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Bravo! Cinema

O olho que tudo vê

por Orlando Margarido — publicado 31/03/2013 07h27, última modificação 31/03/2013 07h27
Retrospectiva tem destaque para cinema russo e filmes sobre Graciliano Ramos, Ingmar Bergman e Philip Roth
o olho

A vida ao vivo. O Homem da Câmera de Filma (1929), de Vertov. Foto: Austian Film Museum

É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários
Quinta (4) a 14 de abril
Cine Livraria Cultura, CCBB, Reserva Cultural, MIS e Cinemateca Brasileira

No pôster que anuncia sua 18ª edição, o festival internacional de documentários É Tudo Verdade lança mão da arte gráfica da vanguarda russa para nos remeter à urbe, aos seus ocupantes e ao olho que tudo vê. Evidente introdução ao grande homenageado na retrospectiva deste ano, o pioneiro russo Dziga Vertov (1895-1954). Nada pode começar a ser revisto no cinema documental, ou no cinema como um todo, sabe o diretor do evento, Amir Labaki, sem que se passe pela produção icônica do idealizador do chamado cinema-olho, o Kinoglaz, e o cinema-verdade, o Kino-Pravda. Entre a próxima quinta (4) e 14 de abril, sete longas-metragens do diretor e um programa de curtas serão exibidos em meio aos 82 títulos de 26 países da programação, que também acontece no Rio de Janeiro, em Brasília e Campinas.

 

 

Procedentes do Austrian Film Museum, que preserva o maior acervo de Vertov, as raras cópias em 35 milímetros trazem novidades na montagem e melhor compreensão do seu método. Cineasta da propaganda soviética, o russo não se deixou conter pela imagem burocrática e experimentou, como no clássico O Homem da Câmera de Filmar (1929), também conhecido como Um Homem com uma Câmera, no qual solta a máquina e seu olho para captar o fulgurante cotidiano na metrópole, ou, no dizer do crítico Jean Tulard, a vida ao vivo transformada em sinfonia visual. Vertov pode ser por demais engajado como em O Décimo Primeiro Ano (1928), mas também sensível e lírico em Entusiasmo (1930), em que acrescenta a noção ouvido-rádio à sua escola autoral, arrebatado pelo construtivismo que o cercava.

No recorte contemporâneo, o festival passa dessa apreensão de um período histórico de uma nação ao foco intimista. Temos, assim, na competição internacional, um estudo sobre o diretor teatral André Gregory, personagem de Louis Malle em Meu Jantar com André, em Antes e Depois do Jantar, de Cindy Kleine, também da reclusa pianista argentina Martha Argerich por sua caçula em Filha Problema, e, por fim, em Nosso Nixon, material inédito colhido por Penny Lane.

A seleção nacional faz jus ao formato com Ozualdo Candeias e o Cinema, de Eugênio Puppo, e O Universo Graciliano, de Sylvio Back, sobre Graciliano Ramos. São merecedoras de uma seção especial as discussões sobre a obra-prima de Ingmar Bergman em Fanny, Alexander e Eu, do crítico Stig Björkman, e a literatura em Philip Roth, Sem Complexos, de William Karel e Livia Marena.