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Cultura

'O Início, o Fim e o Meio'

Indignação em estado bruto

por Matheus Pichonelli publicado 30/03/2012 12h19, última modificação 31/03/2012 09h50
Na vida e na obra, Raul Seixas cantou o desapego e a finitude humana num mundo que pedia certezas. Por isso era incompreendido
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Raul Seixas desenha o símbolo da anarquia no corpo durante show em SP

Meu pai tinha pedido para acompanhá-lo até a chácara num sábado de manhã. Birrento, queria ficar em casa, na tevê ou coisa assim. Todo sábado era a mesma via crucis: pegava a caminhonetezinha, passava por algumas lojas, comprava ração e alguns utensílios e seguia mato adentro numa estradinha de terra, até um descampado onde só havia duas casas, uma trave de madeira e uns pés de carambola azeda.

Não devia ter mais de seis anos e era a única companhia de meu pai naquele dia. Disse que não queria ir, e meu pai me prometeu que, se eu fosse com ele, me levaria para conhecer o Raul Seixas. Me troquei num pulo e disse: “Vamos!”

Raul passava naquele tempo pela cidade para fazer um dos seus últimos shows, na famosa turnê com Marcelo Nova (e meu tio se orgulharia até hoje por ter aberto uma latinha de cerveja gelada para ele antes do show, que não conseguiu terminar).

No caminho para a chácara, ele estacionou na frente de uma casa, onde tinha de buscar alguns papéis, e me deixou sozinho na caminhonete, ansioso por conhecer o lendário cantor. Meu pai então veio com toda a cara de pau do mundo e disse: “Não vai dar. Ele está dormindo e não quer ser incomodado”. Obviamente Raul não estava naquela casa. Era um golpe do meu pai, que conseguiu o que queria e me levou para a chácara.

A infância tem seus cheiros e sensações, e a minha tinha também uma trilha sonora. Raul Seixas foi o primeiro som “adulto” que me pegou, e me fazia cantar sem nem bem entender as letras.

Um dia, em agosto de 1989, chegávamos com a mesma caminhonete na garagem de casa quando ouvimos pelo rádio que Raul estava morto, em decorrência do alcoolismo. Não lembro o que senti, mas lembro de ver meu pai se trancar no quarto com uma “garrafa de bebida enrustida” – porque minha mãe não podia ver. Só saiu de lá na década seguinte. Do lado de fora, ninguém mais aguentava aquela choradeira que vinha de dentro enquanto ele ouvia, repetidamente, “Canto para Minha Morte”.

Desde então, deixei de gostar de Raul. Achava tudo aquilo lúgubre demais. Para mim Raul tinha perdido a batalha para ele mesmo, e eu não queria ouvir o som de um sujeito que me mandava tentar outra vez mas falhava ao tentar se salvar.

Muito tempo depois, numa dessas esquinas entre a infância e a adolescência em que tudo parece truncado, recorri a uma velha fita em K7 e revi os sons da minha infância – que só então fariam sentido. Era como se aquelas músicas tivessem uma frágil proteção de vidro pedindo para ser quebrado em casos de emergência. Como a vida é feita de emergências, muitas, o vidro foi quebrado e consertado muitas e muitas vezes.

Lembrando de tudo hoje, depois de assistir ao documentário “O Início, o Fim e o Meio” (e tudo o que podia ser dito sobre o filme está , de Cynara Menezes), listei muitos dos sons (e filmes e livros) que me viraram a cabeça até meus quase 30. Das bandas de rock dos 80 à poesia de Caetano, passando pela rebeldia elegante de Chico Buarque, conheci artistas de obras mais elaboradas e completas, que se reinventaram com o tempo e sobreviveram.

Mesmo assim, nada ainda se compara à pancada certeira de Raul. Sua música é a indignação em estado bruto. Não que lhe falte poesia, mas para ele isso é só um acessório: seu grito é mais agudo, rudimentar, e está em primeiro plano. Por isso, quando bate, derruba. Porque ninguém como ele pegou as regras para se vencer na vida (“uma grande piada”) e virou tudo de ponta-cabeça.

E colocou em xeque, junto com parceiros notáveis (como Paulo Coelho, destaque no filme), valores sacrossantos como a fidelidade (“o amor a dois profana o amor de todos os mortais”), a lealdade (“porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo”), o sucesso (“eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitado e ganho 4 mil cruzeiros por mês”), a amizade (“hoje eu te chamo de careta e você me chama vagabundo”), a família (“eu calço é 37, meu pai me dá 36. Dói, mas, no dia seguinte, aperto meu pé outra vez”), a sabedoria (“antes de ler o livro que o guru te deu você tem que escrever o seu”), a divisão entre o bem e o mal (“o mais puro gosto do mel é apenas defeito do fel”), o Estado (“e sempre que você dorme de toca ele fatura em cima do inimigo”), a religião (“a madre da escola te ensina a reconhecer o pecado e o que você sente é ruim: mas, baby, Deus não é tão mau assim”), a carreira ("é você olhar no espelho e se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo e limitado e que só usa 10% de sua cabeça animal”), a coerência (“eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”), a obediência (“por que você não para um pouco de fingir e rasga esse uniforme que você não quer? Mas você não quer: prefere dormir e não vê”), a escola (“e o professor não saiu pra lecionar pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar no dia em que a Terra parou”).

O pano de fundo era um só: a derrota cantada num mundo feito para pretensos vencedores. Ele admitia, sem firulas, o tédio, o cansaço, o desencanto. E, em quase todas essas músicas, guardava um questionamento em comum: o que há depois disso tudo? O que realmente importa nessa vida?

Daí a sua predileção pelas coisas do além, os discos voadores, a magia e a morte (“eu te detesto e amo”), em vez das tolices que nos fazem menos gente a cada dia.

O fardo, para ele, foi viver tudo o que cantou – e talvez seja isso o que o torne único na “linha evolutiva da música popular brasileira”.

No filme de Walter Carvalho, essa ideia fica clara quando ele aparece, numa reportagem antiga da tevê, comentando os efeitos de uma ressaca, na orla do Rio, que arremessou seu carro (um Corcel 73?) para longe e provocou estragos na lataria. “A natureza está certa, a onda tá certa: quem não tinha que estar aqui era o homem, é esse aterro, esses prédios aí. Tomara que a onda derrube tudo”. Isso num tempo em que “sustentabilidade” era apenas palavrão.

Em outra cena, o amigo Sylvio Passos, fundador do Raul Rock Club, conta como conheceu o ídolo: ao receber o jovem, Raul pegou o macarrão na mão e jogou no prato do novo amigo, pedindo que ficasse à vontade.

Os relatos sobre esse desapego e a noção exata da finitude humana são uma constante em todo o filme.

Mas nesse encontro entre vida e obra, bebedeiras e abandonos (de sonhos, da família, dos amigos), ainda havia tempo para esperança. Raul se queixava do pessimismo encarnado pelos jornais tomados de “sangue” e garantia: “a gente ainda nem começou”. E, em Ave Maria da Rua, para mim a mais intensa de todas as suas composições, pede: “Segure a minha mão quando ela fraquejar e não deixe a solidão me assustar”.

Raul morreu às portas do Fim da História, decretado após a queda do muro de Berlim, dos anos Collor, do boom da lambada e do axé. Sorte dele, que já não suportava o que via – e vivia em bebedeira eterna para poder ver tudo claramente, sem dor. Sabia dos tempos que estavam por vir.

Morreu em pé, como lembrou Marcelo Nova no documentário, aplaudido e adorado, perto de seu público – apesar do esforço para não desabar, ainda restou o último fôlego para fazer seu último, e brilhante, disco “A Panela do Diabo”.

Raul foi, de longe, o maior nome do rock brasileiro. Mesmo cantando a dúvida num mundo que pedia (e pede) certezas. Um mundo que manda obedecer e não contestar, limpar a bota de quem está em cima e chutar quem está embaixo para um dia se tornar um dos novos bilionários da Forbes. Para ele, tudo isso era passageiro, inútil. “Um saco”, como passear no jardim zoológico para dar pipoca aos macacos.

Por tudo isso, se alguém um dia perguntar quem era o doido, é bom pegar o espelho: não foi Raul que se deslocou do próprio mundo. O mundo é que não estava (nem está) pronto para entender Raul.

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