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O ditador remontado

por Elias Thomé Saliba — publicado 12/03/2013 09h13, última modificação 12/03/2013 09h15
Após três décadas de pesquisa, sai a biografia mais abrangente na descrição da vida privada de Stalin

"Os historiadores são gente do tipo que descobre não somente os fatos enterrados sob a terra, mas até aqueles nas profundezas do oceano, e os revelam ao mundo.” Ganha um doce quem adivinhar o autor dessa definição do ofício do historiador. Sim, é dele mesmo, Ióssif Vissariónovich Djugachvíli, mais conhecido pelo sobrenome adotado posteriormente, Stalin. Vindo de quem veio, a definição surpreende, sobretudo porque foi escrita pelo personagem do século XX que mais censurou, distorceu, omitiu e destruiu as fontes históricas sobre o seu passado e o passado do seu povo. Essa paranoia silenciadora marcou de tal forma a historiografia que somente a partir do fim da década de 1980, com o fim da União Soviética, os fatos submersos naquelas “profundezas do oceano” começaram a vir à tona.

Ainda assim, os historiadores precisaram de várias décadas, de infinita paciência e longas pesquisas para desentranhar o universo das falsidades, da vilania e até mesmo do folclore sobre a vida de Stalin. A cada ano surgiam novas pistas, como o diário da mãe de Stalin, Ekaterina (Keké), que só permaneceu porque Stalin nunca soube da existência dele, ou os depoimentos de testemunhas, as quais, após 1991, resolveram finalmente falar ou, o que é pior, alterar seus depoimentos anteriores. Depois ainda surgiram arquivos inesperados, como os de Baku, no Azerbaijão, que documentam os assaltos a bancos coordenados por Stalin na juventude. Por isso, ao menos para aqueles historiadores decentes, que não costumam ir com tanta sede ao pote, a reconstrução da vida de Stalin é um empreendimento desanimador e cheio de pistas falsas.

Lilly Marcou, historiadora francesa de origem romena, demorou quase 30 anos para compor A Vida Privada de Stalin (Zahar, 259 págs., R$ 54,90 e R$ 34,90 o e-book). Embora não seja tão bem documentada quanto o mais recente O Jovem Stalin, de Simon Sebag Montefiore, é a mais equilibrada, abrangente e escrupulosa biografia da vida privada de Stalin. Ou melhor, da progressiva supressão da vida privada, título que melhor definiria a trajetória desse personagem.

A reconstrução de sua vida, do nascimento até março de 1917, é mais detalhada e bem menos folhetinesca do que nas biografias anteriores, até por se utilizar bastante de testemunhos orais, com o objetivo de revelar a face mais humana do conspirador bolchevique. Até completar 35 anos, Stalin viveu quase toda a juventude entre as prisões e o exílio. Sua passagem pela aldeia de Kostino, ao norte da Sibéria Central, é dramática e ele escapa por pouco de morrer de tuberculose. Isolado de seus contatos no partido e paralisado em suas ações, não tinha outra coisa a fazer senão adaptar-se à indigência cotidiana e à solidão na Sibéria. Procurou ler, estudar línguas e escrever, incluindo seus trabalhos sobre as nacionalidades.

Em resumo, Stalin esteve longe de ser aquele revolucionário emigrado, vivendo na Europa como Lenin, Trotski, Plekhanov, Zinoviev e tantas outras figuras do marxismo russo, para os quais a miséria ou o obscurantismo intrínseco às massas camponesas, durante o período czarista, eram conceitos filosóficos ou políticos. Foi o único dos principais bolcheviques de primeira hora a impregnar-se de maneira íntima e cotidiana do infortúnio dos pobres. Marcou demonstra o quanto esse longo e cruel exílio parece tê-lo endurecido ainda mais, o que repercutirá na maneira como ele conceberá a luta contra aqueles com quem não concordava.

Na segunda metade da década de 1920, Stalin viveu a vida tradicional de um chefe de família. Exceto pelos meses no balneário de Sotchi, para curar-se do reumatismo articular no braço e de outras mazelas do seu tempo de siberiano, viveu com a família na sua dacha em Zubalovo, confraternizando nos aniversários ou divertindo-se na sala de bilhar, seu jogo preferido.

Embora Marcou revele aos leitores todos os detalhes e versões, não embarca facilmente no folclore a respeito de todos os casos amorosos de Stalin. “Por enquanto, nenhum arquivo ou confidência familiar permite respostas definitivas”, afirma a historiadora, para a frustração dos leitores curiosos. Analisa e ainda pondera a respeito de todas as versões do suicídio de Nadejda Alliluyeva, a segunda mulher de Stalin. O suicídio tornou-se objeto de controvérsia porque o líder soviético liberou para a imprensa em 1932, em nota, uma lacônica “morte súbita”, enquanto para os filhos disse que ela apenas morrera de apendicite aguda, proibindo-os de tocar no assunto.

A mentira engendrou versões rumorosas, cada uma mais fantasiosa que a outra: a guarda pessoal de Stalin, a seu mando, a matara, porque ela o teria flagrado com outra mulher. Talvez o sionismo internacional houvesse tramado a morte. Ou ela teria se suicidado por manter um caso amoroso com o primeiro filho de Stalin, Iacha. A imaginação mórbida sempre floresce em sociedades desinformadas. De qualquer forma, Stalin viveu o episódio como uma vergonha e uma traição e nunca conseguiu processar a morte da sua segunda mulher. O luto não parecia consumado, uma vez que ele pessoalmente parecia sempre procurar de maneira obsessiva por um culpado.

Culto e autodidata, apreciador de música e filmes de faroeste, político implacável com os inimigos e sempre predisposto a sacrificar em nome do ideal comunista qualquer coisa, família, amigos ou milhares de camponeses e soldados, Stalin ficou no poder por quase 30 anos.  Marcou não esconde nenhuma das violências abjetas perpetradas por ele, mas também não cai na paranoia de transformar as três décadas em um imenso gulag.

A pesquisadora documenta a rara capacidade de cálculo político de Stalin. Estabelecer afinidades com imperadores e czares permitiu ao tirano da Geórgia livrar-se dos compromissos vinculados às promessas originais de construção do socialismo, no fim impossíveis de ser cumpridas. Stalin expulsou a barbárie da Rússia por meios bárbaros, transformando-a numa potência industrial, mas isso ao custo de forjar uma sociedade traumatizada pela violência, desinformação e obscurantismo, que acabaram por chafurdá-la em todos os tipos de psicoses, obsessões e pavores.

Com a conivência criminosa da era Kruschev, que, a rigor, durou até Mikhail Gorbachev, todas as testemunhas se calaram. Algumas até 1966, outras até 1973, sua própria filha, Svetlana Alliluyeva, até 1991, quando confessou: “Ele foi um péssimo e negligente filho, do mesmo modo como foi mau pai e marido. Dedicava seu ser inteiro a outras coisas, à política e à luta. Pior do que isso: ele permitiu e estimulou que sua política destruísse e consumisse os seres amados”.

Após o terror da coletivização forçada e dos expurgos assassinos, a simbiose entre Stalin e a polícia secreta dominou sua vida privada de tal forma que em certos momentos ele chegou a perder completamente o controle das ações mais escusas. O que resultou literalmente no fim de sua vida privada. Quando veio a guerra, trabalhava 18 horas seguidas, dormindo no sofá do seu gabinete, de uniforme. “Stalin não manipulava apenas todos os cordões do front. Ele era o próprio front”, conclui Marcou.

Agraciado com o título de Homem do Ano, Stalin ganhou imagem de capa e a manchete de “salvador do mundo ocidental” na revista Time em 1942. Foi sua época de maior sucesso no Ocidente. Políticos, escritores, diplomatas e militantes, todos sucumbiam à mística da clausura, do mistério calculadamente dosado daquele homem dotado de uma força de sedução, calcada no domínio da conversa sigilosa, personalizada de acordo com o interlocutor. Naqueles anos, nunca foi severamente questionado sobre expurgos, julgamentos e execuções. Todos se inclinavam perante o revolucionário, ignorando deliberadamente o tirano.

Paradoxalmente, no mesmo momento no qual posou como um dos grandes vencedores da história, sua vida privada estava em farrapos. Foi também um excelente empresário do seu próprio personagem, a ponto de a ele sucumbir, rompendo, sem perceber, quaisquer laços com a realidade familiar. A inocência das pessoas que ele matava ou enviava para o desterro não o perturbava. Conforme radicalizava o terror, perdia qualquer noção de apego ou afeição, ou mesmo de piedade. “A gratidão é uma doença dos cães”, declarou certa vez.

Até as relações com a mãe, bastante deterioradas, esgarçaram-se. Quando ela morreu, em junho de 1937, ele não compareceu ao enterro, enviou apenas uma coroa de flores escrita em russo e georgiano. Uma anotação a lápis, em georgiano, no que restou do caderno de Keké, registrou o seguinte diálogo da mãe com o filho:

– Iosif, o que você é agora?

– Secretário-geral do Partido
Comunista.

– O que é isso?

– Mamãe, lembra-se do nosso czar?

– Claro!

– Pois bem. De certa forma, sou o novo czar.

E Keké, finalizando o diálogo, com aquela tristeza resignada:

– Pondo tudo na balança, você teria feito melhor virando padre.

Naquela confusão de vozes do passado, ainda brilhava uma última epifania de lucidez.