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Nosso DNA é africano

por Redação Carta Capital — publicado 23/02/2013 08h43, última modificação 06/06/2015 18h24
Estudiosos concordam, crioulos somos todos nós, latino-americanos. Por Carlos Leonam

Por Carlos Leonam

O cineasta americano -Spike Lee andou por Salvador, a Roma Negra, como dizia o etnólogo franco-baiano Pierre Verger, durante o carnaval e saiu de seus cuidados afirmando que o povo soteropolitano nunca elegera um negro para administrar a sua cidade ou o estado. Coitado, ele não sabe de nada...

Antes, havia esculhambado (perdão, paciente leitor) com Quentin Tarantino por Django Livre. Na base do “não vi e não gostei” (sic), Lee afirmou que o filme é “desrespeitoso” por causa do uso da palavra nigger, que podemos traduzir livremente por crioulo. Ora, nigger, agora pejorativo nos Estados Unidos, era como os senhores, feitores e os próprios escravos se referiam aos hoje afro-americanos. Jamie Foxx, que interpreta Django, considerou as críticas do cineasta de Malcolm X bastante “irresponsáveis”.

Como afirma Haroldo Costa, autor do livro Fala, Crioulo, em que relata o que ouviu de pretos brasileiros, de todas as camadas sociais, sobre suas experiências de vida, inclusive Pelé, a quem os amigos mais chegados costumam chamar, carinhosamente, de Crioulo:

“Crioulos somos todos nós, latino-americanos. Seja o indivíduo negro nascido na América do Sul, seja o indivíduo de ascendência europeia nascido nas colônias da América. Ninguém escapa...”

Foi o que também constatou o acadêmico Marcos Milanez, que há anos estuda as origens do povo brasileiro. Vou passar a bola para ele:

“Além dos mais de 2 milhões de escravos trazidos da África, acredita-se que cerca de 600 mil homens europeus, a grande maioria portugueses, tenham migrado para o Brasil nos tempos coloniais. Um número bem menor de mulheres portuguesas cruzou o Oceano Atlântico no mesmo período. Quando o Brasil se tornou independente, a população do novo país era de pouco mais de 3 milhões de habitantes, mais da metade escravos. A contribuição genética masculina para a população brasileira foi pela maior parte portuguesa, enquanto a contribuição feminina foi mais igualmente formada por genes de mulheres portuguesas, africanas e ameríndias.

Isso quer dizer que milhões de homens africanos e ameríndios morreram sem deixar descendentes. Também quer dizer que milhões de mulheres africanas e ameríndias foram forçadas a ter relações sexuais com homens de origem portuguesa. A gente brasileira, na maior parte fruto de miscigenação, tem traços físicos que revelam a mistura, mas por trás das aparências há mais detalhes significativos. No Brasil, a correlação entre aparência física e ancestralidade genética é fraca. Indivíduos com pele clara podem ter grande parte dos seus genes originada em populações africanas ou ameríndias. Por outro lado, indivíduos de pele escura podem ter grande parte dos seus genes originada em populações europeias”.

Na Bahia principalmente, onde os mulatos, mamelucos e cafuzos se tornaram “brancos caucasianos” ao ascenderem socialmente. Assim, essa história de nenhum preto ter sido prefeito, governador e que tais é uma bobagem espaiqueliana. E isso se repete Brasil afora.

Por oportuno, e antes que alguém “politicamente correto” venha atazanar este escriba, gostaria de dizer que o meu DNA é luso-afro-indígena: meus avós paternos tinham sangue português e africano (possivelmente, ainda, de cristãos-novos). E meus avós maternos tinham sangue espanhol e ameríndio (meu tataravô era morubixaba dos índios coroados, que dominavam o hoje norte do estado do Rio). É mole?

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