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Os escravos do presente em 'Django' e 'Lincoln'

por Matheus Pichonelli publicado 05/02/2013 16h36, última modificação 06/02/2013 09h15
Com temáticas semelhante, filmes favoritos ao Oscar levam espectadores a buscar com lupas (e certo exagero) os recados do passado para os tempos atuais

Há um recurso, no cinema, que ajuda a delimitar na tela um certo distanciamento entre a realidade retratada e a realidade propriamente dita. Um exemplo clássico é a cena de Monty Python e o Cálice Sagrado em que um cavaleiro sem cavalo é seguido por um personagem batendo côco para simular uma cavalgada real. É uma espécie de pisca-alerta na tela a indicar que se trata apenas de ficção – e que, como ficção, qualquer semelhança com a vida real não só é mera coincidência como também absurda.

Na semana passada, assisti ao filme Django Livre, de Quentin Tarantino, e me impressionei com a quantidade de elementos me pedindo para refletir e, ao mesmo tempo, não levar a ficção tão a sério. A tentação, no entanto, era grande: entre os indicados ao Oscar de Melhor filme deste ano, dois tinham a faca e o queijo na mão para  arrebentar com os preconceitos dos tempos atuais. Tratavam da escravidão americana em um período histórico próximo – antes da guerra da Secessão, no caso de Django, e ao fim da guerra, caso de Lincoln. O risco, para o espectador, era chegar à sessão com o fardo de procurar na tela as mensagens para o presente deixadas por um passado revisitado.

No caso de Steven Spielberg, por ter feito um drama histórico, a busca com lupa por essas lições beirou a obsessão. Algo compreensível. Com a interpretação impecável de Daniel Day Lews, o filme parece ter resgatado um “mito do homem ideal”, que entra para a História como herói porque acertou no momento em que não podia errar – é essa, vale dizer, a definição do herói descrita pelo personagem de Roberto Bolaño no livro O Exército de Salamina, de Javier Cercas. Essa busca pelo passado consagrador não deixa de ser uma forma de projetar no presente um período de glórias. Em 1865, era a libertação dos escravos, o fio emaranhado que sustentava a guerra civil entre o sul colonial e o norte industrial. E hoje?

Bom, hoje há também um presidente popular às portas do segundo mandato e diante de desafios consideráveis. Como Barack Obama, Abraham Lincoln acabava de ser reeleito e acumulava um capital político suficiente para tentar mudar a História. Conseguiu e, desde então, todo presidente (e não só nos Estados Unidos) sonha em ser Abraham Lincoln quando crescer.

No mês passado, ao iniciar o novo mandato, Obama realizou um discurso “lincolniano”, de acordo com analistas locais. Citou as brigas que terá pela frente para garantir a igualdade entre os cidadãos americanos e fez referências diretas à comunidade gay e aos imigrantes. O filme já estava em cartaz; o gancho, também. Obama parecia saber que a correlação histórica fatalmente seria levantada.

Jamais saberemos até onde a ficção (ou a História) pautou a realidade no caso do discurso do presidente reeleito. Mas a imagem de Lincoln revisitada por Spielberg – e suas 12 indicações ao Oscar – tem alimentado tantas inspirações que não será de se estranhar se, muito em breve, aparecer na praça um novo livro com o título “Aprendendo a Cozinhar em Dez Lições de Abraham Lincoln”. Exagero? Pois há mais ou menos duas semanas quem abriu o jornal de domingo esbarrou no caderno de economia com dez lições deixadas por Lincoln para quem quiser ter sucesso na carreira profissional – em 1965, este seria motivo suficiente para declarar uma nova Guerra da Secessão, desta vez aos empreendedores coxinhas.

O presidente mais amado da história americana já havia se tornado, tempos atrás, tema de filme adolescente sobre vampiros. Algo como: de manhã ele governa os Estados Unidos; à noite, sai da toca para combater o Mal com “M” maiúsculo. É como se o herói do passado estivesse vestido com roupas da moda juvenil de hoje.

De toda forma, há quem tenha enxergado, sobretudo após o filme de Spielberg, pontes entre os EUA de Lincoln e os EUA de hoje: as salas de transmissão de notícias sobre a guerra seriam as salas de monitoramento computadorizadas de hoje; as fotos manuseadas pelo filho mais novo do presidente seriam os tablets de agora; a fala dos personagens previa que, se fossem libertados, um americano negro poderia, em 150 anos, se tornar também presidente; eram, grosso modo, recados velados a Obama e a quem se candidatar a “mito” em tempos atuais.

Por essas e outras foi bom ter assistido, na sequência, a um filme sobre a mesma escravidão do mesmo período histórico do mesmo país, mas cujo personagem principal, interpretado por Jamie Foxx, usa uns óculos escuros desmontáveis. É o côco usado antes pelos atores ingleses do Monty Python para demarcar território: aí, onde você senta, é a realidade; aqui, é o cinema, e quem manda aqui somos nós. Quando esse distanciamento está definido, fica mais fácil assistir a um filme sem a pressão da lupa. Ao menos deveria ser – o desafio do espectador é não perder as contas diante dos cadáveres empilhados em mais de duas horas e meia de filme. É um elogio à violência num país de estudantes transtornados? Uma crítica à banalização da violência? Um retrato sobre um período cruel?

Pode não ser nada disso, como pode ser de tudo um pouco. Como era de se esperar, Tarantino não economiza na tinta ao mostrar um período de violência desenfreada, quando havia um catálogo claro entre humanos de primeira, segunda e terceira classe. Mostrou escravos digladiando até a morte para divertir os proprietários, as teses racistas a legitimar a opressão, as redes de proteção sobre o patrão, branco e cruel. Eram, de toda forma, tempos de absurdos e violências (físicas, morais, psicológicas, sexuais) toleradas e assimiladas sobre as quais o diretor, diante da criatura, tem o direito de brincar com um final possível ao misturar figurinos do século XIX com trilha sonora e gírias do século XXI. É o que, sem muito esforço, é classificado como “licença poética” - o próprio diretor afirmou o desejo de fazer, a seu modo, com que o espectador sentisse na pele as atrocidades da escravidão e refletisse.

Esta licença permite ao diretor fazer na tela o que bem quiser. Como, por exemplo, retratar milicianos da Ku Klux Klan como imbecis infantilizados. Ou espalhar sangue de um escravista alvejado por um campo de algodão. Há quem reaja, sem ver muita graça nem poesia na violência supostamente "gratuita". No que os óculos escuros de Jamie Foxx responderiam: relaxa, é só cinema. Cinema puro. E dos bons.