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Cultura

Crônica do Villas

Galinhas d’Angola

Quem diria, elas foram parar na primeira página do jornal
por Alberto Villas publicado 22/01/2016 05h46
Dario Sanches / Wikimedia Commons

A primeira vez que vi, ao vivo, uma galinha d’Angola, foi na Fazenda do Sertão, interior de Minas Gerais. Foi no dia em que chegamos, eu e meus quatro irmãos, e a noite começou a cair. 

A Fazenda do Sertão não tinha energia elétrica naqueles anos 60, e quando o céu ameaçava escurecer, os empregados iam até o paiol, pegavam as lamparinas e começavam a distribuir pelos cômodos da casa. Era nessa hora que a gente começava a ouvir, de longe: 

Tou fraca! Tou fraca! Tou fraca! 

As galinhas d’Angola iam se aproximando e se ajeitando numa frondosa árvore que ficava bem em frente ao curral. Elas procuravam o último galho, lá em cima, pra passar a noite. De repente, o silêncio ia tomando conta daquele fim de mundo. Assim que a noite caia, as galinhas d’Angola quietavam. 

De manhã, bem cedinho, ainda na cama, ouvíamos um tou fraca aqui, outro tou fraca ali, que iam se perdendo à medida que elas desapareciam no mato. 

Zé Barcelos, o dono da fazenda, tinha muitas histórias de galinhas d’Angola pra contar. Ele dizia que elas só botavam ovos no mato, longe das pessoas. Ele chegou a encontrar um ninho com sessenta ovos, uma vez. Contava que elas eram ariscas que só e que, pra pegar uma, era a coisa mais difícil desse mundo. 

Quando eu perguntei porque todas elas eram idênticas e naquele bando, quem era o galo, ele não soube responder. Zé Barcelos contou que elas eram safadas que só, verdadeiras galinhas, mas que era muito difícil saber quem era o macho, o galo d’Angola.

Quando cheguei na França pela primeira vez, pra ficar, soube que lá elas tinham o simpático nome de pintade – pintada, em bom português – mas fiquei chocado quando soube que os franceses comiam galinha d’Angola, geralmente acompanhada de couve de Bruxelas. Zé Barcelos jurou pra gente menino, que não se comia galinha d’Angola. 

Mais chocado ainda fiquei quando, muitos anos depois, voltei pro brasil e vi que a galinha d’Angola tinha virado artesanato. Não tinha uma lojinha que não tivesse uma galinha d’angola feita de madeira, de papel maché e mesmo de lata. Vi galinha d’Angola até com a camisa do Corinthians.

No inicio dos anos 80, ela foi parar na parada de sucessos, quando o poetinha maior, Vinicius de Morais, resolveu colocá-la na sua Arca de Nóe. Quem não se lembra de Ney Matogrosso requebrando e cantando:

Coitada, coitadinha

Da galinha d'Angola

Não anda ultimamente

Regulando da bola

Ela vende confusão

E compra briga

Gosta muito de fofoca

E adora intriga

Fala tanto

Que parece que engoliu uma matraca

E vive reclamando

Que está fraca

Tou fraca! Tou fraca!

Tou fraca! Tou fraca! Tou fraca!

E não é que na semana passada, elas foram parar na primeira página do jornal Folha de S.Paulo? Levei um susto quando peguei o jornal no capacho e vi a fotografia, em cores, de três delas caminhando no jardim de um condomínio de luxo no Morumbi.

Sim, as galinhas d’Angola foram convocadas pra exterminar escorpiões que ameaçavam os moradores do condomínio, cercado de verde e flores.

A Folha conta que alguns moradores reclamaram daquele tou fraca, tou fraca, tou fraca logo cedo, mas caíram na real que as danadas eram mesmo boas de bico. Duas delas foram, inclusive, flagradas disputando um enorme scorpio scorpionise, enfim, um perigoso escorpião.

Teve moradores que convocaram uma edição extraordinária de condôminos e chiaram, alegando que a presença das penosas ali ia desvalorizar os apartamentos. Só se conformaram quando perceberam a elegância das danadas. Afinal de contas, galinha d’Angola não é uma caipira qualquer, argumentaram.

Tenho certeza que depois de aparecer na primeira pagina da Folha, com esse sucesso todo, daqui a pouco, elas estarão dando entrevistas no JN, tomando café da manhã com Ana Maria Braga, dançando com a Anitta no encontro com Fátima Bernardes ou fazendo uma participação especial no BBB.

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