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Lincoln para o público, Lincoln para especialistas

Para o público brasileiro, as referências históricas do filme recordista de indicações ao Oscar podem ser barreira, mas a empatia com o personagem é certa
por Matheus Pichonelli publicado 24/01/2013 17:13, última modificação 25/01/2013 06:47
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Lincoln, a cinebiografia do presidente mais cultuado da história dos Estados Unidos dirigida por Steven Spielberg, chega aos cinemas nesta sexta-feira 25 com o selo das 12 indicações ao Oscar de 2013, incluindo “Melhor Filme”, “Melhor Direção” e “Melhor Ator”. É natural que seja recebido, no Brasil, com expectativa similar ao tamanho de sua produção.

 

Há razões de sobra para a espera, a começar pela atuação de Daniel Day-Lewis, que pode conquistar a sua terceira estatueta – a última foi com Sangue Negro, de 2008. Seria justo. Lewis, que tem a mesma idade de Abraham Lincoln quando este foi assassinado, precisou ser envelhecido para incorporar, de forma impressionante, o semblante do presidente responsável pelo fim da escravidão nos EUA e o consequente fim da guerra civil que dividia o país e deixava um saldo de 600 mil mortos entre confederados e soldados da União.

Ao longo do filme, são muitas as facetas expostas do presidente: na tensão de casa, na relação com a mulher e os filhos, em meio a pesadelos noturnos, nos berros com auxiliares, nas pausas retóricas de anedotas lançadas nos momentos mais impróprios. São o ponto alto do filme.

 

Há, no entanto, alguns ruídos para quem procura no longa a projeção de debates atemporais. Sim, Lincoln foi o líder responsável por abrir uma passagem que, quase um século e meio depois, possibilitaria a eleição do primeiro negro para a Presidência dos Estados Unidos. Não é pouco. Mas não esperem do filme um libelo anti-racismo. Não era esta a proposta do filme. Embora os negros, de fato, tenham participação secundária na trama sobre as articulações de sua libertação, não há sinais de que Spielberg tenha simplesmente ignorado este ponto. A própria sociedade americada dava aos escravos, libertos ou não, esta condição.

Quem, no Brasil, quiser encontrar as causas e consequências de uma libertação incompleta (Lincoln previa que a abolição se espalharia pelos outros países da América), tem para o debate menos elementos criados dentro da tela do que fora dela. Basta contar quantos descendentes de escravos aparecem no caminho do espectador entre a sala de cinema, provavelmente em shoppings de classe média e classe média alta, e o estacionamento.

Lincoln é, sobretudo, um filme sobre política. Nele, as cores épicas da produção contrastam com as ações miúdas, que hoje seriam julgadas e condenadas, para aprovar a 13ª emenda à Constituição e impor, em 1865, o fim da escravidão nos EUA. Para isso, Lincoln não se constrangeu ao escalar lobistas de estirpes duvidosas para convencer, com cargos públicos, dinheiro público e promessas públicas, os deputados rivais a votarem a favor do governo.

É aí que o espectador corre riscos caso entre desarmado na sessão. Não é fácil acompanhar as negociações por um motivo simples: é preciso saber quem era quem na Câmara dos Representantes, da mesma forma que é necessário saber por que os republicados, hoje lembrados como a representação do que há de mais conservador na política americana, eram à época as pontas de lança de questões humanitárias. Há ali os fundadores do partido, as lideranças radicais, os conservadores aparentemente inflexíveis da época. Uma passada no Google antes do cinema para saber quem foram os atores reais do fim da guerra e da escravidão não faria mal.

A partir dali, a história é com os historiadores (com o perdão do trocadilho), que, nos EUA, não demoraram a apontar onde estavam os erros e acertos da ficção. Ali, houve também quem esteve disposto a fazer paralelos com as disputas hoje encampadas em terrenos americanos, como a ampliação do acesso à saúde pública, os direitos dos imigrantes e até o alargamento da dívida como sobrevida de uma economia combalida pela crise. Há também quem elabore, mundo afora, paralelos sobre a reprodução de métodos escusos para se conseguir apoio a projetos políticos, nobres ou não, em outras fileiras.

Ao cabo, as interpretações da História parecem correr à revelia do diretor, que consegue sucesso em seu propósito mais claro: criar empatia entre o público e o personagem – ainda que o público não tão familiarizado com a história americana deixe a sala sem captar as sucessões de conflitos levadas à tela. Tem sido assim desde ET. Não seria diferente com um personagem do calibre de Abraham Lincoln.

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