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Crônica

Fora Costa e Silva!

por Alberto Villas publicado 09/09/2016 04h54
A nossa luta para derrubar um governo golpista
Arquivo / Agência Senado
Costa e Silva

Posse de Costa e Silva

Nós nos reuníamos quase todos os dias no final da tarde na escadaria da Igreja de São José, no coração de Belo Horizonte. Eram reuniões tensas e muito aflitivas porque sabíamos que haviam hipócritas rondando ao redor. Depois do por do sol, subíamos a Rua da Bahia em pequenos grupos, disfarçados, rumo a Faculdade de Filosofia. 

Era na Fafich, segundo o regime vigente, que ficava um dos ninhos de comunistas. O Colégio de Aplicação, um casarão anexo ao prédio na faculdade, vivia cercado por meganhas, que era como chamávamos aqueles soldados vestidos ora de preto, ora de uniforme caqui, mas sempre armados até os dentes. 

Havia uma canção no ar, uma parceria de Caetano Veloso e Gilberto Gil, chamada Divino Maravilhoso. Passou meio desapercebida dos censores e chegava a tocar no radinho de pilha Phillips que eu sempre carregava na mochila de couro de bode comprada no Mercado Modelo de Salvador. 

Naquela Belo Horizonte, a condução era um trólebus laranja, o refrigerante era o Guarapan e as revistas nas bancas de jornal eram a Manchete, a O Cruzeiro e a Fatos e Fotos. O carro era o Fusca, a bicicleta era a Motoneta, o cigarro era o Minister, o chiclete era o Ping Pong e o chique era comprar numa loja de departamentos chamada Guanabara. 

O chocolate era o Neugebauer, o drops era o Dulcora, o dentifrício era o Kolynos, a televisão era em preto e branco, o telejornal era o Repórter Esso e o programa que fazia gente rir era o Balança mas não cai

A guerra do Vietnã estava nas manchetes dos jornais. Soldados americanos e vietcongs caíam mortos a toda hora, enquanto os pobres americanos marchavam de Memphis a Washington, desafiando o coro dos contentes. 

No Hospital das Clínicas, em São Paulo, João Ferreira da Cunha, o João boiadeiro, de 23 anos, recebia um coração novo no lado esquerdo do peito, o primeiro a ser transplantado no Brasil. 

Enquanto isso, Paris estava em chamas. 

Tudo começou na cidade de Nanterre, nos arredores de Paris, no segundo dia do mês. Os estudantes ocuparam a universidade em protesto contra a burocracia que, entre outras coisas, impedia os alunos de dividirem os quartos da residência estudantil com colegas do sexo oposto. 

Foi o estopim. 

Na Faculdade de Filosofia, tramávamos a queda da ditadura e nosso alvo, visto assim do alto, eram aqueles soldados enfileirados lá embaixo junto ao muro do Colégio de Aplicação. Jogávamos saquinhos cheios de água e merda, tocos de giz e muitas vezes pedaços de tijolos e cacos de telhas, numa guerra entre Davi e Golias. 

Levávamos a sério aquela parceria dos baianos e sonhávamos que um dia tudo seria divino e maravilhoso. Sabíamos que era preciso estar atentos e fortes e não tínhamos tempo de temer a morte. 

A avenida Afonso Pena era a praça de guerra nos dias fúria. Sentíamos uns heróis e enfrentávamos os batalhões, os soldados e seus canhões. Nosso grito de guerra era o abaixo a ditadura e yankees go home

Apanhávamos muito e batíamos pouco. Toda manifestação estava proibida mas nós que amávamos tanto uma outra revolução, ignorávamos solenemente e íamos à luta, braços dados ou não.

Um dia, lembro-me bem, uma Olivetti foi arremessada do prédio vizinho ao edifício da Mesbla. Ninguém nunca soube quem atirou aquela máquina de escrever tão pesada, que voou pelo céu de Belo Horizonte. A Olivetti não acertou ninguém, espatifou no asfalto, espalhando teclas para todos os lados. 

Mesmo sem redes sociais, aquela revolta que começou em Nanterre se espalhou pelos cantos do mundo e chegou à capital de Minas Gerais, onde sonhávamos derrubar a ditadura que acabou com a democracia, acabou com a nossa liberdade, com as eleições e acabou também com o Simca Chambord. 

Um golpe que depôs o presidente João Goulart e colocou no lugar um marechal sem pescoço e depois um general de óculos escuros que carregava na farda o nome de Arthur da Costa e Silva. 

Era maio de 1968.

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