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Cultura

Cinema e futebol

Estranho no ninho

por Orlando Margarido — publicado 10/05/2011 08h35, última modificação 10/05/2011 08h35
No documentário Cine Pelé, cenas curiosas do jogador fora dos gramados. A maior prova de timidez de surgiu durante uma partida do Santos em Paris, nos anos 1960, quando o craque tremeu diante de Brigitte Bardot

Que outro jogador de futebol pode se gabar de ter sido aconselhado por John Huston? Pelé, sim. Mas ele, que atuou em cerca de 20 filmes, não se sentia à vontade na frente das câmeras. Imagine-o na cama com a atriz Thereza Rachel, mulher do diretor Ipojuca Pontes, que rodava com o casal Pedro Mico. “Eu estava muito constrangido e tivemos de refazer a cena várias vezes. Como era possível o marido pedir para eu beijar e abraçar a mulher dele?”

A curiosa passagem, e muitas outras, poderão em breve ser conferidas por quem o conhecia apenas do gramado, ídolo da Seleção e do Santos. Estão no documentário Cine Pelé, realizado por Evaldo Mocarzel e apresentado por ocasião da homenagem ao jogador no 15º Cine PE – Festival do Audiovisual de Recife na semana passada. São 60 minutos que serão condensados para 25 no Canal Brasil. Não bastasse o Pelé ator, há também o cantor, instrumentista, compositor. Entre depoimentos e cenas dos filmes, ele dedilha o violão e canta as próprias canções brego-românticas. Não é um vozeirão, mas quem ousaria cobrar afinação do rei?

Pelé surgiu no cinema pela figura de esportista genial, motivo de sua primeira aparição em O Preço da Vitória, de Oswaldo Sampaio, 1959. Mas ali se apresentava como outros jogadores. Seu primeiro papel significativo veio três anos depois em O Rei Pelé, de Carlos Hugo Christensen. Interpreta um novato do futebol buscando ascensão. “Desde menino eu adoro cinema. Assistia a muitos filmes de Grande Otelo, Mazzaropi, Ankito”, comentou em entrevista à imprensa.
Mas a carreira de intérprete deu-se com diretores não necessariamente vinculados com o grande público. Caso de Anselmo Duarte em Os Trombadinhas.

Quando foi jogar no Cosmos, time da Warner, um dos grandes estúdios de Hollywood, as portas do cinema se abriram. Em Fuga para Vitória (1981), de John Huston, roubou a cena de Sylvester Stallone por este não saber dar uma bicicleta. “Eu tive de ensiná-lo, mas não deu certo. Então foi minha vez de ouvir os conselhos pacientes de Huston”. Voltariam a se encontrar em A Vitória do Mais Fraco, Huston como ator. Hoje se diz escolado. “Se me chamarem para bons papéis, eu volto ao cinema”.

A maior prova de timidez de Pelé surgiu durante uma partida do Santos em Paris, nos anos 1960, comentada no documentário. A madrinha da partida era Brigitte Bardot, num apertado shortinho. Enquanto o time fazia a revista natural com os olhos, Pelé mirava na direção contrária. “Não seria fácil entrar em campo depois de ver aquilo tudo. Nunca tremi tanto como ao ver Bardot.”