando, quando um homem não tem mais nada com que se orgulhar além de sua competência de barril, é porque a coisa vai muito mal.

Então alguém me pergunta por que é que num momento em que o País atravessa tantos problemas políticos me ponho a falar de consumo de cerveja? 

Alto lá, companheiro! Se esse não é um problema político, então não sei o que seja problema político.

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