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Palavras que sumiram do mapa

Livro reúne palavras e expressões extintas do vocabulário como puxar o carro, marmota, fervilhar, munheca, coqueluche, radiola, garrucha e meganha
por Matheus Pichonelli publicado 04/04/2012 16:25, última modificação 06/11/2012 09:08
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O jornalista, escritor e colunista de CartaCapital Alberto Villas

De vez em quando, o jornalista e escritor mineiro Alberto Villas usava alguma palavra das antigas em casa e as filhas logo arregalavam os olhos, sem saber o que ele estava falando. “Garrucha”, explicava ele, era “espingarda” e “radiola”, um precursor dos novos equipamentos de som.

O mundo mudava, e as palavras também. E, perto dos 60 anos, quando diz ter sentido o “peso da idade”, Villas começou a colecionar palavras. Desde então, o colunista do site de CartaCapital recorreu ao seu arquivo pessoal de revistas dos anos 50, 60 e 70 (suas favoritas), livros e conversas com pessoas mais velhas para encontrar e anotar palavras que haviam caído em desuso com o passar da idade.

“De vez em quando eu ouvia um senhor dizendo que fulano era munheca (hoje pão-duro) e percebia que, se ninguém reunisse essas palavras, elas acabariam sumindo de vez”, conta.

Assim nasceu o “Pequeno Dicionário da Língua Morta”, livro sobre palavras desaparecidas do mapa e que acaba de ser lançado pela Editora Globo.

A pesquisa nos velhos artigos durou cerca de dois anos. A princípio, as palavras eram colocadas fora da ordem, sem preocupação com a cronologia. “As palavras iam aparecendo e eu, escrevendo. Depois coloquei ordem no galinheiro, de A a Z”, diz.

O resultado é que, diferentemente dos verbetes sisudos dos dicionários tradicionais, o de Villas saiu em tom literário, como mini-crônicas.

“Cada palavra que sumiu do mapa ou está com os dias contados tem uma historinha. Isso deixou o dicionário bacana - taí uma palavra que morreu e ressuscitou, não é mesmo?”

Das expressões hoje em desuso, o escritor diz sentir falta de puxar o carro (“ir embora”), de marmota (“gente que se veste com um gosto duvidoso”), fervilhando ("o show estava fervilhando de gente"), coqueluche (“hoje última moda”), manequim (“ninguém mais diz que a Gisele é manequim, virou top model”) e muitas outras.

“Sinto falta mas, na verdade, vivemos sem elas. É puro saudosismo. Adorava dizer que o datilógrafo estava catando milho. Ninguém mais cata milho, parece que todo mundo já nasce sabendo digitar”, relembra.

Das que não sente falta, ele narra: “Como não sinto falta alguma dos militares, não me importo nem um pouco que as palavras gorila, meganha e milico tenham desaparecido. Como não sinto falta de gonorréia ou gorou (‘o projeto gorou, quer dizer: não deu certo’).”

E, se tem alguém culpado pelo sumiço de certas expressões, esse alguém é o próprio tempo e suas modas, explica o autor. “É o que hoje chamamos de ‘da hora’. O Brasil gosta de uma moda e a moda passa. Não sei se daqui a cinco anos os cariocas, por exemplo, estarão falando 'irado' ou 'maneiro' como falam hoje. Muitas palavras sumiram juntamente com a moda. No período da Jovem Guarda, por exemplo, apareceram inúmeras palavras ('broto', 'brasa', 'mora', 'bicho', 'papo firme') e elas sumiram juntamente com o movimento. Se bem que Roberto e Erasmo são fieis até hoje ao tal do 'bicho'.”

Do novo vocabulário, Villas conta que se incomodava, no princípio, com as abreviações surgidas na internet (vc, abs, tks, rs rs). Mas agora não. “O Max Gerhringer, que faz a orelha do livro, questiona uma coisa interessante: Será que em 2050 alguém vai entender o tal do kkkkkkkk? Já pensou que coisa mais curiosa alguém explicando: ‘Ah, isso queria dizer que a pessoa estava rindo, estava achando graça em alguma coisa.”

É esperar para ver – e que novos Villas se ofereçam a contar a história de tudo o que hoje é jovem e novo e amanhã, como na música, será antigo.

 

Leia textos de Alberto Villas em CartaCapital:

 

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