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O brilho da noite escura

por Rosane Pavam publicado 20/04/2013 11h42, última modificação 20/04/2013 11h42
Lygia Fagundes Telles completa 90 anos em meio às recordações nascidas de sua literatura íntima

Lygia fagundes Telles é uma só, e não há como compará-la com alguma coisa na literatura do Brasil. A Helga de seu conto homônimo, por exemplo, parece-se com ela, “uma manhã de bicicleta nas estradas impecáveis”, embora não se saiba como a manhã terminará, nem se a bicicleta restará inteira. Ao contrário de Helga, contudo, cuja perna mecânica significou capital roubado pelo noivo em núpcias, a particularidade de Lygia está no que jamais se desprende dela, nem na hora do amor. Ela vive como quem pressente. Seu assunto é a crueldade, ampliada pela escrita simples. Mas pode ser cruel quem sorri?

O sorriso de Lygia se oferece ao desconhecido, ao contrário do que lhe aconselhava a amiga Clarice Lispector. A autora de Ciranda de Pedra desafiou-a em todos os momentos nos quais estampou essa confiança nas fotos. Que sua face jamais parecesse turva. Ela era, pelo contrário, efusiva de exercer o ofício escolhido. Os lábios vermelhos, os anéis dourados, os brincos de prata, os lenços azuis. E foi sempre a mesma, impecável para o dia, enquanto ali, naquela noite escura onde se desenhava sua literatura, fazia crescer um turbilhão de desencontros, submissões e empreendimentos falidos. Era uma mulher do Brasil e ainda é.

Antes, uma menina. Completa 90 anos neste dia 19, mas o faz sem festa e com irritação camuflada. Aceita falar com toda a imprensa porque é preciso. Ela se vê viva nos jornais. “Se você achar Machado de Assis na lista de mais vendidos, eu lhe dou um doce. O povo analfabeto não sabe ler, só pensa em futebol, e o futebol está mal das pernas, hein?”, diz em entrevista. Ela pede a CartaCapital que transmita ao prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, como anteriormente solicitara à presidenta Dilma Rousseff, a necessidade de creches e escolas para salvar o Brasil. “Um país se faz com homens e livros, dizia Monteiro Lobato, mas onde estão os livros brasileiros? Só há estrangeiros entre os mais vendidos. Dom Casmurro nunca apareceu numa lista. Nem os românticos, Álvares de Azevedo, Fagundes Varella, Castro Alves. Que esperança eu posso ter? Por que eu vou sobreviver? Não vou sobreviver nada. Enquanto estou viva, ainda lembram de mim, depois adeus.”

Por isso, talvez, não seja o caso de lhe pedir que acolha a celebração neste momento, embora ela tenha uma resposta pronta para rejeitar os parabéns. Tudo foi culpa da mãe. Desejosa de acender a vela de seus 8 anos, ela encomendou bolo, biscoitos e balas para a filha caçula, mas ninguém apareceu. Lygia se esqueceu de entregar os convites. As festas de aniversário seriam terríveis dali por diante, mas ela aprenderia a pular a decepção. Como o pai lhe ensinou nas desastrosas idas ao cassino, a gente perde hoje, mas ganha amanhã.

Em seu apartamento paulistano naquela região dos Jardins onde mora há três décadas, depois da muito lamentada morte do crítico de cinema Paulo Emilio Salles Gomes, seu segundo marido, Lygia mostra que ainda está de pé. Quebrou o fêmur há quatro anos, anda de bengala, mas de pé permanece. Recebe a reportagem em sua mesa onde há livros, papéis e uma bandeja cortês na qual repousam uma garrafa de água e castanhas de caju sem sal. A mesa é grande, de madeira escura antiga, colocada na sala a certa distância da estante onde há livros e tantas fotografias. Nelas estão o pai, a mãe pianista, o avô que era coronel da guarda do Império, o filho, seu amor. Tudo se desfila e se embaralha nas estantes, como a memória apenas aberta com determinada chave. Lygia se senta na cadeira de encosto firme.

“Eu tenho uma vontade de permanência, acho que será isso. A vontade de não desaparecer”, diz ela do outro lado da mesa. Ela é quase uma diretora de ensino enquanto discorre sobre o valor que dá à eternidade. Paulo Emilio era ateu e comunista, como ela explica ao imitá-lo, o punho cerrado em braço estendido. E há outras provas de seu materialismo, como a fotografia que o amigo Vladimir Herzog fez do casal pouco antes de morrer, diante do túmulo de Karl Marx, em Londres. Contudo, ela que tanto protestou contra duas ditaduras, do Estado Novo e dos anos 1960, não responde se um dia acreditou no materialismo do alemão (Lygia passa por cima de muitas perguntas). Na infância gostava de padres, mas hoje prefere acreditar na transmigração da alma. Uma crença que mais parece literária, retirada daquele poeta que escreveu ter sido em vidas passadas um mancebo, uma donzela, um pássaro azul da floresta e um peixe mudo do mar. Ela jura gostar de orações, mas não se liga a igrejas. E faz o sinal da cruz como a se livrar do diabo, aquele com o qual deparou num voo para a China. O demoníaco era um homem grande e descabelado que apagava o cachimbo com o polegar.

Voilà. Prefiro que fiquem com minha obra e esqueçam meu aniversário”, ela diz, às vezes hesitante ao proferir a palavra “obra”, substituindo-a por “trabalho”, a mão percussiva sobre a mesa como a marcar uma inflexão para tantas histórias. Diante dela está o santuário. Um belo desenho de Darcy Penteado na parede, a representar seu filho Goffredo, criança de cachos, ao lado de seu ursinho de pelúcia. Abaixo da moldura, fica o urso, ele mesmo, sentado de camiseta sobre uma pequena poltrona do outro lado da mesa onde se encontra Lygia. Goffredo morreu em 2006, aos 52 anos, era o documentarista de sua vida e de outras, alguém cuja presença permanece intocada para ela nessa espécie de altar. A bisneta de Lygia, a pequena Mariana, ama o urso de Goffredo, como lembra sua neta. Lúcia é cotidiana e firme ao lado da avó. E há sua secretária de três anos, Regina, a auxiliá-la no trabalho atual de burilar histórias antigas de Lygia, como O Tesouro. “Meu filho era meu companheiro e eu procuro compensar essa dor com humor.”

Malgrado a angústia sofrida agora, Lygia nunca deixou de olhar para o passado. A experiência é um farol voltado para trás, dizia Pedro Nava, e com muito orgulho ela mostra à reportagem uma foto em que aparece, estudante de Direito no Largo São Francisco, ao lado de Cecília Meireles. “Uma poeta maravilhosa, cujos versos me deram o título do livro A Noite Escura e Mais Eu.” Lygia convidou-a a fazer uma conferência no centro acadêmico nos anos 1940. “Eu era tão pobre que a gente não tinha carro, andava de bonde. Fui atrasada até Cecília, com um raminho de violetas na mão. Ela já estava na Estação da Luz, veio dormindo no Trem de Prata, ao lado do marido, o doutor Heitor Grilo. Pedi perdão e ela me perguntou em que hotel ficariam. Mas eu não tinha pensado em hotel nenhum! O doutor, que era rico, arrumou um lugar.”

Na faculdade de Direito, Lygia conta, era possível improvisar sobre uma canção em voga durante a Segunda Guerra: Quando se sente bater no peito heróica pancada, deixa-se a folha dobrada enquanto se vai morrer. A partir da canção, suas colegas (eram seis na heroica classe de Lygia) chegavam a paródias como esta: O menino que eu namoro e que me quer muito bem tem um sorriso que encanta, quinhentos contos também. A escritora ainda se lembra, com uma gargalhada, do versinho que Cecília lhes deu sobre a surrada melodia: Passarinho ambicioso, nas nuvens fez seu ninho, quando as nuvens forem chuva, pobre de ti, passarinho. “Aproveite esta história, é muito importante, inédita”, aconselha.

É como se a cada grande personagem da literatura lhe correspondesse uma história peculiar. Lobato, por exemplo, a quem visitara na prisão, esteve em sua indesejada festa de 23 anos. O olhar do escritor na foto em que está registrada a ocasião não esconde o assombro. Ele passava pela rua no momento em que a mãe de Lygia ia atrás do vermute e não viu jeito senão aparecer para agradecer-lhe a visita. Não é fácil enfrentar o desconhecido, como Lobato fez. A escritora experimentaria coisa parecida numa ocasião na faculdade de Direito. Ela se cansou da audiência que não parecia ouvi-la e se retirou dali rispidamente. Antes de chegar à porta, “um rapaz descabelado” lhe entregou um bilhete e saiu sem mais ser visto. Lygia ainda guarda o manuscrito: “Não é loucura, teus livros já me afastaram do desespero. Beijos”.

Ela tem a memória plena de versos e os recita com as mãos para o alto. E ainda se lembra da inscrição em latim naquele relógio de Paris: “Guarde somente as horas felizes”. É assim, alegre, que ela se recorda de grandes amigos como Clarice Lispector. Lygia não responde se a contraria que coloquem as duas num pódio de rivalidades literárias. “Clarice era ótima”, começa, rindo. “Não tinha amigas. Me dizia, com sua língua presa: ‘Não gosto de amiga mulher. São lésbicas. Eu não sou lésbica, eu gosto é de homem!’ E gostou de mim porque eu não era...” Lygia igualmente prefere o convívio masculino. “O homem é mais coração aberto. A mulher, mais perigosa. Serpente. Está na Bíblia. Ela vai deslizando pela grama, na sombra”, diz, representando com a mão direita um rastejar sinuoso. Quando Lygia fala, é como se escrevesse um conto. E se lhe fosse permitido reencarnar, ela fugiria como do diabo da ideia de voltar menina.