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Crônica

Profissão de fé

por Matheus Pichonelli publicado 21/02/2013 11h51, última modificação 06/06/2015 18h25
À saída da igreja, a senhora lavava o rosto na pia de água benta. "Ando com a visão meio turva, e isso me sara que é uma beleza”, explicou

Fazia algum tempo que não pisava numa igreja. Hoje pela manhã, a caminho do supermercado, reparei que as portas da catedral estavam abertas e resolvi entrar. Fiquei ali longos minutos, desses que, numa grande cidade, parecem guardar a culpa por todos os nossos atrasos.

Gosto do silêncio das igrejas. Gosto da luz filtrada pelos vitrais. Gosto das fileiras de madeira, das imagens dos santos e suas histórias. Gosto sobretudo de pensar que, ao entrar num lugar assim, parecemos nos proteger em um mundo paralelo, embora encravado nas incivilidades das ruas.

Desde a renúncia do papa Bento XVI, muitos se questionam sobre a dimensão real de uma igreja fundada há mais de dois mil anos. Joseph Ratzinger, ao anunciar sua decisão, disse não ter condições de seguir a missão petrina; negava, assim, o papel de sucessor de Pedro, antes Simão, que, segundo a Bíblia, negou Cristo por três vezes antes de assimilar a missão e se tornar santo. De santos e desistências o mundo, como a igreja – qualquer igreja – está cheio.

Em meio a tantas leituras sobre tantos gestos do papa, passei a questionar o que de fato me fez mudar os hábitos aos domingos, antes marcados pelos sermões do padre, a fila para a comunhão, os atos penitenciais. Foi mais ou menos há dez anos, quando cheguei à conclusão de que a parte mais prazerosa de toda a cerimônia era quando o padre dizia: “ide em paz e que o Senhor vos acompanhe” – no que era repetido em coro, muitos deles num alívio aflito: “Graças a Deus”.

Até então, minha vida social estava atrelada à rotina nas igrejas de nossa cidade: meu avô era o responsável por montar o andor de Nossa Senhora Aparecida na paróquia de mesmo nome. Foi, aliás, numa festa de Nossa Senhora, celebrada em 12 de Outubro, o meu primeiro contato com o mundo fora do hospital; minha mãe, liberada após o parto, pediu que meu pai a levasse para a igreja antes de seguir para casa. Com o bebê no colo, seguiu com os olhos a procissão, que desde então acompanha com os pés todos os anos. Lembro das quermesses, dos voluntários que arregaçavam as mangas e montavam cachorro-quente para arrecadar fundos à caridade; lembro do casal que, antes de ir para a missa, passava no Lar Juvenil da cidade e apanhava meia dúzia de órfãos para povoar a igreja. Lembro das catequistas, vizinhas do bairro; umas amargas, outras compreensivas, todas impregnadas de um certo espírito público atrelado à servidão.

Tudo ficou na lembrança, não sem certa simpatia cômica e marcas manifestadas pelo escapulário pendurado no pescoço e um terço no bolso, presente de minha vó, que reza quando acorda e quando se deita para pedir um mundo um pouco, só um pouco melhor do que este que aí está.

Após a renúncia do papa, de quem me sentia tão próximo como me sinto de um líder tribal no Afeganistão, listei os motivos que, com os anos, me afastaram daqueles corredores. Não me instigavam os não-me-toques das cerimônias; não me animavam os gerúndios e lamúrias sobre decências; não me inspirava brincar de “seu mestre mandou” repetindo sempre as mesmas palavras; a redundância de cânticos; os “vós”, os “sois”, os “tens”, os “glórias”, e as “aleluias” sem uso ou finalidade fora dali; não me tocavam as palavras aparentemente vagas e desconectadas das vivências das ruas; a despolitização das preces; o esvaziamento das causas. Mais ainda: me irritava o descompasso do tempo das mudanças observadas pelo mundo afora e o tempo da eternidade, a eternidade em que ora se apoiam os líderes da mesma igreja para seguir sentados em conceitos medievais. Me irritava como a mesma igreja esquecia o que ela mesmo entoava num cântico cada vez mais distante daquelas paredes: “comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar, com a luta sofrida de um povo que quer ter voz, ter vez e lugar”. Aquilo era pólvora pura demais para quem passara as últimas décadas limpando os vestígios do engajamento pelo marxismo, a chamada Teologia da Libertação.

Distante desse engajamento antes entoado, tudo ali soa hoje anacrônico: o papel coadjuvante delegado às mulheres, o medo da pluralidade, a omissão sobre as violências praticadas em nome da fé.

Era o que pensava nesses minutos de silêncio dentro da velha igreja. Sentia, é forçoso dizer, uma espécie de piedade por essa igreja que tanta piedade pede aos seus. No fim das contas, concluía, ela não é menos vítima das transformações do que outras instituições apegadas a uma estrutura verticalizada que já não convence, já não dá abrigo, sejam as escolas, as famílias patriarcais, as corporações, as associações de classe, os partidos políticos.

Sou de um tempo de transição, um meio-termo entre o mimeógrafo que imprimia minhas provas nos primeiros anos de escola e os iPads dos nativos digitais. Cresci com uma turma que desconfia de líderes e rejeita hierarquias claras. Nesses anos, a internet e seus buscadores nos ensinaram a localizar contrapontos de interesses específicos sobre o que queríamos, quando queríamos, da forma e linguagem que bem entendêssemos; aprendemos assim a confrontar fontes, a nomear demandas. Hoje não faz o menor sentido, ao menos para mim, passar uma hora sentado, ou ajoelhado, ouvindo alguém dizer de longe o que devo repetir sem raciocinar. Não faz sentido a não-interlocução, o não-confronto, o não-debate. Não faz sentido ter uma leitura do dia, engessada, quando o assunto em pauta do mundo afora é quase sempre outro. O conhecimento hoje, para a gente, é medido pela praticidade do acesso, das decisões horizontalizadas, dos consensos e contrapontos. Dizer “amém”, portanto, é como negar uma convicção, esta mais atrelada às liberdades do que à obediência rasa.

Pobre igreja rica.

Antes de cruzar os corredores de volta, espiei pela última vez a fileira de pessoas ajoelhadas olhando inertes para seus pontos de fuga. Algumas mal disfarçavam a aflição entregue aos cuidados de forças extraterrenas que nem toda ciência, nem todos os santos, conseguem explicar.

À saída, me perguntei se acaso os líderes desta igreja, os que saem e os que chegam, têm a dimensão do risco da dispersão. Estava praticamente convencido do contrário quando, já na porta, vi uma senhora lavando o rosto, literalmente, na pia de água benta. Sem que eu esboçasse qualquer pergunta, ela tratou de explicar: “Ando com a visão meio turva, e isso me sara que é uma beleza”.

“Isso me sara que é uma beleza”, repeti comigo. Não era aquilo, então, o que formalmente denominam “fé”?

Nenhuma encíclica ou tese de qualquer teólogo me pareceu tão elucidativa sobre a matéria-prima que mantém a igreja, qualquer igreja, de pé por tanto tempo; porque, para encontrá-la, é preciso descer dos púlpitos e altares. Aquela senhora talvez não tenha a menor disposição em clicar botões em busca de explicações racionais sobre a ligação entre a água que se acredita benta e as mazelas do corpo. Mas aquilo, de toda forma, a fazia ver melhor; ou a se ver vendo melhor. Grande ironia, esta. Para ela era o suficiente. A fé, parecia dizer, dispensa respostas. Ainda que todas as respostas estejam à disposição. Do lado terreno, elas nunca serão suficientes.

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