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Crônica do Villas

Onde foi parar o faquir?

por Alberto Villas publicado 04/10/2012 14h57, última modificação 04/10/2012 14h57
Se era verdade que os faquires passavam meses sem comer eu nunca soube, mas que eram uma atração naquela BH dos anos 60 isso era

Muita coisa desaparece de repente, sem mais nem menos. O Crush, por exemplo, parou de ser fabricado por aqui há muitos anos. O Rinso – aquele da brancura Rinso – não está nas prateleiras dos supermercados faz muito tempo.  E não foi só o refrigerante e o sabão em pó que nos deixaram na mão.  Onde foi parar a presuntada Swift, os discos Copacabana, o catálogo telefônico, a piteira, o slide, a calça Far-West, o Kichute e os Aqualoucos, aqueles malucos que faziam apresentações nas piscinas dos clubes desse imenso país?
Como de vez em quando eu ouço um bom e velho disco, ontem foi a vez de Aprender a Nadar, o segundo de Jards Macalé, lá do início dos anos 70. E foi nesse disco, logo na primeira música que ouvi o Macao recitando: “Ao distinto público, ouvintes de casa, vou ficar aqui exposto à audição pública como o faquir da dor”. Foi ai que me perguntei: Onde foi parar o faquir?
Nos meus tempos de criança lá em Belo Horizonte, de vez em quando aparecia um faquir na cidade. Era uma atração. O homem era pele e osso, olhos fundos, ele usava um turbante na cabeça e ficava ali sentado numa cama de pregos dentro de uma redoma de vidro dias e dias. O meu pai tinha horror de faquir, proibia a gente de ir ver e não gostava nem de tocar no assunto. Mas a gente tinha notícia.
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Quem ia ver o faquir contava que ele ficava ali sentado na cama de prego imóvel olhando para o infinito, sem o menor sinal de dor. Tinha faquir mais ousado, capaz de caminhar em brasas como se estivesse pisando em ovos. E outros ficavam dias, semanas, meses, sem comer. Se era verdade ou não, nunca soube, mas que faquir era uma atração naquela BH dos anos 60 isso era.
Se você fuçar na Internet vai encontrar muitas histórias de faquir, inclusive a definição correta. Faquir é um substantivo masculino cujo plural é faquires. Está lá, bem claro: “Nome dado ao indivíduo que se exibe submetendo-se a suplícios e jejuns para dar provas de resistência a dores físicas e privações.” Quer dizer, não é mole, não é nada fácil ser faquir.
Dizem que todo faquir vem da Índia mas, pra ser bem sincero, aqueles faquires que se apresentavam em Belo Horizonte não vinham da Índia não. Acho que, na verdade, vinham do interior do Minas pra ganhar uns trocados no Parque Municipal.
Dizem que o faquir mais famoso do mundo chama-se Prahlad Jani, esse sim indiano e que não come nada, absolutamente nada há sete décadas. Há controvérsias. Quem não acredita nessa história diz que que não há provas de que Prahlad  Jani está mesmo em jejum há setenta anos.
Sobre um outro faquir, o Hira Ratan Manek, também indiano, correm muitas lendas. Chegaram a dizer que até a Nasa estava interessada em estudar o seu caso, já que ele se alimentava através da fotossíntese. Rapidinho, a porta voz da Nasa, Dolores Beasley, negou que a agência americana tinha qualquer envolvimento com o tal Manek.
Não quero ficar aqui falando sobre o que não conheço a fundo. De faquir, só me lembro daqueles que de tempos em tempos apareciam em Belo Horizonte nos tempos do Crush e do Rinso e que hoje sumiram do mapa. Juro que um dia vou a Índia só pra ver de perto um  e poder informar ao distinto público, como disse o bom e velho Jards Macalé, o que é - ao vivo -  um faquir da dor.