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Mostra de cinema de Veneza dá a liderança às mulheres

por Orlando Margarido — publicado 08/09/2016 10h43
Os papéis femininos seguem o atual reconhecimento das mulheres na sociedade, enquanto os homens surgem fracos
A atriz Natalie Portman

Natalie Portman encarna a primeira-dama Jacqueline Kennedy em 'Jackie', de Pablo Larraín

Transcorrida mais da metade da competição, pode se dizer que a 73ª Mostra de Cinema de Veneza dá as mulheres o papel de liderança e transformação da sociedade. A exceção à regra, quando acontece, é para apontar a crise de protagonismo dos homens, sua fraqueza existencial ou prática.

Não poderia ser mais sintomático na reta final para a cerimônia de Leão de Ouro no sábado consumar a tese com Jackie, de Pablo Larraín, exibido na manhã desta quarta. Também significativo que o talentoso realizador chileno de O Clube se interesse por figura icônica do poder americano, ou ao menos nele inserido como a primeira dama memorável que foi Jacqueline Kennedy.

Larraín construiu seu cinema sobre as mazelas da ditadura que os Estados Unidos viriam a patrocinar no Chile, situação apoiada pela Igreja. De origem irlandesa, os Kennedy eram católicos praticantes. Sua Jackie (Natalie Portman), se por um lado é o retrato da arrogância e capricho na idealização do mito, de outro se mostra fiel a tradição da família ao qual se integrou e se aconselha com um padre. As conversas com o religioso não estão no filme por acaso, assim como as tratativas com a equipe o clã do presidente, em especial com o cunhado Bob Kennedy.

Mais que uma cinebiografia de momento, aquele entre o assassinato no Texas e uma semana depois, a proposta é mostrar como se forja uma lenda, uma memória em torno de tragédia feita para se perpetuar. Larraín se esforça para trazer algumas marcas de sua cinematografia como o tom sombrio, rigoroso e a adoção do expediente de reconstituir cenas como se fossem material de arquivo, semelhante ao longa No. Mas é produção mais ambiciosa e com ambição internacional e nem sempre se evita os tiques da narrativa convencional, de fácil apreensão a um grande público.

De todo modo é um filme que oferece muito mais a discutir do que boa parte dos títulos em língua inglesa, americanos para ser mais exato, que desembarcaram no Lido em tonelada.

A quem quiser fazer a correspondência do protagonismo feminino pode começar com Arrival, título irônico aliás, de Denis Villeneuve. Aqui é Amy Adams a salvação da América como a linguista requisitada pelo governo para interpretar os rabiscos, digamos abstratos, dos alienígenas que invadem a Terra.

A presença dupla da atriz no festival induz a pensar em possível prêmio. Ela também surge no papel de uma galerista insatisfeita com o sucesso profissional e o casamento fracassado em Nocturnal Animals, de Tom Ford. Sim, o estilista de moda chega ao seu segundo filme como diretor e não é pelo ofício que empresta mais visual do que conteúdo a razão de se manter sempre na superfície.

Na trama do ex-companheiro de Adams por ela um dia abandonado (Jake Gyllenhaal) surge o registro de thriller violento que apenas reitera os clichês do gênero. Ponto a favor, mas ainda sim do romance em que se baseia, tem um final atípico.

Daí não ser das mais animadoras a expectativa da atriz sair com a Copa Volpi de Veneza. Nem tampouco de Emma Stone, no musical La La Land, ou de Alicia Vikander em The Light Between Oceans, intensa mas um pouco acima do registro como a mãe que perde dois filhos durante gestações problemáticas e decide ficar com bebê que lhe surge ao acaso.

Tem faces européias as duas melhores interpretações até agora. Em Frantz, de François Ozon, a alemã Paula Beer prefere o minimalismo e diz mais com o olhar como a jovem que na Primeira Guerra perde o noivo no front e encanta-se com o dito melhor amigo dele, quando este a visita.

Ainda mais faz Judith Chemla na adaptação de Guy de Maupassant feita por Stéphane Brizé em Une Vie. Nunca se vê seus olhos, e no caso quase sempre reflexos de sofrimento, pois o diretor evita-os e prefere fotografa-la de perfil. É o papel sem dúvida mais exigente entre esses, da mulher destinada a poucos momentos de felicidade luminosa enquanto os homens a sua volta lhe tolhem a vida e a fortuna. Um tanto em via paralela, as atrizes mexicanas não profissionais de La Región Salvaje, em especial Ruth Ramos, tem força mas devem pagar o preço da estranha fantasia em base realista proposta por Amat Escalante.

Em todos esses filmes, os homens surgem em condição coadjuvante mas de importância ao demonstrar fraqueza ou inaptidão para a vida. São de todo modo antagonistas necessários no destaque das mulheres.

No caso de protagonistas, a relação se inverte, e elas passam a ser esteio para manter-lhes o equilíbrio. O papa jovem fictício de Paolo Sorrentino não entra na concorrência ao Leão de Ouro, produção para TV que é, mas exemplifica bem o cenário como o primeiro americano a chegar ao Vaticano (Jude Law) treinado na infância e ainda dependente do cuidado da religiosa vivida por Diane Keaton.

A dependência do escritor argentino de O Cidadão Ilustre, vencedor do Prêmio Nobel, apenas parece menor até o momento em que ao menos duas mulheres o tiram da rota, uma namorada antiga e a filha desta. Não parece haver melhor escolha para destaque masculino que o ator Oscar Martínez nessa comédia em tom cínico e amargo da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat. Esperemos bom senso do júri, já que os selecionadores parecem ter desistido dele em boa parte do calendário veneziano.